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Funeral de Jazz em Nova Orleães

A tradição dos  funerais de jazz, como tantas em Nova Orleães, tem as origens em África. Há quatro séculos atrás, já os Dahomeans do Benin e os Yorubá da Nigéria, e ainda algumas etnias no Gana, celebravam a morte de maneira efusiva e alegre. Em Cabo Verde também se  desfila com música a acompanhar, em Angola o óbito tem sempre festa associada. É uma ocasião de luto e de lembrança mas também de celebração do defunto. 

Originalmente, depois do velório e da missa fúnebre na casa mortuária – neste caso a Gertrude Geddes Willis na esquina com as Avenidas Jackson e Lassalle, que serve predominantemente a comunidade negra – fazia-se uma procissão lenta e solene ao som de uma Dirge ou de um Velho Espiritual Negro, como por exemplo o Nearer My God to Thee, com o caixão na carroça e as pessoas a pé, com duas bandas Brass Band a tocar, a mais antiga à frente e a mais jovem e funky atrás.

Ia-se ao cemitério local e, depois de enterrado o morto, tinha início a marcha pelas ruas da vizinhança.

Aqui o ritmo aumentava significativamente ao som de When the Saints Go Marching In ou uma peça de ragtime como Didn’t he Ramble e a festa começava.  
Hoje em dia, devido ao uso do carro funerário e das grandes distâncias até ao cemitério, a procissão que começa igualmente lenta, com um passo enfático e marcado pelo Marshall, muda de ritmo assim que se encontra a uma distância respeitável da casa mortuária. O Marshall dá o sinal, a banda rompe drasticamente para uma música upbeat e a procissão começa a ganhar volume com os vizinhos a juntarem-se contagiadas pela música e pela dança. Passado algum tempo, o carro parte com os familiares para o enterro, enquanto que as bandas e os participantes permanecem na vizinhança continuando a festa.

Elijah Randall, nascido em Outubro de 1948, serviu no Vietname e morreu também em Outubro (2007), mas teve um funeral relativamente pequeno. Quando se trata de um músico conhecido, os funerais podem ter dez mil pessoas e durar várias horas.

A ideia de um funeral condigno estava bem impressa nas memórias dos escravos. Já em África havia sociedades secretas que asseguravam um funeral aos membros, mediante o pagamento de uma quota. Para os escravos, a morte tinha uma componente adicional de alto valor emocional e espiritual. Para eles, a morte era o retorno a casa, à mãe África. Era uma libertação do martírio e, como tal, uma ocasião de júbilo. A alusão ao retorno a casa é frequente nas canções, nas orações e nos panfletos fúnebres: going home. Em Nova Orleães, depois de abolida a escravatura, formaram-se Social Aid and Pleasure Clubs – clubes de beneficência que organizavam actividades sociais e os funerais dos seus membros e ajudavam a manter viva a tradição. Muitas dessas associações sobrevivem hoje e quando muitos duvidaram de que Nova Orleães pudesse renascer do furacão Katrina, foi essa e muitas tradições enraizadas na psique do povo que motivou muitos a regressar e a reconstruir as suas vidas na cidade que amam.

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