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Praia, Movendo, Arte

Passavam devagar as nossas tardes de fim-de-semana. Eu e Nuno, arquitecto, ou íamos ao ”Poeta”, uma esplanada num miradouro natural com vista para o mar, ou estávamos na varanda da bela casa da sua avó, que se abre para a mais antiga praça da cidade. Eu já tinha começado a expor fotografia e a cidade atraía-me. Nuno trabalha com a cidade. As conversas andavam mais ou menos à volta da cidade, de como ela vai sendo, de como ela já não é, de como deveria ser ou, pelo menos, de como queríamos que ela fosse e o que devia ter.
Numa dessas tardes, a olhar para a grande praça, bordada de imponentes edifícios antigos, a Igreja Católica, o Supremo Tribunal da Justiça, a Câmara Municipal da Praia, a antiga sede do Banco Nacional Ultramarino, hoje sede de outro banco, os outros edifícios, o Palácio da Cultura, disse-lhe, Vamos fazer uma intervenção?
A cidade da Praia tem hoje cinco vezes mais gente do que há trinta anos atrás. Gente que veio de toda a parte: de outras cidades e vilas de Cabo Verde, de outros países africanos que ouviram dizer que aqui há paz e prosperidade, da China os comerciantes, da Europa os investidores externos, jovens e aventureiros atraídos pela curiosidade ou por contágio, deram com este país e alguns aqui deixaram marcas. Continua. Este pequeno país está nas bocas do mundo. Cineastas fazem filmes em Cabo Verde e sobre Cabo Verde, encenadores peças de teatro, qualquer canto de cada ilha já foi fotografado milhentas vezes, vários livros foram escritos, há colóquios internacionais sobre nós, a nossa língua, o nosso caso de sucesso no mundo. Também descobriram as ilhas, ou nós os descobrimos, os piratas, os traficantes de guerras e de pessoas, e passámos a recolher nas nossas costas os ‘boat people’, gente feita farrapo humano, embarcados e abandonados no meio do mar à deriva. E ainda vieram, não por vontade própria, os deportados, grande parte deles dos Estados Unidos, vestidos, a falar, a cantar e a matar à americana. Cinco vezes mais gente se amontoou nesta cidade, em tudo quanto é esquina, encosta, ribeira, em cima de montes ou vales escondidos, as casas foram subdivididas para alugar mais, prédios toscos foram rapidamente levantados para acolher tanta gente, multiplicaram-se lojas chinesas e o sucupira, amplo mercado a céu aberto, ficou muito maior em tudo. Tudo!
A cidade da Praia tem hoje cinco vezes mais gente do que há trinta anos atrás, sem os correspondentes cinco vezes mais bairros, mais luz, mais água, mais redes de esgotos, logo, os problemas na Praia são múltiplos, mas também aqui hoje são múltiplos os sabores, as cores, as sonoridades e há novas formas de rezar a Deus. Os sentidos ganharam outros condimentos. Passámos a ter vizinhos chineses, senegaleses, guineenses, espanhóis, portugueses, brasileiros, indianos. Tudo mudou. Estive anos a fotografar os antigos cartões postais, os clichés e as imagens que os antigos poetas cantavam, de costas voltadas para a mudança que vinha ocorrendo voluptuosamente atrás de mim.

Numa dessas tardes, enquanto falávamos da cidade, como ela era, como ela não é mais, como devia ser, percebi que a cidade da Praia, dentro das nossas cabeças, precisava urgentemente ser revista e aumentada. É como ter um armazém de tintas e não ter o que pintar. Não queria mais ficar à varanda da casa antiga a observar a praça colonial.
Vamos encher isto de contentores, montar uma galeria maluca, cheia de imagens novas. Vamos ousar, espantar as pessoas que saem da missa. Nuno, também ele amador dos temas urbanos, agarrou a ideia. Iniciámos a discussão. Estivemos dias a criar o conceito, que não se deveria parecer com nenhum conceito que já conhecíamos. Fizemos os esboços, ensaios de imagens, tudo isto sempre a discutir a cidade. Dentro de dias uma estranha movimentação de camiões, máquinas-gruas e grandes contentores, perturbou a rotina da praça. Estranhas galerias e não menos estranhas fotos, minhas e de Omar Camilo, fotógrafo e cineasta cubano. Na abertura contámos com uma performance de meninos do teatro, os discursos da praxe, imensa gente, as famílias, muitos curiosos e logo o rol dos mais variados comentários, alguns desconfiados. Alguém soltou o veredicto: Arte Contemporânea!
Gostámos da adrenalina e o atrevimento originou movimento. Na segunda edição, em 2007, escrevemos e encenámos uma peça de teatro, passámos filmes, convidámos várias pessoas com diferentes formações para discutir os nossos temas da arte e da cultura. Provocámos. Auto-denominámos o nosso evento de Arte Contemporânea e acendeu o debate. Primeiro sobre o que era Arte Contemporânea, depois se merecíamos essa denominação, uns a jurar que sim, outros a duvidarem. Atraímos os media, ganhámos ricos apoiantes e rancorosos detractores. Deitámos a pedra ao charco. Quisemos pintura, escultura e novos meios, fotografia, vídeo, performance e instalação. Sobretudo quisemos debater que estética, que assuntos e direcções iamos tomar. Falámos do mundo e de como estamos cegamente isolados do que acontece mesmo aqui ao lado, em Dakar. Revolvemos a madeira seca e acendemos a vontade de aprender e produzir conteúdos novos, desabafar e gritar para que nos ouçam. Continuamos a não ter a certeza de nada, mas indiscutivelmente há um antes e depois, aqui na cidade da Praia, depois de Praia.Mov e outros mini movimentos que ao mesmo tempo despontaram nesta cidade, a activarem-se e contaminarem-se mutuamente. Continuamos débeis de produção e participação no mundo das artes, dos encontros, bienais, das mostras internacionais e dos media mundiais, mas doravante temos garras mais afiadas, prontas para agarrar as oportunidades. A fervura desses dias abrandou, por actuação de fenómenos bem locais, dos quais destaco a nossa luta fratricida por protagonismo e a nossa genética incapacidade de fazer coisas em conjunto por período continuado de tempo, mas as raízes estão aí, à espera de mais chuva. Não fizemos mais Praia.Mov desde 2008, mas um número considerável de artistas, que residem na Praia, continuaram os seus percursos individuais certamente com um novo olhar sobre a sua cidade.

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