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O sonho de Niemeyer e o Universo Paralelo

Novembro de 1975, num relâmpago milhares de pessoas abandonam a cidade. Termina a colónia, recomeça a contagem. Luanda, capital de Angola, na costa ocidental de África é agora um espaço vazio e aguarda, ansiosa, pelos novos inquilinos. Novos habitantes, nova liberdade. Tal como “ocupas” hoje dentro de edifícios marcados por momentos, recordações, odores de outrora, Luanda antecipa o conceito e recebe de portas abertas os novos ocupantes. A desenfreada ocupação origina mistura social. Luanda transforma-se numa cidade singular, onde o mais pobre e o multimilionário coabitam nos mesmos edifícios e partilham os mesmos degraus, como havia sonhado Óscar Niemeyer quando projectou o emblemático Copan.

Copan, projecto de NiemayerCopan, projecto de Niemayer

O paralelo entre o Copan e Luanda pós-Independência continua actual. Tal como o sonho falhado de Niemeyer, do lado oposto do Atlântico, o crescimento explosivo da população na cidade de Luanda causa vertigens. Sobrelotação das casas, tráfego estancado, cinemas transformados em igrejas e elevadores em novas residências. Inicia-se um longo mergulho ao caos. Entre a guerra civil e a nova ordem mundial, o funge de Sábado e as multinacionais, a cidade resiste. Morre o sonho comunista e crescem as novas torres. O capitalismo é selvagem e desta vez não resta espaço para utopias, “time is money”.

Abandonamos a cidade de asfalto e entramos nos intermináveis musseques (guethos). A paisagem aqui é mais cinzenta, mas de cinzenta, só a paisagem. Albergue de políticos, ex-militares, refugiados de guerra, católicos, muçulmanos, mucubais, travestis e celebridades, os musseques reinventam-se a cada instante. É indiferente se vivemos no comunismo ou capitalismo, mono ou stereo partidarismo. O poder aqui é autónomo a qualquer instituição, ou de qualquer crença religiosa. Está distribuído pelas ruas e bairros, encerrado nas suas fronteiras. A economia é caseira, baseada no retalho do retalho. A cultura é híbrida, intensa e extremamente experimental. O Hi-Tech casa-se com o animismo, os ritmos e danças tomam de assalto a cidade de asfalto. Os candogueiros (táxis informais) como se fossem o youtube, disseminam a música e a atitude oriunda dos musseques por cidades e aldeias, de todo o território nacional. O musseque por fim criou uma identidade nacional.

 

Qualquer tentativa de conceber teorias sobre estes fenómenos, torna-se inútil e obsoleta no momento em que é criada. Este universo é definitivamente paralelo. Impossível não participar. Não há figuras solitárias nem turistas nesta estória, ninguém passa indiferente. A vida é uma constante diligência. Cidades como estas estão por todo lado, são planetárias na sua essência, os continentes tornam-se pequenos para elas. Transbordam fronteiras continentais e também as da ficção. A sua mutação veloz e o susceptível sistema imunitário, tornam-na incapaz de qualquer tipo de prevenção ao agente desconhecido. Tudo se torna parte dela.

Alô, alô de Kiluanji Kia Henda, 2006, cortesia da Fundação Sindika DokoloAlô, alô de Kiluanji Kia Henda, 2006, cortesia da Fundação Sindika Dokolo

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