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A Cidade e o Colonial – parte I

Este livro analisa o modo como as sociedades coloniais do antigo Império português se constituíram, tomando as cidades como unidades de investigação. Um dos seus principais argu­mentos diz respeito à força dos mecanismos da reprodução social e política. Ou seja, a inércia de muitos hábitos e de várias estratégias de dominação concretizou-se não só num conjunto de espaços e temporalidades diferentes, mas acabou por extravasar o tempo colonial e chegar até à atualidade. Neste sentido, a cidade configura-se como um objeto de investigação a partir do qual é possível colocar uma série de problemas acerca da constituição de sociedades coloniais – incluindo nelas as suas metrópoles ou capitais – e da maneira como os seus princípios de organização se reproduzem em contextos pós-coloniais.

O caso português é passível de interpretação no contexto de processos sociais largos que caracterizam tanto o período colonial, como o pós-colonial. Não o entendemos, desta forma, como uma exceção. O discurso da excecionalidade suportou uma ideologia estatal, apoiada por teorias académicas que acabaram por permanecer. Hoje, em Portugal, em práticas quotidianas, na cultura popular, em políticas institucionais, em livros de história, nos museus, na produção ideológica mas também na própria geografia das cidades, esse passado é ainda visível e continua a servir de grelha de conhecimento na mediação das relações sociais, na materialidade e na imaginação dos enten­dimentos comuns produzidos sobre o «outro».

O estudo do urbano permite identificar o modo como a dinâmica de urbanização colonial e pós-colonial no espaço português se integra num conjunto de tendências estruturais que acompanha a formação de uma economia globalizada, de um sistema-mundial, percetível no quadro do funcionamento de uma divisão internacional do trabalho e da produção, em lógicas de estratificação social. Nas cidades, tais tendências ganham uma tradução espacial evidente e que, no universo colonial, foram caraterizadas por poderosos processos de racialização e categorização que instituíram formas de cidadania desiguais. É na cidade que a ordem espacial dos projetos e imaginações imperiais é concretizada. E são as cidades dos impérios e das metrópoles que operam como centros de poder e conexão da intrincada rede de relações e de trocas que está na base do sistema-mundial vigente, também ele criado pelo colonialismo. As cidades coloniais constituem-se como centros de administração e de poder colonial e como locais de fluxo de bens e de serviços. São importantes locais de transferência da cultura imperial e capitalista moderna para novos espaços, muito contribuindo para a reprodução de ordens ideológicas, económicas e culturais e de controlo de populações. Não obstante, tal como noutros contextos, o urbano colonial e pós-colonial governado por Portugal foi e é também um espaço de criação de autonomias, de projetos e resistências, de circulação de pessoas, hábitos, ideias, de apropriação e adoção de práticas e representações.

É este mundo urbano complexo que os textos deste livro, adotando olhares e perspetivas distintas, procuram descrever. Nesta dinâmica, o colonial impõe-se como uma relação de poder, dominado por princípios de exploração económica, apresentando uma cultura própria, assente em formas de dominação prática e simbólica que engendraram sociedades profundamente desiguais, mas onde indivíduos e grupos se apropriaram de recursos, promoveram sociabilidades, reinventaram formas de vida e aspiraram a outras. Assim, este livro trata de dinâmicas presentes nos espaços urbanos do Império português e o modo como estes se estendem por intermédio de práticas e representações, para lá da fronteira cronológica do Império. Assumindo esta unidade de análise, que permite localizar um objeto e problematizá-lo, o caso imperial português oferece um exemplo da constituição de uma sociedade colonial urbana e da sua projeção pós-colonial.

O quadro colonial português, não criando uma excecionalidade, garantiu a este processo comum especificidades e um ritmo próprio de evolução. Tal dinâmica é observável na própria organização urbana, no edificado, na transmissão de hábitos, costumes e crenças. Mas também no nível do desenvolvimento económico, na capacidade do Estado em regular a urbanização, nas ações políticas de governo – no último período colonial, muito influenciadas pelo quadro de evolução do fascismo português – e ainda numa certa tradução simbólica e identitária que se torna operativa em diversos quadros de relação contemporânea, como alguns dos capítulos neste volume procuram identificar. A constituição de sociedades urbanas coloniais no contexto da expansão portuguesa estabelece-se como índice evidente da própria estrutura do poder colonial e da sua evolução. A sua análise, noutro sentido, cria um corpus que permite a comparação com outros casos. O mesmo sucede com as múltiplas faces da experiência pós-colonial, desde a integração das populações imigrantes até às políticas oficiais de memória imperial, passando pela sua representação nos formatos da cultura popular.

Este tipo de análise processual possibilitou-nos pensar para lá das fronteiras de uma história política definida nacionalmente, mas sem excluir da análise os momentos de mudança impostos por uma narrativa nacional. Assim sendo, interessava perceber as lógicas de continuidade das relações de poder entre o colonial e o pós-colonial, colocando em evidência o seu lado estrutural, inscrito, no tempo longo, sob a forma de um sistema de organização das relações de poder que vivem tanto nas instituições como nos corpos e nas representações. Por fim, a territorialização urbana destas relações oferece um espaço de análise para interpretar o modo como as lógicas de organização social se manifestam no quotidiano. A uma escala de análise mais reduzida interessava compreender as estratégias e inten­ções dos indivíduos que, se reforçavam a reprodução de relações de poder, também as ajudavam a transformar.

O espaço urbano do Império português

As cidades coloniais foram investigadas pela sua singularidade. Berço de uma nova organização, o espaço urbano proporcionou um laboratório experimental com questionamentos próprios, que atravessaram as ciências sociais e que se institucionalizaram em universidades, departamentos e publicações. A pesquisa sobre cidades coloniais em África acabou por conquistar um espaço próprio, indiscutivelmente ligado à própria evolução do colonialismo e depois dos estudos pós-coloniais.

A mesma investigação sobre cidades coloniais foi integrada nas histórias da expansão europeia, a partir do século XV. Neste quadro, o etnocentrismo da análise conduziu a uma marginalização do passado não europeu de muitas destas cidades, impondo uma cronologia restrita, iniciada com a chegada europeia e que se prolongava na descrição das ações dos europeus, das suas edificações, do seu urbanismo e arquitetura. O caso português não foi uma exceção. Nenhum outro continente terá sofrido tanto do esquecimento histórico do seu passado como a África. A recuperação do estudo das cidades africanas pré-coloniais revelou a sua história rica e complexa, como é notado neste volume pelos textos de Isabel Castro Henriques e Miguel Pais Vieira e de Harry G. West1. Tal demonstração vincava ainda mais o significado da transformação urbana decorrente da chegada do colonizador europeu2.

Não é de estranhar que parte substancial da bibliografia sobre as cidades coloniais tivesse sido produzida pelas próprias potências imperiais. Tal realidade reforçou-se a partir do momento em que as potências europeias, nomeadamente na transição para o século XX, passaram a um regime de ocupação efetiva. Aos poderes coloniais interessava não apenas criar uma história glorificadora dos seus territórios e organizar inventários de legados materiais, mas também produzir um conhecimento útil à administração e à exploração do território e dos recursos, onde se incluíam as populações. Sobre estas interessava perceber as formas de vida, as hierarquias dos seus sistemas políticos, sociais e religiosos, fundamentais em modelos de administração indireta, identificar a disponibilidade da população para o trabalho, o que produziam e como o faziam, as suas crenças, o modo como se associavam. Este interesse instrumental evoluiu com o tempo, requerendo permanentemente novos saberes, métodos e técnicas, à medida que outros modelos de conhecimento se iam revelando obsoletos. A procura constante de novo conhecimento esteve na base do desenvolvimento de inúmeros campos científicos, motivados pelo investimento estatal e privado3. Oportunidades profissionais foram criadas, investigações prosseguidas, foram propostas novas teorias e construídos modelos interpretativos. No quadro de campos científicos muito dependentes do campo de poder, a ciência serviu para justificar a supremacia europeia, legitimando o atraso civilizacional das populações colonizadas e garantindo um caráter científico a conceções eurocêntricas e racistas sobre outros povos. Mas a necessidade de criar um conhecimento mais preciso sobre estes territórios conduziu também à acumulação de informação que hoje se revela indispensável para fazer a sua história. No âmbito das ciências sociais, as investigações coloniais sobre o mundo urbano tiveram uma influência significativa sobre a história de diversas disciplinas, como a antropologia e mesmo a sociologia4. No caso colonial português, como se refere no capítulo de Nuno Domingos, os estudos urbanos de teor antropológico e sociológico tardaram5. O primeiro trabalho desta natureza realizado sobre uma cidade tão importante como Lourenço Marques esteve a cargo de uma antropóloga sul-africana em 19566.

As grandes cidades africanas distinguiam-se de uma tradição de inscrição urbana do colonialismo português7. Em África, esta foi marcada pela proeminência de um edificado militar, quase sempre costeiro, base de proteção para pequenos povo­ados, que sobreviviam de um comércio que pouco penetrava no interior dos territórios, mas que se constituíam como núcleos de trocas globais que incluíam o tráfico de escravos, dinâmica profundamente transformadora da demografia tanto dos territórios fornecedores, como daqueles que recebiam estes trabalhadores, dentro e fora do Império português8. Ao lado dos fortes militares e de outros edifícios de proteção impuseram-se também nestes frágeis cenários urbanos as construções religiosas, nomeadamente as igrejas – não fosse o catolicismo o veículo infraestrutural indispensável ao avanço imperial português. Muitas cidades coloniais cresceram à volta destes núcleos de organização social. Desde as cidades indianas, até às brasileiras, pelo Império português a matriz de um colonialismo nacional, efetivo, mas progressivamente ultrapassado pela força de metrópoles mais desenvolvidas, foi-se impondo sobre o território. A independência do Brasil, em 1822, tornou o continente africano objeto de uma colonização mais efetiva, que apenas se veio a sentir mais próximo do final do século XIX, no contexto da viragem europeia para África. Se, numa primeira fase, persistiu uma ocupação urbana mais típica, mais tarde, nomeadamente na transição para o século XX, começaram a erguer-se espaços urbanos, com populações maiores e infraestruturas diversas9.

As pesquisas coloniais urbanas situavam-se nestas grandes cidades africanas. Eram centros com um largo número de colonos, com múltiplas atividades económicas e milhares de trabalhadores, lugares de possível subversão que necessitavam de ser controlados. Num período de «modernização colonial» mas também de tensão política e militar era necessário conhecer melhor estas cidades, para dominar de modo mais lato as lógicas do ordenamento do território e da integração social, fosse por meios modernos de gestão, ou pela violência sobre as populações, como nos revela o texto de Diogo Ramada Curto e Bernardo Pinto da Cruz10.

Quando, na sequência do 25 de Abril de 1974, golpe militar revolucionário diretamente relacionado com a evolução das guerras em África, se iniciou um processo de descolonização, a herança da experiência colonial urbana em cidades como Lourenço Marques e Luanda parecia provar, no quadro do colonialismo efetivo de Novecentos, a ausência de uma excecionalidade colonial lusa, apesar das mudanças sentidas na década de sessenta. A desigualdade social racializada inscrita na organização do espaço e a discriminação que a tornava operativa no quotidiano, institucionalizada mas também efetiva no quadro das interações, eram aspetos que descreviam bem esse legado. Estes processos decorreram da organização de um sistema social que lidou mal com a urbanização dos africanos. Estes foram até muito tarde considerados, na sua esmagadora maioria, em Angola, Moçambique e na Guiné, como «indígenas»; concebidos como povos culturalmente atrasados, imersos nos seus costumes, não elegíveis para uma cidadania europeia, já de si limitada desde 1926 (e de modo mais efetivo desde 1933 com a institucionalização do Estado Novo) pela emergência em Portugal de um regime de tipo fascista. O regime do indigenato, que durou até 1961, enquadrou de modo significativo esta dinâmica, que enunciava uma conceção estatal, jurídica, legislativa e política da sociedade colonial, e que enquadrava um colonialismo económico fundado na exploração de mão-de-obra africana barata, dentro e fora dos territórios administrados pelos portugueses, e na extração fiscal11. Esta lógica de discriminação, apesar do enquadramento distinto, não era estranha à rea­lidade urbana de outros territórios africanos sob domínio português, onde a estratificação social apresentava também linhas de fratura radicais12. Noutro sentido, o fim do indigenato não fez cessar uma discriminação inscrita na ordem social, que não dependia tanto de molduras jurídicas, mas de hábitos sedimentados nos corpos e onde o fenótipo nunca deixou de assinalar um estatuto urbano, dir-se-ia uma cidadania inferiorizada.

A racialização da estrutura social dependia de contrastes e, nesse sentido, relacionava-se com os espaços onde se verificava uma presença maior de colonos de origem europeia13. Nos contextos de forte colonização branca, casos de Luanda, Nova Lisboa (Huambo), Lourenço Marques (Maputo) ou Beira, as linhas de racialização da estrutura social eram mais notórias14. Surgiram então cidades divididas, «cidades duplas», mas interdependentes, onde um centro europeu, de «cimento», se separava de uma grande e precária periferia africana, construída segundo outras lógicas e com diferentes materiais, técnicas e recriações. Sendo o mundo urbano complexo, nos seus trânsitos e trocas, esta divisão foi sempre matricial. O mundo dos colonos, com as suas práticas de sociabilidade e de lazer, encontrava-se também estratificado, tal como o «universo africano», onde preponderavam líderes associativos e notáveis locais, muitos deles mestiços e assimilados. Estas camadas sociais tomaram posições de maior destaque em núcleos urbanos mais pequenos, com uma população colona menor e onde a mistura racial se desenvolveu com maior efetividade, nomeadamente antes do sistema colonial se impor de modo mais persuasivo. Estas camadas africanas, cuja ambiguidade social foi traduzida numa permanente ambiguidade existencial, eram um fiel da balança polí­tico: ou promoviam o integracionismo imperial ou, em circunstâncias específicas, constituíam-se como uma ameaça à estabilidade do sistema. A sua integração urbana foi, neste sentido, habitada por uma tensão permanente, tão típica das peque­nas burguesias. Mas, para além da sua vida política, estes indivíduos foram mediadores urbanos por excelência, transmissores de hábitos, práticas e costumes desde os centros para as periferias, mas igualmente no sentido inverso. Nestas cidades coloniais viviam ainda muitos outros grupos, identificáveis pela sua origem geográfica, religiosa, étnica15. Todos estes indivíduos e grupos se relacionaram na cidade com uma organização social específica que os colocou em contacto, conflitual mas também necessariamente cooperativo, com outros grupos. Este contacto transformou estes habitantes da cidade, abalou convicções e práticas, apesar das urbes coloniais terem sido também um lugar da reprodução identitária, realizada, agora, sob bases distintas e quase sempre ao serviço de uma estratégia de sobrevivência prática: conseguir uma casa, um emprego, uma rede de prote­ção, um conforto existencial.

Enquanto centros de atividades que excedem em muito a geografia da cidade, as urbes coloniais foram eixos de relações com outros centros urbanos. A este propósito, a falta de excecionalidade do colonialismo português revelava-se também pela relação de dependência destes «espaços coloniais soberanos» com elementos exteriores, que participavam igualmente dos inúmeros projetos proporcionados pelo colonialismo. Note-se, por exemplo, que uma cidade tão importante como a Beira, em Moçambique, cresceu durante o século xx e até 1942 sob a gestão de uma companhia majestática. A influência polí­tica de outras potências coloniais, bem como de organizações internacionais, sobre o rumo do colonialismo português, a presença de inúmeros estrangeiros no quadro de decisão institucional económica e política e a influência dos quadros económicos e políticos regionais revelam que o colonialismo era um projeto global. As redes urbanas africanas, as que ligavam, por exemplo, Moçambique e Angola à África do Sul, à Rodésia ou ao Congo, criaram autonomias próprias que repro­duziam o ritmo do colonialismo internacional, no fluxo de mercadorias, trabalhadores e capital. A força de cidades como Lourenço Marques ou Luanda só pode ser interpretada em contextos de troca imperial mais vasta. Noutro sentido, porém, estas mesmas relações produziram contatos e trocas relativa­mente autónomos da razão imperial: hábitos, consumos, credos, conceções do mundo, aspirações foram criados no âmbito des­tas redes urbanas regionais. Resultado de uma modernidade urbana, esta cultura da cidade projetou-se para lá dos limites da vida do Império. As cidades coloniais portuguesas foram assim eixos de passagem de práticas e consumos tendencial­mente globais, ou em circulação regional, que os Estados colo­niais facilitavam ou procuravam controlar com maior ou menor sucesso.

No último período do colonialismo português em África, a ação do Estado Novo garantiu algumas especificidades à ação colonizadora. Para além de ter estendido a duração do tempo colonial, preservando a durabilidade de estruturas de oportunidades e de negócios, o efeito do enquadramento político sobre a organização social atrofiou o desenvolvimento de um espaço público urbano, bem como bloqueou e atrasou fenómenos de associação e participação que, na segunda metade do século XX, conduziram em muitos casos à descolonização16. O regime de vigilância urbana, acentuado pelo início da guerra colonial, apesar de travada fora das grandes cidades, afetou-as consideravelmente. Por exemplo, a presença maciça da polícia política no contexto urbano foi um dos mais evidentes focos de coerção política e de perseguição de qualquer foco de dissidência17. A cultura do medo e da arbitrariedade, tão sentida nas relações de trabalho, caraterizou também o processo de urba­nização, apesar das mudanças existentes após o fim do indigenato18.

Neste último período de domínio português continua a jogar-se, em grande medida, a avaliação da herança colonial portuguesa. As mudanças efetivas ficaram sempre aquém, no entanto, da representação criada pela propaganda colonial. Esta representação da mudança e da reforma, que acaba por se projetar sobre o passado, tornou-se numa narrativa poderosa que, por diversos motivos, se continua a reproduzir.

Na Metrópole

O colonialismo não implicou apenas a construção de uma estrutura social e espacial urbana nos territórios coloniais. Existiu também um movimento reverso19. A experiência imperial trouxe uma configuração imagética diferenciada para as cidades imperiais, tanto com a importação de maneirismos exóticos para a arquitetura das cidades imperiais, como com a edificação de uma monumentalidade enaltecendo a dignidade da capital imperial. Mas, mais importante do que isso, a própria existência da capital imperial resulta dos novos arranjos espaciais e materiais produzidos pelo Império. O uso de territórios periféricos para a produção primária e para a extração de recursos necessitou do crescimento de centros urbanos industriais e comerciais, nos quais se assistiu à emergência de novas classes industriais urbanas20. A importância das conexões ao longo dos impérios, como nota neste volume Filipa Lowndes Vicente, remete para o imperativo de se fazer uma história articulada da metrópole e das colónias, das relações de poder que existem entre vários polos e dos circuitos de produção, distribuição e consumo que os atravessam, para realçar que tanto os dominantes como os subjugados são agentes de uma mesma trajetória histórica21. Noutro sentido, a divisão entre metrópole e Império é também posta em causa por uma posição teórica explicitamente anticolonial, levando ao reconhecimento das várias formas pelas quais a «Europa» foi criada pelo colonialismo22. Mais: coloca em evidência tanto os sistemas racializados de governo imperial, quanto o seu objetivo de construção de sujei­tos racializados, como revela neste livro o capítulo de Manuela Ribeiro Sanches23. A relação entre Império e metrópole releva também a importância das representações sobre o Império na formação de identidades nacionais dos centros de poder impe­rial europeus. Tais representações foram veiculadas através de todo um aparato cultural de disseminação de imaginações impe­riais na esfera metropolitana, o qual inclui museus, políticas de preservação do património, recurso a celebrações públicas e uso de formas de expressão como a música ou a literatura, para efeitos de propaganda24.

Também em Portugal a questão imperial é um campo privilegiado de afirmação da identidade nacional, sobretudo desde finais de Oitocentos e com maior intensidade durante o Estado Novo25. A realidade do Império no terreno era então desco­nhecida para a maior parte das pessoas, numa altura em que as correntes de emigração ainda não se dirigiam para África e a presença de populações coloniais na metrópole era escassa – apesar de ser possível identificar um passado africano da capital portuguesa, o qual marcou a vida de alguns dos seus bairros26. No entanto, é notório que o Império colonial foi «santificado» como elemento central da identidade da nação, sobretudo a partir da generalização da ideia de decadência e de progresso que caracterizou a historiografia portuguesa do século XIX, bem como da disseminação de toda uma mitologia nacional-impe­rialista por parte das elites republicanas27. Demasiado distante da realidade concreta da vida quotidiana da metrópole, foi no plano dos símbolos e da imagética discursiva que o Império se deu a conhecer – desvelando-se através de uma autêntica peda­gogia nacional cuja definição era, no entanto, motivada por pressões de política externa e por disputas por hegemonias imperiais28. Durante o Estado Novo, a atenção crescente à ideia da «missão histórica da nação portuguesa», missão mar­cada pelo ideal cristão e pela vocação colonial, o Império adquire uma dimensão ontológica na arquitetura simbólica da nação, resultante no desenvolvimento de uma «Mística Impe­rial» que acompanhou, no plano dos símbolos, o desenvolvi­mento de uma política colonial nacionalista, integracionista e centralizadora29. Toda esta imaginação estava expressa no designado Acto Colonial, em que as colónias portuguesas passam a ser designadas «Império colonial português»30.

No quadro oficial, uma abordagem, assente no culto dos heróis e na ideia de uma progressão histórica linear desde a fundação da nacionalidade até ao Império marítimo, celebrado como um dos grandes feitos da humanidade, permeia os pro­gramas de ensino, a propaganda de Estado, as exposições e os congressos científicos e toda a demais produção cultural oficial31. Tal como noutros centros de poder imperiais, releva­-se o papel desempenhado pelas práticas espaciais de nomeação e mapeamento na construção do imaginário espacial do Impé­rio na metrópole32. Centenas de mapas foram elaborados e divulgados, disseminando na metrópole, sobretudo através do aparelho escolar, a imagem da extensão geográfica do Império, bem como das suas localizações, dos seus povos e das suas paisagens33. As «geografias imaginativas» do Império são tam­bém ficcionadas no coração da metrópole imperial através de exposições públicas, como foi o caso mais expressivo da Exposição do Mundo Português, realizada em Lisboa em 194034. Os marcadores de uma versão da identidade nacional altamente seletiva, de feição imperial e efabulatória, enaltecendo as qui­meras empreendidas pelos navegadores de Quinhentos e o Império do Oriente, imprimem-se na paisagem urbana de Lisboa, como demonstra o capítulo de Elsa Peralta. Ruas são nome­adas a partir de navegadores e protagonistas da expansão marí­tima ou de locais abrangidos pelo primeiro Império português, forjando uma representação da nação assente na ideia de Por­tugal como país dos «descobrimentos». As marcas do Império na geografia da cidade são também identificáveis nos inúmeros palácios, palacetes, jardins e mansões construídos por uma elite económica portuguesa formada a partir de atividades coloniais, que vão desde o tráfico de escravos à cultura forçada do algodão moçambicano, muito associada ao florescimento da indústria têxtil na metrópole35. Através da construção do espaço ou de uma arquitetura monumental de feição modernista, ou através das marcas na geografia da cidade deixadas pelos privados enriquecidos à custa dos negócios coloniais, o Império adquiriu uma feição material no quotidiano urbano, permeando o imaginário coletivo nacional e sustentando as aceções do senso comum sobre o passado imperial português, até aos dias de hoje.

No seio da comunidade imaginada nacional, o «outro» afri­cano, «indígena» no quadro do sistema de administração colo­nial, é concebido como o objeto do desígnio civilizador e cristão da expansão portuguesa. Da «influência moral» exercida pelos portugueses dependeria o seu «aperfeiçoamento» e da sua «educação» resultaria o «cumprimento progressivo dos seus deveres morais e legais de trabalho»36. Em exposições e congressos coloniais oficiais, mas também na cultura popular, na literatura, na pintura, no cinema e de forma muito expressiva nas figura­ções que acompanhavam a comercialização de vários produtos coloniais, como o café ou o cacau, encontra-se uma represen­tação do africano fortemente racializada, embrutecida e infan­til, a requerer a atenção civilizadora do colonizador37. Num momento em que a migração portuguesa para Angola e Moçam­bique era ainda escassa, tal como era reduzido o contacto de metropolitanos com africanos, estas representações revelam-se um poderoso meio de formatação do senso comum, tanto em relação a esse «outro» africano, quanto aos territórios por ele habitados38.

Após a II Guerra Mundial, num contexto marcado por pres­sões políticas independentistas tuteladas pela recém-criada Organização das Nações Unidas, e também pelo desenvolvimento das economias das colónias resultante do reforço dos setores privados coloniais, a ideia do desígnio civilizador do colonialismo português ganha outros contornos39. Na metró­pole, com ressonâncias nos territórios coloniais, agora efetiva­mente povoados com contingentes crescentes de populações metropolitanas, um novo discurso sobre a identidade nacional, e sobre o «outro» colonizado, dissemina-se pela esfera pública40. Tendo como pano de fundo as mudanças ideológi­cas no sistema colonial europeu e a procura de mecanismos de legitimação para a política colonial portuguesa, o luso-tropica­lismo vem reforçar, no plano internacional, a imagem de um Portugal pluricontinental, uma nação «una e indivisível», autora histórica de uma colonização exemplar, marcada pela miscigenação, pela fusão cultural e pela ausência do preconceito racista41. A aproximação às ideias de Freyre vem desta forma facilitar uma revisão das noções prevalecentes sobre contato racial marcadas por ideias de hierarquia e um afastamento em relação às conceções explicitamente rácicas que caracterizaram os fascismos europeus42. De acordo com a nova grelha inter­pretativa, o «outro» africano, negro, era uma criação do «génio colonizador» dos portugueses.

Também os importantes fluxos migratórios gerados pelo colonialismo português, primeiro em larga escala para o Brasil e depois, no pós-II Guerra Mundial, para as colónias africanas, geraram redes de circulação, económica e demográfica, entre metrópole e colónias. Com importantes impactos na economia do país, estas redes de circulação favorecem também apropria­ções metropolitanas de práticas de consumo e de conceções do mundo emanadas a partir do contexto colonial, vulgarizadas, por exemplo, através da alimentação e do consumo de produtos coloniais43. Reproduzido através de formas de cultura pública ou através de práticas do quotidiano44 – concretizadas em experiências de cidadania, em sexualidades consagradas, em hábitos culinários, ou em narrativas históricas –, o Império constituiu-se num aspeto central das identidades metropolitanas e da consciência de raça, ainda que interligado com outras filiações identitárias, nomeadamente as regionais, as rurais, as urba­nas ou as de classe45. Como mostra o capítulo de Marcos Car­dão, o Império converteu-se em dimensão de um «nacionalismo banal» que, embora possa não motivar posicionamentos políti­cos explícitos, se encontra inscrito nas práticas quotidianas e nas formas de conhecimento sobre a experiência histórica – também imperial – da nação metropolitana, ainda que com esferas de influência e graus de internalização certamente desiguais46.

É no contexto metropolitano, ou atravessado por este, que são produzidos os entendimentos sobre o «outro», as formas de conhecimento colonial, os discursos sobre a identidade nacio­nal incorporando a sua dimensão imperial. As sucessivas renarrativizações operadas nesta esfera tornam evidente o caráter contingente das formulações imperiais e coloniais. As ideologias imperiais que ressoam na metrópole são pautadas por diferen­tes graus de negociação política entre metrópole e Império e também entre impérios. Tal como são pautadas pela influência exercida pelas idiossincrasias daqueles que, por vezes falando a partir da periferia colonial, informam as representações colo­niais criadas na metrópole47. A incorporação destas idiossin­crasias revela que este é um campo repleto de ambiguidades, correndo a par com versões políticas autorizadas e relativamente estáveis sobre o nós e sobre o «outro»48.

Através de discursos ideológicos, mas também de circula­ções, de práticas quotidianas, consumos coloniais e de estrutu­ras económicas, Império e metrópole são atravessados por cone­xões de vária ordem frequentemente identificáveis para além do domínio formal do colonialismo.

 

ler continuação do artigo A Cidade e o Pós-colonial

 

Com BERNARDO PINTO DA CRUZ * DIOGO RAMADA CURTO * EDUARDO AS CENSÃO * ELSA PERALTA * FILIPA VICENTE * HARRY G. WEST * ISABEL CASTRO HENRIQUES * JOSÉ MAPRIL * MANUELA RIBEIRO SANCHES * MARCOS CARDÃO
* MIGUEL PAIS VIEIRA * NUNO DIAS * NUNO DOMINGOS * NUNO OLIVEIRA * SIMONE FRANGELLA

 

  • 1. Elia M’Bokolo, L’Afrique Noire. Histoire et Civilisation, 2 vols. (Paris: Hatier, 1992); Catherine Coquery-Vidrovitch, Histoire des Villes d’Afrique Noire. Des Origines à la Colonisation (Paris: Albin Michel, 1993); Bill Freund, The African City. A History (Cambridge: Cambridge University Press, 2007).
  • 2. Existe uma tradição bem estabelecida de investigação da cidade colonial no contexto da formação histórica do imperialismo. Desde os primeiros estudos coloniais, como o trabalho Orde Browne, The African Labourer (Oxforf: Oxford University Press, International African Institute, 1933), passando pelo estudo sobre o Copperbelt de J. Merle Davies (org.), Modern Industry and the African (London: Macmillan, 1933), e pelos clás sicos do Rhodes Livingstone Institute e da Universidade de Manchester, sob a figura tutelar de Max Gluckman: Max Gluckman, «An Analysis of a Social Situation in Modern Zululand», Bantu Studies, vol. 14, n.º 1 (1940); Godfrey Wilson, An Essay on the Economics of Detribalization in Northern Rho­desia (Livingstone: Rhodes-Livingstone Papers, números 5-6, 1941-42); J. C. Mitchell, The Kalela Dance (Manchester: Manchester University Press, 1956); idem, Social Networks in Urban Situations: Analysis of Personal Relationships in Central African Towns (Manchester: Institute for Social Research University of Zambia, Manchester University Press, 1969); A. L. Epstein, Politics in an Urban African Community (Manchester: Manchester University Press, 1958); Philip Mayer, Townsmen or Tribesmen: Conservatism and the Process of Urbani zation in a South African City (Cape Town: Oxford University Press, 1961); Bruce Kapferer, The Population of a Zambian Municipal Township (Lusaka: Institute for Social Research, 1966). Neste período é também indispensável referir o trabalho de Georges Balandier, Sociologies des Brazzavilles Noires (Paris: Armand Colin, 1965). Mais recentemente há um conjunto de obras que interessará enumerar de um leque cada vez maior de referências de onde se destacará a obra da historiadora Catherine Coquery-Vidrovitch, «The Process of Urbanization in Africa: From de Origins to the Beginning of Independence», African Studies Review, vol. 34, n.º 1 (1991), pp. 1-98. De salientar também os trabalhos de Charles Van Onselen, Chibaro: African Mine Labour in Southern Rodhesia 1900-1933 (London: Pluto Press, 1980), D. Simon, «Third World Colonial Cities in Context», Progress in Human Geography, vol. 8, n.º 4 (1984), pp. 493-514, R. Ross e G. Telkamp (orgs.), Colonial Cities: Essays on Urbanism in a Colonial Context (Doddrecht: Martinus Nijhoff, 1985), N. Alsayyad (org.), Forms of Dominance: On the Architecture and Urbanism of the Colonial Enterprise (Aldershot: Avebury, 1992); Anthony King, Urbanism, Colonialism and the World-Economy (London and New York: Routledge, 1990); idem, Colonial Urban Development: Culture, Social Power and Environment (London: Routledge and Kegan Paul [1976] 1992). Em 1989 Michel Cahen organizou um volume sobre a realidade urbana na África lusófona: Michel Cahen (org.), Bourgs et Villes en Afrique Lusophone (Paris: Harmattan, 1989).
  • 3. Frederick Cooper e Randall Packard (orgs.), International Develop ment and the Social Sciences (Berkeley: University of California Press, 1997).
  • 4. Georges Steinmetz (org.), Sociology and Empire: The Imperial Entan glements of a Discipline (Durham, N.C.: Duke University Press, 2013). Os tra balhos dos antropólogos do Rhodes Livingstone Institute e da Universidade de Manchester, muito influenciados pela sociologia urbana, tornaram-se clássicos da análise antropológica do mundo urbano. A herança da tradi ção de onde provieram autores como Max Gluckman, J. Clyde Mitchell, A. L. Epstein, Bruce Kapferer é ainda hoje muito discutida, no quadro de trabalhos mais vastos sobre a relação da antropologia com os impérios. A este propósito veja-se: Talal Asad, Anthropology and the Colonial Encounter (London: Ithaca Press, 1973); Ulf Hannerz, «The View from the Copper belt», Exploring the City: Inquiries toward an Urban Anthropology (New York: Columbia University Press, 1980), pp. 119-162; Adam Kuper, Anthropology and Anthropologists: The Modern British School (London: Routledge, 1996); James Ferguson, «Anthropology and its Evil Twin: ‘Development’ in the Constitution of a Discipline», in Frederick Cooper e Randall Packard (orgs.), International Development and the Social Sciences: Essays on the History and Politics of Knowledge (Berkeley: University of California Press, 1997), pp. 150-175; Lyn Schumaker, Africanizing Anthropology: Fieldwork, Networks, and the Making of Cultural Knowledge in Central Africa (Durham, N.C.: Duke University Press, 2001).
  • 5. Sobre as ciências sociais e a história em contexto colonial português, veja-se Ricardo Roque, Antropologia e Império: Fonseca Cardoso e a Expedição à Índia em 1895, prefácio de Diogo Ramada Curto (Lisboa : Imprensa de Ciências Sociais, 2001); Diogo Ramada Curto, «O atraso historiográfico português», in Charles Boxer, Opera Minora, vol. III – Historiografia / Historiography (Lisboa: Fundação Oriente, 2002), pp. VII-LXXXVII; Rui Mateus Pereira, Conhecer para Dominar. O Desenvolvimento do Conhecimento Antropológico na Política Colonial Portuguesa em Moçambique, 1926-1959, dissertação de Doutoramento em Antropologia, especialidade de Antropologia Cultural e Social (Lisboa: FCSH-UNL, 2005); Miguel Jerónimo, Almas Negras e Corpos Brancos (Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2010); Frederico Ágoas, «Estado, universidade e ciências sociais: A introdução da sociologia da Escola Superior Colonial (1952-1972)», in Miguel Jerónimo (org.), O Império Colonial em Questão (Lisboa: Edições 70, 2012), pp. 317-348; Cláudia Castelo, «Ciência, Estado e Desenvolvimento no Colonialismo Portu guês Tardio», in Miguel Jerónimo (org.), O Império Colonial em Questão (Lisboa: Edições 70, 2012), pp. 349-388.
  • 6. Hilary Flegg, Age Structrure in Urban Africans in Lourenço Marques, tese de doutoramento apresentada à Universidade de Witwatersrand (Joa nesburgo: Witwatersrand University, 1961).
  • 7. José Mattoso (org.) Património de Origem Portuguesa no Mundo, vol. 1 (Lisboa: Fundação Gulbenkian, 2012)
  • 8. Michel Cahen (org.) Bourgs et Villes…; José Manuel Fernandes, «A Cultura das Formas: Urbanismo, Arquitectura, Artes», in Francisco Bethencourt e Kirtu Chaudhuri (orgs.), História da Expansão Portuguesa, vol. 4 (Lisboa: Temas e Debates, 2000) pp. 444-485; idem, «Arquitectura e Urbanismos no Espaço Ultramarino Português», in idem, vol. 5 (Lisboa: Temas e Debates, 2000), pp. 334-383; Isabel Castro Henriques, Território e Identidade: A Construção da Angola Colonial (1872-1926) (Lisboa: Cadernos Clio, 2004).
  • 9. José Manuel Fernandes, «Arquitectura e Urbanismo na África Subsaariana: uma leitura», in José Mattoso (org.) Património de Origem Por¬tuguesa no Mundo, África, Mar Vermelho, Golfo Pérsico, Filipe Themudo Barata (coord.) (Lisboa: Fundação Gulbenkian, 2012), pp. 214-216.
  • 10. Estas eram as preocupações que motivaram a renovação de uma ciência colonial também focada nos centros urbanos. Note-se a este propó sito as seguintes obras paradigmáticas: António Rita-Ferreira, Os Africanos de Lourenço Marques (Lourenço Marques: Separata das Memórias do Instituto de Investigação Científica de Moçambique, 1967-1968); Amadeu Castilho Soares, Política de Bem-estar Rural em Angola (Lisboa: Junta de Investiga ções do Ultramar, «Estudos de Ciências Políticas e Sociais», n.º 49, 1961), pp. 173-174, José de Sousa Bettencourt, «Subsídio para o Estudo Socioló gico da População de Luanda», Boletim do Instituto de Investigação Científica de Angola, 2 (1), 1965, pp. 83-130.
  • 11. Valentim Alexandre, Origens do Colonialismo Português Moderno (Lisboa: Sá da Costa: 1979); Gervase Clarence-Smith, The Third Portu guese Empire (1825-1975): A Study in Economic Imperialism (Manchester: Manchester University Press, 1985); Francisco Bethencourt e Kirtu Chau dhuri (orgs.) História da Expansão Portuguesa, vols. IV-V (Lisboa: Temas e Debates, 2000); Omar Ribeiro Thomaz, Ecos do Atlântico Sul: Representa­ções sobre o Terceiro Império Português (Rio de Janeiro: UFRJ, Fapesp, 2002); Isabel Castro Henriques, Os Pilares da Diferença. Relações Portugal-África, Século xv-xx (Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2004); Miguel Jerónimo (org.), O Império Colonial em Questão (Lisboa: Edições 70, 2012).
  • 12. João Estevão, «Peuplemen et Phénomènes d’Urbanisation au Cap-Vert pendant la Période Colonial, 1462-1940», in Michel Cahen (org.) Bourgs et Villes… pp. 42-59; Joel Frederico da Silveira, «La Spatialisation d’un Rapport Colonial: Bissau, 1900-1960», in Michel Cahen (org.), Bourgs et Villes… pp. 75-97; Augusto Nascimento, Poderes e Quotidiano nas Roças de S. Tomé e Príncipe de finais de Oitocentos a meados de Novecentos (S. Tomé: SPI, 2002).
  • 13. Cláudia Castelo, Passagens para África, O Povoamento de Angola e Moçambique com naturais da Metrópole (1920-1974) (Porto: Afrontamento, 2007).
  • 14. Isabel Castro Henriques «A Sociedade Colonial em África. Ideo logias, Hierarquias, Quotidianos», in Francisco Bettencourt e Kirti Chau dhuri (orgs.) A História da Expansão Portuguesa, vol. 5 (Lisboa: Círculo dos Leitores, 1999), pp. 216- 274. Sobre este processo em distintos contextos coloniais ver, neste volume, textos de Isabel Castro Henriques e Nuno Domingos. Ver também Adelino Torres, «Le Processus d’Urbanisation de l’Angola pendant la Période Coloniale, 1940-1970», in Michel Cahen (org.) Bourgs et Villes… pp. 98-117; Jeanne Marie Penvenne, African Workers and Colonial Racism. Mozambican Strategies and Struggles in Lourenço Marques, 1877- -1962 (Londres: James Currey, 1995); Valdemir Zamparoni, Entre Narros e Mulungos: Colonialismo e Paisagem Social em Lourenço Marques, c.1890 c.1940. Dissertação de doutoramento (São Paulo: Faculdade de Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 1998); Maria da Conceição Neto, In Town and Out of Town: A Social History of Huambo (Angola), 1902-1961, Dissertação de Doutoramento (London: School of Oriental and African Studies/University of London, 2012); Maria Manuela da Fonte, Urbanismo e Arquitectura em Angola (Lisboa: Caldeidoscópio, 2013).
  • 15. Valdemir Zamparoni, «Monhés, Baneanes, Chunas e Afro-mao metanos. Colonialismo e Racismo em Lourenço Marques, Moçambique, 1890-1940», Lusotopie, VII (2000), pp. 191-222.
  • 16. Christine Messiant, «Luanda, 1945-1961: colonisés, société colo niale et engagement nationaliste», in Michel Cahen (org.) Bourgs et villes… pp.125-199; Frederick Cooper, Decolonization and African society: The labor question in French and British Africa (Cambridge: Cambridge University Press, 1996); idem, Africa since 1940: The past of the present (Cambridge: Cambridge University Press, 2002).
  • 17. Dalila Cabrita Mateus, A PIDE/DGS na Guerra Colonial, 1961-1974 (Lisboa: Terramar, 2004).
  • 18. Cláudia Castelo, Omar Ribeiro Thomaz, Sebastião Nascimento, Teresa Cruz e Silva (orgs.), Os outros da colonização (Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2012).
  • 19. Anthony King, Urbanism, Colonialism…
  • 20. John Rex, Race, Colonialism and the City (London: Routledge, 1973).
  • 21. Eric Wolf, Europe and the People without History (Berkeley: University of California Press, 1982); Sidney Mintz, Sweetness and Power: The Place of Sugar in Modern History (New York: Viking, 1985); Bernard S. Cohn, Colo nialism and its forms of Knowledge: the British in India (Princeton: Princeton University Press, 1996).
  • 22. Franz Fanon, Les Dammés de la Terre, prefácio de Jean-Paul Sartre (Paris: Éditions Maspero, 1961), edição inglesa, The Wretched of the Earth, trad. Constance Farrington (Londres, Nova Iorque: Grove Weidenfeld, 1963); Edward W. Said, «Reconsiderando a Teoria Itinerante», in Manuela Ribeiro Sanches (org.), Deslocalizar a ‘Europa’. Antropologia, Arte, Literatura e História na Pós-Colonialidade (Lisboa: Livros Cotovia, 2005), pp. 25-42; Ver também Manuela Ribeiro Sanches, «Lisboa, capital do império. Trânsitos, Afiliações, Transnacionalimos» neste livro.
  • 23. Laura Tabili, ‘We ask for British Justice’: Workers and Racial Difference in Late Imperial Britain (Ithaca: Cornell University Press, 1994); Mrinalini Sinha, Colonial masculinity: The ‘Manly Englishman’ and the ‘Effeminate Bengali’ in the Late Nineteenth Century (Manchester: Manchester University Press, 1995); Antoinette Burton, At the Heart of the Empire: Indians and the Colonial Encounter in Late-Victorian Britain (Berkeley: University of California Press, 1998); Catherine Hall et al, Defining the Victorian Nation: Class, Race, Gender and the British Reform Act of 1867 (Cambridge: Cambridge University Press, 2000); Philippa Levine, Prostitution, Race, and Politics: Policing Venereal Dise ase in the British Empire (London: Routledge, 2003); Kathleen Wilson, The Island Race: Englishness, Empire and Gender in the Eighteenth Century (London: Routledge, 2003).
  • 24. John MacKenzie, Propaganda and Empire: The Manipulation of Bri tish Public Opinion (1880-1960) (Manchester: Manchester University Press, 1984); John MacKenzie (org.) Imperialism and Popular Culture (Manchester: Manchester University Press, 1986); Felix Driver and David Gilbert (orgs.) Imperial Cities: Landscape, Display and Identity (Manchester: Manchester Uni versity Press, 1999); Stuart Ward (org.), British Culture and the end of Empire (Manchester: Manchester University Press, 2001); Bill Schwarz (org.), West Indian Intellectuals in Britain (Manchester: Manchester University Press, 2003).
  • 25. Francisco Bethencourt e Diogo Ramada Curto (orgs.), A Memória da Nação (Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1991); José Mattoso, A Iden tidade Nacional (Lisboa: Gradiva Publicações, 1998); Francisco Bethencourt, «A Memória da Expansão», in Francisco Bethencourt e Kirti Chaudhuri (orgs.), História da Expansão Portuguesa, vol. 5 (Lisboa: Círculo dos Leito res, 1999), pp. 442-480; Luís Cunha, A Nação nas Malhas da sua Identidade: O Estado Novo e a Construção da Identidade Nacional (Porto: Afrontamento, 2001); José Manuel Sobral, «O Norte, o Sul, a Raça, a Nação – Representa ções da Identidade Nacional Portuguesa (Séculos xix-xx)», Análise Social, vol. XXXIX (171) (2004), pp. 255-284; José Neves e Bruno Peixe Dias (orgs.) Como se Faz um Povo (Lisboa: Tinta-da-China, 2010).
  • 26. Isabel Castro Henriques, A Herança Africana em Portugal (Lisboa: CTT Correios de Portugal, 2009).
  • 27. Yves Léonard, «O Império Colonial Salazarista», in Francisco Bethencourt e Kirti Chaudhuri (orgs.), História da Expansão Portuguesa, vol. 5 (Lisboa: Círculo dos Leitores, 1999), pp. 10-30, p. 28; Maria Isabel João, «Comemorações e Mitos da Expansão», in Francisco Bethencourt e Kirti Chaudhuri (orgs.), História da Expansão Portuguesa, vol. 4 (Lisboa: Círculo dos Leitores, 1999), pp. 403-424.
  • 28. Yves Léonard, «O Império Colonial Salazarista»… p. 21.
  • 29. Ibidem, pp. 24-30.
  • 30. Decreto n.º 18 570, Diário do Governo, 8 de Julho de 1930.
  • 31. David Corkill e José C. Almeida, «Commemoration and Propa ganda in Salazar’s Portugal: The Mundo Português Exposition of 1940», Journal of Contemporary History, vol. 44, n.º 3 (2009), pp. 381-399.
  • 32. John Brian Harley, «Maps, Knowledge and Power», in D. Cos grove e S. Daniels (orgs.), The Iconography of Landscape (Cambridge: Cambridge University Press, 1988); Edward Said, «Representing the Colo nized: Anthropology’s Interlocutors», Critical Inquiry, vol. 15, n.º 2 (1989), pp. 205-225; John Brian Harley, «Deconstructing the Map», in T. J. Bar nes e J. S. Duncan (orgs.), Writing Worlds: Discourse, Text and Metaphor in the Representation of Landscape (London and New York: Routledge, 1992).
  • 33. H. Heriberto Cairo, «‘Portugal is not a Small Country’: Maps and Propaganda in the Salazar Regime», Geopolitics, 11 (2006), p. 376.
  • 34. Edward Said, Orientalism (Nova Iorque: Vintage, 1979).
  • 35. José Augusto França, «África em Lisboa. Nota Introdutória», In José Manuel Fernandes (org.), Arquitectura e Urbanismo de Matriz Portuguesa (Lisboa: Caleidoscópio/Universidade Autónoma, 2011), pp. 11-14; Ann Pitcher: Politics in the Portuguese Empire: The State, Industry and Cotton, 1926- -1974 (Oxford: Oxford University Press, 1993; Carlos Fortuna, O Fio da Meada: O Algodão de Moçambique, Portugal e a Economia-mundo, 1860-1960 (Porto: Afrontamento, 1993); Allen Isaacman, Cotton is the Mother of Poverty: Peasants, Work, and Rural Struggle in Colonial Mozambique, 1938-1961 (Ports­mouth, N. H.: Heinemann, 1997).
  • 36. Acto Colonial, título II: «Indígenas»
  • 37. José Ramos Tinhorão, Os Negros em Portugal (Lisboa: Caminho, 1997); Luís Cunha, «A Imagem do Negro na Banda Desenhada do Estado Novo». Relatório de aula teórico-prática (Braga: Universidade do Minho, 1994); Rosa Cabecinhas e Luís Cunha, «Colonialismo, Identidade Nacional e Representações do ‘Negro’», Estudos do Século xx, 3 (2003), pp. 157-184; Patrícia Ferraz de Matos, «Imagens de África? Filmes e Documentários Portugueses relativos às antigas Colónias Africanas (primeira metade do século xx)», Actas do V Congresso de Estudos Africanos no Mundo Ibérico (Covilhã: CES, 2006); Isabel Castro Henriques, A Herança Africana …
  • 38. Cláudia Castelo, «Migração Ultramarina: Contradições e Cons trangimentos», Ler História, 56 (2009), pp. 69-82, p. 75.
  • 39. Cláudia Castelo «‘Um segundo Brasil ou um terceiro Portugal’, Políticas de Colonização Branca em África (c.1920-1974)», Travessias (2004), pp. 155-180.
  • 40. Cláudia Castelo, «O Outro no Labirinto Imperial: Orientalismo e Luso-tropicalismo», in Renato Miguel do Carmo e Ruy Llera Blanes (orgs.), A Globalização no Divã (Lisboa: Tinta da China, 2008), pp. 295- -315.
  • 41. Cláudia Castelo, O Modo Português de Estar no Mundo’: O Luso -tropicalismo e a Ideologia Colonial Portuguesa (1933-1961) (Porto: Edições Afrontamento, 1999); Diogo Ramada Curto, «A Historiografia do Império Português na Década de 1960: Formas de Institucionalização e Projeções», História da Historiografia (Universidade Federal de Ouro Preto), n.º 10 (2012), pp. 111-123.
  • 42. Valentim Alexandre, «O Império e a Ideia de Raça (séculos xix e xx)», in Jorge Vala (org.), Novos Racismos: Perspectivas Comparativas (Oeiras: Celta, 1999), pp. 133-144; José Manuel Sobral, «O Norte, o Sul, a Raça, a Nação …; Patrícia Ferraz de Matos, As Côres do Império: Representações Raciais no Império Colonial Português (Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2006).
  • 43. Cláudia Castelo, «Migração Ultramarina… p. 70; Akhil Gupta, «Movimentações Globais das Colheitas desde a ‘era das descobertas’ e Transformações das Culturas Gastronómicas», in Manuela Ribeiro Sanches, Portugal não é um País Pequeno: Contar o ´Império´ na Pós-colonialidade (Lisboa: Cotovia, 2006), pp. 193-214.
  • 44. Catherine Hall e Sonya Rose, At Home with Empire: Metropolitan Culture and the Imperial World (Cambridge: Cambridge University Press, 2006), p. 22.
  • 45. Linda Colley, «Britishness and Otherness: an Argument», Journal of British Studies, 31 (4), (1992), pp. 309-29; Andrew Thompson, The Empire Strikes Back? The Impact of Imperialism on Britain from the Mid-Nineteenth Century (Harlow: Pearson, 2005).
  • 46. Michael Billig, Banal Nationalism (London: Sage Publications, 1995).
  • 47. João de Pina Cabral, «Galvão na Terra dos Canibais: a Constitui ção Emocional do Poder Colonial», Novos Estudos, 57 (2000), pp. 124-140; Harry G. West, «Invertendo a Bossa do Camelo. Jorge Dias, a sua Mulher, o seu Intérprete e eu», in Manuela Ribeiro Sanches, Portugal não é um País Pequeno… pp. 141-190; Ricardo Roque, «Colonialidade equívoca: Fonseca Cardoso e as origens da antropologia colonial portuguesa», in Manuela Ribeiro Sanches (org.), Portugal não é um País Pequeno… pp. 83-112.
  • 48. Cristiana Bastos, «The Inverted Mirror: Dreams of Imperial Glory and Tales of Subalternity from the Medical School of Goa», Etnográfica, vol. 6, n.º 1 (2002), pp. 59-76; Cristiana Bastos, «Goa em 1942: A Retórica do Império e as Ambiguidades do Nacionalismo», in Manuela Ribeiro Sanches, Portugal não é um País Pequeno… pp. 229-248.

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