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Amazona

Da minha janela vejo o Cristo Redentor, fantasma pairando nas nuvens sobre a imensa floresta cá em baixo, os conglomerados de prédios, e os barracões do morro dos Cabritos. Enquanto isso, no gira-discos, o Caetano canta: “everybody knows that our buildings were build to be destroyed.” London, London, o disco que fez no exílio, pedindo para a irmã Bethânia mandar notícias “Better, better, beta, beta, Bethânia”. Ela que vendeu sua alma ao diabo, que por sua vez a entregou a Deus, e “Before you can see/ She has given her soul to the devil / And bought a flat by the sea.”

A uma distância de entrar na onda, Caetano pede notícias que o alegrem, enquanto procura por discos voadores no céu cinzento da Inglaterra. Me lembro da peça que vi na semana em que cheguei, Amazona, pelo teatro Caminho, companhia carioca criada em 2014, que conta a história de uma guerrilha de mulheres em busca de vingança, em forma  thriller itinerante que começa numa sala fechada e explode pelas ruas da Cinelândia. Quatro atrizes vão percorrendo com o público as ruelas do centro, ora parando numa esquina onde um homem fala ao telémovel, fazendo-o entrar na trama, ora pulando nos andaimes das obras detrás do Teatro Municipal. Convocam acontecimentos como o julgamento dos 23 ativistas das Jornadas de Junho, desvendendo planos de ação, brigando por um entendimento sobre como enfrentar o “inimigo” e elaborar a resistência. Às tantas, uma delas diz que, se a espécie humana se autodestruísse e desaparecesse do planeta, o Rio de Janeiro seria uma das primeiras cidades a recuperar o seu biótopo natural. Em poucos meses, a humidade racharia o cimento, permitindo a infiltração da água, e o tempo faria essas fendas se alargarem, favorecendo a irrupção de ervas. Se os esgotos fossem destruídos, antigos cursos de água reapareceriam e novos surgiriam. Não tardaria para que praças e ciclovias fossem invadidas por gambás, gaviões, cobras, capivaras e corujas. Em pouco tempo, a floresta ocuparia toda a região.

Ficámos em silêncio, em frente às escadarias da Câmara, imaginando como seria a cidade sem ninguém, antes de retirar uma semente de dentro do envelope que carregávamos desde o início da peça. E então cada um plantou, simbolicamente, a insurreição. “Everybody knows that our buildings were build to be destroyed/ you get annoyed.” Concluo com os mistérios do tempo, que este disco soa estranhamente actual. 


Eclipse

Estou de regresso à cidade depois de uma longa temporada. Estava em Portugal quando o Museu Nacional ardeu, Bolsonaro foi eleito, e Lula anunciou que se ia casar. Notícias de um país em mudança? Talvez sem grandes surpresas para quem sempre acompanhou os ciclos económicos e se habituou às manobras da elite, cansado de confabular sobre a “vontade popular” das sucessivas tentativas de redemocratização.

A propósito, encontro numa sessão de curtas experimentais no MAM, uma película cheia de cor, Eclipse, de António Moreno, feita em 1984, onde sobre a animação direta em negativo, o autor proclama: “ouvi, vi e cansei de poemas tristes latino-americanos, falando de homens frágeis e impotentes. Renego esta ótica colonialista que só quer perpetuar entre nós a visão de um horizonte onde não veremos país nenhum.” De seguida, uma voz feminina completa: “se hoje ainda posso inventar as cores para me expressar, é que antes algum irmão camarada meu, desta terra em que nasci, e desta água que bebi, me ensinou a olhar, e me disse, que durante o eclipse, as cores mudam, e que eu tinha que as inventar.”

'Eclipse', de António Moreno, 1984 vimeo.com/143588387‘Eclipse’, de António Moreno, 1984 vimeo.com/143588387

Fulgor poético no final de uma sexta, no meio do oceano de desânimo em que se tornou o país. Mas como estamos no Rio e #sextou, é como diz o poeta: o nosso amor a gente inventa.  

A praia

Vivi aqui durante alguns anos, enquanto estudava Antropologia, e estou de volta para estudar Documentário na Fundação Getúlio Vargas, uma das mais prestigiadas instituições, criada inicialmente com o objetivo de preparar pessoal qualificado para a administração pública e privada do país. Desde logo confirmo nos corredores, que é impossível alguém de uma classe menos previligiada estudar aqui sem bolsa. Assim como é impossível alguém de classe menos previligiada comer em certos sítios, entrar em determinados lugares, circular à vontade, ou fazer determinadas coisas nesta cidade. Durante a minha aula, enquanto os meus dedos abrem janelas virtuais, vejo o professor Eduardo Escorel – que por acaso foi quem montou o Terra em Transe – falar durante imenso tempo na “postura documental”, e nos dilemas de quem quer “ver além”, e só consigo pensar na praia. Em como a praia é ainda um dos lugares mais democráticos, onde podemos observar corpos negros favelados a conviverem com patricinhas e turistas branquelas junto ao mar.

Praia do LemePraia do LemeO lugar mais democrático da zona sul, entenda-se, pois essa miscelânia toda já não encontramos no Piscinão de Ramos, praia artificial criada no governo de Anthony Garotinho em 2001 na zona norte da Maré, e que segundo a wikipédia “dividiu opiniões da população carioca, sob acusações de ser uma obra populista, proibições de traficantes ao uso da cor vermelha, contaminação da água por excesso de urina, afogamentos pela falta de educação de seus frequentadores, em suma, de baixa renda.”

Imagino de repente uma cena entre este editor da enciclopédia do senso comum da internet e o meu professor, de frente pra ele, a explicar-lhe calmamente, exatamente como na aula, com a mão suspensa no ar: “Oiça… se viver é uma questão de perspetiva, sobreviver é uma questão de classe.” Poderá a imaginação nos guiar? Já não me lembrava desse curioso fénomeno que é a salva de palmas coletiva na praia, quando aparece uma criança que se perdeu, ou quando alguém é salvo de morrer afogado. 

Maintenant

Vivo num prédio que fica dentro do Shopping Cidade de Copacabana, na boca do metrô Siqueira Campos. Aqui há de tudo: dentista, gráfica, imobiliária, teatro, banco, supermercado, antiquários, galeria de arte, lavandaria, cabeleireiro, comida a kilo, costureira, lojas de roupa, igreja evangélica no último andar, boate underground no rés-do-chão. Um microcosmos da vida carioca: fiéis com bíblias na mão, bicicletas nos corredores, corpos de sunga com toalha no ombro a caminho da praia. Sinto que podia fazer a minha vida toda sem sair deste shopping. Ainda por cima há banquinha de doces conventuais e a Adega Pérola, com os melhores petiscos portugueses, mesmo em frente. Na parede do elevador, desde que cheguei estão afixadas duas folhas A4: uma é sobre a nova biblioteca que foi criada por uma menina de 12 anos chamada “Lua”, na comunidade dos Tabajaras, que fica aqui do lado; e a outra é um pedido de retratação por parte do chefe dos porteiros a um morador do 11º andar, por “ofensas verbais”, não especificadas no texto. Nele, ele compromete-se a agir “com urbanidade” – é a expressão que usa – para que daqui para a frente, tais ofensas não se voltem a repetir. Leio que o shopping conseguiu arrecadar mais de três mil livros em doações para a biblioteca, enquanto subo, e recordo que este gesto se dá a menos de um mês de uma outra menina, Ágatha Felix, de oito anos, ter sido baleada nas costas pela polícia, quando se encontrava prestes a sair de uma carrinha, no Complexo do Alemão, bairro que abriga um dos maiores conjuntos de favelas da zona norte. Como comentava esta semana uma amiga portuguesa de visita cá, “é tudo muito intenso”. Pois. Confesso que estava com saudades. 

Leio Maintenat do Comitê Invisível, texto de 2017, escrito por um grupo de pensadores e ativistas anônimos sediados na França, que recebeu no Brasil uma bela edição em livro: “Realizar a promessa de comunismo contida na fragmentação do mundo demanda um gesto, um gesto a se refazer interminavelmente, um gesto que é a própria vida: o gesto de compartilhar passagens entre os fragmentos, de colocá-los em contato, de organizar o seu encontro, de abrir os caminhos que levam de uma extremidade de mundo amigo a um outro, sem passar por terra hostil, o gesto de estabelecer a boa arte das distâncias entre os mundos.”

Percorro as ruas para ir encontrar uma amiga, e passo por um clássico do bairro, a Xuxa do Sinal, que descubro que é o transformista Ivy Lima, de 30 anos, que me renova o astral com a sua imitação deliciosa da Rainha dos Baixinhos. Minha amiga, que dá aulas de história contemporânea na UFRJ, me conta sobre as suas conversas de ónibus, e que é incrível como a maioria das mulheres não sabe que pode sequer tirar o passe mensal, e assim poupar no valor da tarifa que hoje em dia já vai em 4,05 reais. Há pouca consciência sobre os direitos, e o preço dos transportes é um absurdo. Pois. Assim fica difícil o pessoal da Maré vir até ao Oceano. A quem servem, afinal, as distâncias? 

 

Primeira crónica mensal para o BUALA, a partir do Brasil. 

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