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Yonamine

Para um crítico brasileiro não deixa de ser interessante visitar a exposição de um angolano – Yonamine – na galeria 3 + 1 arte contemporânea em Lisboa. Vislumbram-se afinidades poéticas pouco exploradas e recalcadas historicamente. Soma-se a isto, o nome do artista que lembra uma das principais etnias ameríndias que ainda sobrevive no Brasil: a Yanomami. Em um mundo globalizado, onde circulam livremente o capital e as ideias, mas se constrange impiedosamente fluxos migratórios, o contacto entre diferenças culturais se torna um fato político por excelência. Por um lado, há uma tendência a homogeneização, que mede todas as produções artísticas e todas as formações culturais a partir de um mesmo metro poético e social. Em um sentido inverso, na ânsia de se preservar o Outro, acaba-se inviabilizando a tensão das diferenças na defesa de um multiculturalismo sem conflitos e sem trocas. O importante, a contrapelo do politicamente correcto, é fazer com que o heterogéneo se afirme nas suas dissonâncias, revelando o quanto há de convivência e antagonismo neste refluxo pós-colonial da Europa contemporânea.

Vista geral da exposiçãoVista geral da exposição

Falava no começo do modo como esta exposição me tocou enquanto brasileiro. Não se trata de reduzir a potência daquela obra a uma perspectiva particular. Todavia, reconheci na precariedade barroca de Yonamine elementos próprios à formação cultural do Brasil. Sua poética põe em contacto, de modo exuberante e rigoroso, imagens, vozes, cores e afectos os mais distintos. O que se revela nesta obra é uma grande plasticidade, onde tudo é apropriado, deslocado e transformado, tornando-se uma festa de antagonismos.

Percebi certas ressonâncias entre este trabalho e a investigação poética do artista brasileiro Edson Barrus. Há nos dois artistas a potência do híbrido e a exploração do ruído provocado pela confusão biológica e cultural da mestiçagem. Ecoando a antropofagia de Oswald de Andrade, vemos a afirmação das migrações, da magia e da vida, resistindo aos estados tediosos e apostando em uma barbárie tecnicista.

Microlife, Yonamine, 2008.Microlife, Yonamine, 2008.

A própria forma de apresentação do trabalho fala do que é próprio ao mestiço. O todo é diferente da mera soma das partes e estas permanecem vivas dentro do todo. Várias peças distintas se misturam e se tornam uma só, sem perder seus traços particulares e sem recusar uma nova unidade temporária. Os jornais espalhados pela galeria e as serigrafias disseminadas nas paredes são a liga da exposição, dando o carácter de instalação à obra. A imagem gravada nas serigrafias é a de um congresso africano após as guerras coloniais. Entremeando-as aparecem outras serigrafias alterando frases contidas em maços de cigarro onde se lê coisas do tipo “Português prejudica gravemente sua saúde e a dos que o rodeiam”. O humor ácido e a crítica ferina surgem também em um vídeo projectado dos dois lados de uma tela, na qual o artista colou uma notícia abordando a imigração. De um lado, vemos a imagem do próprio artista diante de uma parede de jornais que se incendeia e, de outro, uma mão esfregando uma folha de jornal, como se quisesse apagar ou limpar a notícia.

PhreeStyle, Yonamine, 2008.PhreeStyle, Yonamine, 2008.detalhe Microlife.detalhe Microlife.

Em um outro canto da galeria, temos uma pilha de jornais com um buraco no meio, contendo no fundo uma imagem estranhíssima de vermes se alimentando de alguma carne em putrefacção. Há por toda a exposição um ruído crítico que explora destemidamente as tensões de um mundo que teme, com certa hipocrisia, seus antagonismos culturais, económicos e sociais.

in EXIT Express, Abril 2008.

imagens da exposição Tuga Suave, de Yonamine, Galeria 3+1 Arte Contemporânea, Lisboa, 2008.

 

Yonamine
Yonamine nasceu em Luanda, em 1975. Viveu em Angola, no Zaire (actual R.D.C), no Brasil e no Reino Unido. Actualmente vive e trabalha entre Lisboa e Luanda. A sua formação artística consolidou-se sobretudo durante a Primeira Trienal de Luanda, em Angola, através da participação em diversos workshops, conferências e seminários. Participou em várias exposições internacionais no Brasil, nos Museus de Arte Moderna da Bahia e do Rio de Janeiro, nas Canárias, no Centro Atlântico de Arte Moderna, em Cuba, na 10ª Bienal de Havana, destacando-se a sua presença na 52ª Bienal de Veneza, no Pavilhão Africano, integrando a exposição Check List  Luanda Pop, e na 9ª edição da Bienal de Sharjah, nos Emiratos Árabes Unidos.

 

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