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A África das periferias de Lisboa: a produção artística na periferia

No dia 16 de Março o Chapitô acolheu o BUALA para mais uma calorosa Tertúlia, desta vez sobre a produção cultural na periferia de Lisboa. Aqui ficam umas linhas sobre os nossos convidados e alguns aspectos que partilharam connosco da sua experiência (fragmentos de discurso).

 

JOAQUIM ARENA

Ilha de São Vicente, Cabo Verde (1964), filho de pai português e mãe cabo-verdiana. No final dos anos sessenta chega com a família a Portugal. Viaja pela Europa, regressa a Lisboa, no início dos anos noventa, onde se licencia em Direito. Dirige algumas revistas de temática lusófona, como a África Hoje, ao mesmo tempo que desenvolve projectos na área musical. Em 1998, regressa a Cabo Verde, trabalha na redacção do jornal A Semana,antes de fundar o jornal O Cidadão. Actualmente, vive entre Lisboa e S. Vicente. É advogado, músico e jornalista. A verdade de Chindo Luz é o seu primeiro romance, sobre o processo de descoberta da identidade cultural pelas comunidades emigrantes que habitam na orla das grandes cidades. Recentemente publicou Para onde voam as Tartarugas. 

ANTÓNIO GUTERRES

Lisboa (1978). Coordenador do centro de experimentação artística do Vale da Amoreira. Estudou serviço social, há dez anos que coordena vários projectos em bairros sociais da grande Lisboa. Integra a Freestylaz, associação que congrega membros de vários bairros e tenta unificá-los através do associativismo juvenil, música e video. Coordenou projectos do programa Escolhas. Foi consultor para o emprendedorismo jovem na Alta de Lisboa para o programa k cidade/aga khan. Colabora esporadicamente com universidades.

LBC  

Nasceu na ilha de Santiago, Cabo Verde, cresceu nos subúrbios da cidade da Praia, no bairro Txetxenia. Foi para Portugal em 2002 e, desde então, reside na Cova da Moura. Desde muito cedo que gosta de escrever e fazer crítica social, ouve Rap desde criança, e defende um hip hop pela justiça e liberdade, dando a voz àqueles que não têm, fazendo desta cultura uma ferramenta na luta pela causa dos oprimidos, excluídos, marginalizados e silenciados pela sociedade. É membro do grupo Maphia Negra klick e da família “nós k nasi omi omi k ta mori omi guerrilha”. Estudou tradução e é mediador numa escola.

António Guterres, Joaquim Arena e LBCAntónio Guterres, Joaquim Arena e LBC

 

Joaquim Arena – Falou das sucessivas vagas de imigração económica para Portugal, na primeira que vinha de Cabo Verde (finais dos anos 60) as famílias que chegavam estavam espalhadas na área de Lisboa. A sua família estabeleceu-se na zona de S. Bento e depois na parte oriental da cidade. Este é o tema do seu 1º livro A verdade de Chindo Luz. A grande vaga de imigração económica começou depois dos anos 80 e a instalação dessas populações deslocou-se para a periferia, e há bairros demarcadamente de africanos nos subúrbios de Lisboa. Com isto, as periferias mudaram (aos portugueses rurais que vinham para a cidade em busca de trabalho, juntaram-se os africanos).

Falou do seu caso pessoal, começou por se sentir português mas a partir de certa altura resgatou a sua relação com o país de origem sentindo-se cabo-verdiano. Contou a história da compra da casa de férias abarracada no bairro de Santa Catarina onde a sua família reencontrava a vizinhança e sobre a vivência e o bem-estar que a recuperação da “cabo-verdianidade” originava. “É que o crioulo mantém o cordão umbilical.” Destacou o papel da periferia na contribuição para o aumento de natalidade e para uma constante renovação cultural.

LBC – “O conhecimento do Rap levou-me a conhecer África e as figuras da História de ÁFrica”. Falou sobre a sua relação com a música, disse que o Rap é o que se faz e o Hip Hop o que se vive. 

Falou da Plataforma Gueto não enquanto espaço geográfico, mas como um movimento simbólico, de luta contra todas as formas de opressão, contra o racismo, o machismo e outras formas de exploração. Junta pessoas de vários bairros para mobilizar a comunidade.

António Guterres – Falou da sua vivência como activista do Centro de Experimentação do Vale da Amoreira. Este bairro que é, em si, freguesia data de 74/75 quando chegaram os retornados. Entre brancos, negros e mulatos, todos são africanos. Quando começou o seu trabalho percebeu que o medo de fazer um centro cultural num bairro problemático levou os organizadores envolvidos a alargar a discussão à população (noutros locais na formação de centros culturais ninguém vai perguntar à população residente se quer assim ou assado): o medo acabou por servir para tornar o método de trabalho mais horizontal.

Isabel Pato – A acção social que se faz nos bairros é mais institucional e dirigida ao interior de cada bairro. Seria possível conectar os bairros? Criar pontes?

A G – Quase todas as intervenções são de controlo social e têm esse objectivo.

M L A cultura muitas vezes é usada como mediação de conflitos.

Joaquim Arena e LBCJoaquim Arena e LBC

AG – As manifestações culturais na periferia ganham visibilidade na internet, é mais fácil porque circuitos interbairros que existem estão feitos para não funcionar. Para ir de um bairro para outro tenho que fazer cada bairro / Lisboa / bairro, é caro e leva tempo porque as distâncias são grandes. A experiência brasileira é diferente: as manifestações culturais partem de dentro do próprio bairro. Aqui não há músicos, cineastas, escritores na periferia. As actuações de artistas africanos são fora dos bairros, o pessoal pode ir ver o Bonga e ter medo dos blacks no metro.

Marta Lança e Francisca Bagulho Marta Lança e Francisca Bagulho

LBC – Na escola há sempre a correcção do sotaque. O sotaque é bom, mostra de onde eu vim. Por um lado há: fala português! Por outro, não és português!

É sempre alguém que vem de fora ensinar dança, apesar de muita gente saber dançar, porque é preciso que seja alguém de fora? Depois a questão da mobilidade, quatro jovens negros de fato de treino não podem andar juntos pela cidade, vem logo a polícia, 1,2 3 vezes na mesma noite.

O mapa cor de rosa de Lisboa.

Não acredito que o Estado vá investir (cultura nos bairros?) as pessoas têm que se organizar…

É bom conhecer donde se vem (país de origem), saber a nossa história, isso ajuda a ganhar atuo-confiança e diminui a violência.

Nos bairros existe uma prisão de grades invisíveis. Há dificuldade na mobilidade entre bairros. Há sempre muita vigilância em cima e falta de informação.

Hezbollah – Quando se fala da rivalidade, não é só entre bairros demarcadamente africanos, em Santarém nos bairros também há rivalidade. Os programas sociais que existem são de controlo, estão preocupados em tirar as pessoas da rua.

Mas as pessoas do bairro também pagam impostos para a cultura. As pessoas têm que conhecer o Hip Hop por exemplo. O Rap crioulo é cultura popular nos bairros, não é exótico…

J A – O que é que está a dificultar o aparecimento de mais grupos como os “Buraka”? Continua a haver uma barreira que impede que surjam mais fenómenos desses, eles lá foram são conhecidos como uma banda portuguesa que se inspira na música da periferia.

As pessoas da Cova da Moura vivem cá, participam na política, fazem parte da sociedade portuguesa.

Faltam criadores de várias áreas trabalharem sobre os bairros, como faz o Pedro Costa, e é um manancial tão grande de matéria. E a comunicação social tem de documentar bem o que existe.

A G – Os documentários que têm sido feitos mostram a escravatura de uma maneira romântica, como se fosse normal acordar às 4 da manhã para ir trabalhar e voltar a casa às 10 da noite.

LBC – Os condomínios estão encerrados para o que existe.

Sobre o crioulo, a língua não é uma barreira. A cultura Hip Hop reflecte a vida. Mas o Hip Hop em Portugal é higienizado, há muitos preconceitos, ainda se diz “guerra do ultramar.”

Falta vontade de aceitar o outro. É o cancro do racismo. Não interessa quando nos dizem “se fosse noutro lado matavam”, era pior. Quando se tem um cancro tem que se tratar, não interessa se outra pessoa tem um cancro ainda pior.

Não percebo como não há milhões a gritar na rua, o pessoal não é coitadinho, sobrevive e resiste!

Rigo – Há novas coisa más e muitas coisas boas. É preciso o pensamento “solucionário” construir soluções e criar mecanismos. Vejam o exemplo do Robert King que esteve 27 anos na prisão e falava sem raiva. Por exemplo, podem utilizar o telemóvel para falar com advogado quando a polícia “insiste”.

Otávio Raposo – Algumas das pessoas que viveram nas margens tiveram muita influência nas manifestações artísticas. O fado, por exemplo, narrava o quotidiano das pessoas e o rock, o blues, e o rap. O sistema exerce controlo, estigmatizando e branqueando. As manifestações culturais são fundamentais para as pessoas. 

A– O importante são as soluções. O facto de não existirem referências em Portugal nos afro-descendentes prejudica a sua expressão.

N- Há semelhanças na comunicação cultural sobre a cultura (entre Brasil e Portugal). Lá o problema é a rede Globo e as telenovelas. O Estado não quer iniciativas culturais autónomas dificultando os grupos de origem.

Eduardo Ascensão – Nunca aqui se falou em classe social, a pensar se não é esse um dos problemas que está por detrás de toda esta discussão sobre a juventude de origem africana.

LBC- Como é que as pessoas se organizam para serem autónomas: descreveu os circuitos informais de produção e distribuição de música.

 

(informações alinhavadas por Cristina Salvador)

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