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Desburocratizar Angola

Existem malucos e malucos, este é um maluco que desejava casar. O casamento era já na sexta-feira e o documento de identificação não aparecia. Um parêntesis: os homens a quem chamamos “malucos”, nas ruas da nossa Angola, são cheios de sapiência. Por exemplo o “matemático”, como apelidamos o “maluco” das equações diferenciais e do Teorema VIII/ quociente de polinómio… “sendo x uma sucessão convergente e R uma função continua para x igual a zero, e Xn, o termo geral de uma sucessão convergente…” – matutava com profundidade.

E quem não conhece o “Valentim” que, apesar do seu contínuo estado de embriaguez, tem sempre um conselho a dar aos casais infelizes? É do Cubal, fugiu da guerra e nunca mais se encontrou. Outro maluco que jamais esquecerei, de ar cordial e um impressionante domínio linguístico. É insólito porém real, o “poliglota” fala francês, italiano e vários dialectos (cheios de códigos, imperceptíveis até para os falantes). Este homem foi, ou é (acho que nunca se deixa de ser, independentemente das patologias diagnosticadas) genial. O que nos diferencia destes homens é que eles vestiram a fatiota de malucos e nós de cidadãos comuns. Mas atenção, os malucos quando surtam são mesmo malucos!

Dizem por aí que o cosmopolitismo enriquece o conhecimento. Cá para mim, por onde estes homens passaram não há conhecimento que valha. Precisamos com urgência de investir nos «PSICÓLOGOS DA PAZ», ao invés de hospícios ou manicómios. Mas deixemos esta temática de traumas para outra crónica…

Entretanto, na Casa dos Registos uma fila desconcertante por tempo indeterminado com o acréscimo do SEM SISTEMA (uma expressão aparentemente inocente). No dicionário a explicação é dissonante – sistema: reunião de princípios ligados entre si, de maneira que formem uma só doutrina.-, na linguagem terra-a-terra mangolê quer dizer: “volte mais tarde”, “aguarde, yá”, “espera só”, “tá rijo!”.

E não é que o maluco aparece no guichê do bilhete de identidade e quer o seu assunto resolvido? É de casamento que se trata. O homem, que não é totalmente maluco, diz em voz alta que o seu casamento vai ser à moda antiga, não será como esses casamentos relâmpago, casou seis meses depois divorcia. Estava no lugar certo à hora certa com a vontade certa, só queria um Bilhete de Identidade com um nome que ele próprio desconhece, para casar à moda antiga com alguém por sinal também desconhecido ou mesmo inexistente. O maluco pode ser maluco mas sabe que sem B.I. não é cidadão, é só maluco. O lema é “cidadania e inclusão”. O maluco também quer estar incluído nesta nova Angola. Queremos todos! A minha companheira da “sentada” na sala de espera falava com entusiasmo desta nova era: “O nosso presidente vai desburocratizar Angola.”

Não sei como começou esta febre da “apropriação cultural” mas vem mesmo a calhar. É a expressão que faltava para caracterizar a burocracia. Sim, nós mangolês apropriamos a burocracia dos tugas e infelizmente fizemo-lo à letra; apropriamos a burocracia como cultura, ou a burocracia é que nos apropriou; a burocracia como doutrina, a burocracia agora é nossa, burocracia e mais burocracia. BU-RO-CRA-CIA. Vive la bureaucratie! Quem está mesmo bem é o bebé nas costas da mãe, cochila, cochila desconhecendo as nossas malambas diárias. A mãe em abanos por fim sentou na escada. Aconselho os europeus a substituírem os cafés centros de debate, revolução e confraternização por salas de espera onde tudo acontece – ou os nossos azuis e brancos (candongueiros).

Quem não conhece o “Azulinho” não é mangolê de gema. Não queria fugir muito ao tema, mas falar do transporte da geração dos espontâneos (os emergentes) é imprescindível para enriquecer o debate em torno da cultura contemporânea e linguística deste povo (que é meu e a quem pertenço). Atenção compatriotas: «União Forever! Papoite da Kebrada! Nós queimamos o fogo e o fogo não nos queima! Liga dos com brilho: o barco já não é o mesmo! Os strongs cheios de power! Táxi dos swaggados! Tamu juntos ninguém nos fatiga! Bumbamos com garra! Kandongueiro do States! (…)» e neste interior (lá dentro mesmo, nos confortos e desconfortos do assento) «o candongueiro» acrescenta as actualizações diárias e semanais das notícias da banda: – ouvi dizer…o marimbondo…também vi nas redes sociais…grande maka…e viram o Jornal da noite?

Voltemos ao fio condutor do meu raciocínio primário, lá na sala de espera centro de debate e etc. De minuto a minuto um amigo ou conhecido que não actualizamos à prosa há longas décadas entra:

– Oh, meu grande Kamba! Junta-te à fila de espera- «um abraço carinhoso e lobitanga». E há sempre um músico na sala de espera, sempre, com assobios e cantorias momentâneas (através do descontentamento). Parece que o maluco foi convidado (amigavelmente) a se retirar, mas não antes de deixar uma no ar:

“Amanhã volto para tratar a papelada do casório. O boda mais badalado da província! Casaremos no registo e na igreja, é tudo ou nada. Na fé de Deus nosso senhor. Comunhão de bens…tudo à moda antiga. Na saúde e na doença, na riqueza e na crise até que…hum, amén!”

É caso para dizer (sarcasticamente falando) cada um com a sua maluquice ou quem espera sempre alcança. Lá fomos atendidos e quem sabe, um dia, desburocratizemos Angola (tudo isto afim de um atendimento).

 

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