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Um fim do mundo africano – entrevista com Pepetela

Cláudia Fabiana Cardoso entrevista Pepetela sobre seu romance “O quase fim do mundo” (Dom Quixote). A entrevista aconteceu em Porto de Galinhas, Pernambuco, Brasil, em Novembro de 2008, ano de lançamento da obra.

O que o inspirou a dar a sua versão para o tema “fim do mundo”?
A ideia surgiu de uma conversa com minha filha há muito tempo, quando aconteceu o atentado no metrô de Tóquio, com gás sarin, na década de 90. Isso é muito comum em mim. Tenho uma ideia e penso: “um dia vou escrever sobre isso”. Anoto várias ideias, algumas se perdem e outras voltam, mesmo muito tempo depois, quando acho que está na hora de escrever. Aconteceu com vários outros romances, “Lueji”, “A Gloriosa Família”, “Parábola do Cágado Velho”, “Jaime Bunda”, em parte com “A Geração da Utopia”.PepetelaPepetela
Em “O quase fim do mundo” o importante foi tentar imaginar um universo em que há pouco de tudo; há mais do vegetal e do mineral, mas do animal muito pouco. Também tive logo a ideia de que não poderia ser em Angola. É um tema universal e a história tinha que acontecer em algum sítio com um significado outro. Foi aí que cheguei à região dos Grandes Lagos, que é o paraíso na terra, mas é o inferno em África. Há quarenta anos, pelo menos, estão-se a matar uns aos outros estupidamente e hoje em dia já não se sabe muito bem porque se está a matar. Recomeçou agora a guerra na parte oriental do Kivu.
Enfim, a ideia é: na parte mais desgraçada do continente mais desgraçado, que corresponde ao sítio onde há os vestígios humanos mais antigos, ou seja, onde começou a humanidade, o mundo vai recomeçar.

Calpe, a cidade imaginária que está em outros romances, aparece em “O quase fim do mundo” como o único lugar em que há sobreviventes de uma hecatombe. Por que em Calpe?
Calpe aparece primeiro em “Muana Puó” e é um lugar do sonho. Já em “O cão e os caluandas” é a cidade do autor. Aparece também em “A parábola do cágado velho”, e em cada um dos livros ela é diferente. Nesse último romance ela pode ser até mais parecida com Luanda, mas tive o cuidado de colocá-la rodeada de montanhas, o que não há em Luanda.

Mas ela é aqui também o lugar da utopia e do sonho, não é? Porque você está contando a história de um “quase” fim do mundo, de um novo começo exatamente em Calpe.
É verdade. Eu uso Calpe para fazer uma ligação com outros textos e para trazer a ideia do recomeço. Num determinado momento a personagem somali fala que a humanidade provavelmente já teve outros recomeços. E não há novidade nisso. Há inúmeros fenômenos que aconteceram e ainda não há explicação, como as figuras gigantes nos Andes que só podem ser vistas do alto, ou o calendário solar em pedra construído pelos incas.

Além dos registros históricos, você busca inspiração no cinema?
Certamente, tenho uma influência do cinema, sobretudo do cinema americano. E aí me refiro ao filme de ação. Entrar logo na ação foi algo que aprendi com o cinema, não com a literatura. É a minha preocupação: agarrar logo o leitor.

O romance faz isso realmente. A linguagem é muito cinematográfica. O que pensa sobre uma adaptação da obra para o cinema?
O grande problema é que já não acredito. Já me propuseram vários roteiros de livros meus, mas nenhum avançou realmente. “Mayombe” teve um grande roteiro e foi um pouco mais à frente, mas parou com a falta de dinheiro.

A ironia e o riso estão presentes o tempo inteiro no romance. Você tem acentuado cada vez mais o tom irônico no seu discurso ficcional. No caso desse livro, os personagens em nenhum momento se desesperam com o “fim do mundo”.

É porque é um fim do mundo africano, contado por um africano, por isso tem que ter humor e ironia. O africano consegue rir de sua própria desgraça. Digo o africano por causa do livro, mas nesse aspecto ele é bem angolano. O cinema e a literatura já estão cheios de catástrofes, queria fazer algo não pessimista, mas no fundo também é.
A ironia é a melhor forma para prender o leitor e por outro lado colocá-lo a pensar. “O cão e os caluandas” talvez seja meu livro mais satírico. Escrevi entre 1979 e 1980, na época eu estava no governo. Foi nessa altura que eu descobri a ironia como arma.
Ou seja, a ironia é uma arma, é usada de forma consciente e tem a ver com uma maneira de contar angolana. Está lá nos contos tradicionais e na literatura angolana em geral, como, por exemplo, em Uanhenga Xitu, nos contos do João Melo, em Ondjaki etc.

Os sobreviventes precisam de conviver e buscar alternativas. Em um “O quase fim do mundo” a saída para renovar os ciclos é a reflexão e o diálogo?
Uma coisa importante foi recriar as relações sociais com os preconceitos que os personagens já traziam. Porque há algumas coisas que eu queria tratar, como a questão da luta de grupos, e o que ficou, por exemplo, das lutas no Ruanda, no Congo etc. No fundo é uma pergunta: que raio de pessoas são essas para começar uma humanidade? Ora, a nossa humanidade atual, como é que começa? Com um irmão a matar o outro, Caim a matar Abel. E essa nova humanidade começaria da mesma maneira como a outra acabou. Não há aí muita inovação, não é? Enfim, a idéia era jogar com isso tudo, mas de fato o que ficam são as relações entre as pessoas.

Entre os personagens estão alguns moradores de Calpe, uma somali, um etíope, uma americana e um sul-africano. Há um momento em que eles chegam à Europa de avião e vêem que tudo ali está morto. A Europa é de fato um “velho mundo” e dela só restariam os monumentos?  

É isso, mas há uma tentativa de chamar a atenção para as relações atuais entre a Europa e os países que enviam pessoas para lá. É de fato um problema muito sério. E a ironia está também no fato da personagem Isis, a somali que é historiadora, estar grávida de um etíope e ficar na França. É uma piada com os franceses, porque o primeiro francês que nasce é, na verdade, africano.

Mais uma vez são vários os narradores em um romance seu. Há quebras e mudanças de voz a todo instante. Dramatizar diferentes experiências é uma maneira melhor de olhar o mundo?

Um escritor não pode limitar-se à sua própria visão. É preciso dar a visão dos personagens, porque cada um deles é um outro. Eu descobri isso já em “Mayombe”. Estava a escrever e de repente vem um personagem e diz “Eu, o narrador, sou Teoria” e conta um pouco da sua história pessoal. Depois outros personagens-narradores foram aparecendo, um pouco de maneira inconsciente. Eu escrevi “Mayombe” na guerrilha, à mão, e ele resistiu à chuva e outras coisas. Quando tive tempo de revê-lo, após a independência, fui passar a história para a máquina de escrever e pensei bastante se mantinha do mesmo jeito ou não, então vi que tinha que ser assim. No fundo é isso: dar a voz aos personagens.

Uma curiosidade: você tem preferência por algum personagem de “O quase fim do mundo”?
Talvez a Ísis, embora eu a tenha deixado na França. Vibrei quando ela apareceu. Ou talvez a Jude, a adolescente. As duas. Raramente seria um homem. As mulheres são mais fortes.

São elas as responsáveis por gerar vida também. E é interessante como o sexo e os desejos estão em cena no romance.
Um amigo leu antes de ser publicado e disse que o livro era muito erótico. Mas tem que ser, ora, está a tratar da vida.

Mas diga: quais são os segredos dos chás preparados pelo curandeiro Riek que, à sua maneira, vai ajudando a unir os casais?
Há um conhecimento profundo de plantas pelos curandeiros africanos, sobretudo no que diz respeito à reprodução e à fertilidade. Há plantas que são conhecidas como afrodisíacas, como o pau de Cabinda.
Mas há uma preocupação em passar um pouco do conhecimento tradicional africano, que muitas vezes é desprezado pela dita civilização. De vez em quando é preciso dar uma lição.

Há muitas lições na narrativa. Como o debate sobre a excisão do clitóris de meninas e mulheres em certas regiões da África e outras partes do mundo.    
Aproveito a ficção para dar recados. A mutilação genital é um problema muito debatido. Há situações conflituosas que chegam ao tribunal, casos de crianças de 11 ou 12 anos que sofrem com a castração, a retirada do clitóris, e discute-se o direito do Estado em interferir naquela cultura, indo contra determinadas tradições. É muito complicada não só a consequência física mas também a causa da prática, que é a submissão da mulher. Porque ela não consegue libertar-se e buscar o seu próprio prazer e sua condição de vida.

Na última parte d’“A geração da utopia”, a crítica à propagação de determinadas seitas e igrejas já aparecia de maneira irônica e mordaz. Agora, ela é um dos focos no romance, até porque várias teorias sobre o fim do mundo vêm das religiões. A maneira como muitas dessas religiões se apresentam é de fato arma letal, representando uma barreira enorme para as consciências e para relações mais solidárias. É essa a sua preocupação?
Na altura d’“A geração da utopia” o fenômeno da propagação de maneira desordenada de igrejas estava a começar em Angola e achei oportuno discutir a questão. Mas as seitas foram crescendo. Neste momento, é um problema grave. No mês passado, por exemplo, foram presos líderes de duas seitas religiosas não legalizadas que mantinham 40 crianças de 4 a 10 anos aprisionadas e as torturavam todos os dias porque diziam que elas eram feiticeiras. Esse é um fenômeno novo, em Angola não existia. O feiticeiro, diferente do curandeiro, faz o mal e é sempre um adulto; o feitiço está ligado a alguma ambição ou inveja, portanto, não tem nada a ver com as crianças. E são práticas que vêm do Congo, isso não existia em Angola. Agora fecharam as tais seitas e as crianças foram para um lar e estão sendo acompanhadas por psicólogos. Os traumas são enormes, estavam a ser torturadas e chegariam à morte. O pior é que este episódio aconteceu em Luanda, na capital.
Também em “Os predadores” ponho essa questão, mas ninguém lê os livros. Enfim, me sinto na obrigação de discutir os problemas antes que se tornem graves, mas não adianta. Eles tornam-se graves e depois as pessoas descobrem o que está acontecendo.

Espero que a máquina do fim do mundo não funcione…
É verdade. Mas outro dia, à boa moda angolana, nós rimos com uma tragédia. No livro “O desejo de Kianda” acontece o desmoronamento de prédios na lagoa de Kinaxixe, ninguém sabe por quê e tal. Esse ano o edifício da DNIC, a polícia de investigação criminal, caiu em Angola. Houve avisos de que o prédio estava mal. Duas horas antes do desabamento se ouviu um estrondo e uma parede abriu. Os polícias saíram e deixaram os presos, muitos morreram. Um drama, não se falava em outra coisa. José Luís Mendonça, dois ou três dias depois, diz: “Pepetela é feiticeiro”. Nós rimos, foi uma coincidência, é claro, mas o fato é que se espera muitas vezes pela desgraça.

“O quase fim do mundo” traz questões universais. Quais são suas expectativas quanto à divulgação do livro, inclusive a tradução e a circulação em outros países?
Em Portugal o livro já está na segunda edição, e isso é bom. Mais cedo ou mais tarde ele sairá aqui no Brasil. E por enquanto ninguém propôs tradução. Geralmente demora um pouco. Já nos Estados Unidos, acho mais difícil sair. Tentou-se com “O terrorista de Berkeley”, mas não aconteceu. Vamos ver.

Por falar nos Estados Unidos, como você está vendo a eleição de Barack Obama? Viu o texto de Manuel Rui sobre essa vitória?
Eu também quis escrever sobre as eleições, mas não deu tempo. Bem, Obama vai tomar posse em janeiro, provavelmente em fevereiro eu estou contra ele, já terei críticas a fazer, isso é normal. Mas acho que é um salto civilizacional extremamente importante. Pensar no que eram os Estados Unidos nessas questões, por exemplo, raciais, nos anos 60, de Mater Luther King, sobretudo no sul do país, e o que são hoje, 48 anos depois, com um presidente negro, mesmo que para os africanos ele não seja exatamente negro, é extraordinário. A primeira vez que fui aos Estados Unidos, nos anos 80, notei, sobretudo, nas publicidades, anúncios para negros. Eles estavam aparecendo e interessavam também como consumidores. Depois fui acompanhando e houve uma ascensão, hoje praticamente têm os mesmos direitos, mas com algumas restrições.
Ouvi falar do Obama pela primeira vez em 2004 e para mim não foi surpresa quando ele veio como possível candidato dos Democratas. Agora a eleição dele, mesmo pra África, é importante. A ironia é ele ser mestiço. Por enquanto a África está a fazer festa. Mas ela também tem minorias mestiças ou brancas, que são vistas de lado pela maioria negra hoje. Há um reverso da medalha do tempo colonial. E existe uma ironia porque o homem mais poderoso do mundo é mulato.

A nova civilização que você pensa neste último romance ironicamente também é mestiça.
Exatamente. E gosto sempre de lembrar que Jesus Cristo era mestiço. Essa história de Jesus loiro de olhos azuis é invenção da Idade Média européia. É evidente que os hebreus daquela época eram mestiços, com cabelos ondulados, nariz achatado e cor castanha. Tudo comprovado cientificamente. Isso é bom pra desmistificar. Porque só há uma raça, a raça humana, e acabou.

No Brasil, caminha-se lentamente pra essa discussão, mas há uma separação ainda muito grande.

O Brasil é muito ambíguo. Uma questão complicada é, por exemplo, pensar em um Movimento Negro seguindo os padrões do Movimento Negro americano. Porque a segregação nos Estados Unidos foi feita de maneira diferente. O Brasil tem que encontrar o seu caminho.
Uma vez um representante do Movimento Negro no Brasil me chamou para falar aos “irmãos negros”, nos anos 80, do período de luta pela independência angolana e me disse, nas palavras dele, que “o nosso inimigo é o branco”. Eu lembrei a ele que a nossa luta nunca foi contra o branco, mas contra o colonizador, contra o sistema, o que é diferente. E no sistema colonizador havia também muitos negros. Uma grande parte do exército português era de negros. Em toda a história de Angola sempre houve uma parte de negros a lutarem a favor dos portugueses. Nossa luta era de libertação, libertação de todos. E outra coisa é a luta de classes.
Enfim, eles não gostaram muito da minha conversa, mas acho que no Brasil se mistura muito as coisas. Eu acho que o Movimento Negro americano teve um papel negativo aqui, porque os brasileiros começaram a tratar formas de segregação que não eram as próprias. A luta assim fica mais difícil. Mas com as novas políticas acho que as coisas estão melhorando.

 

Publicada originalmente  no blog da autora, Sararau.

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