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Representação de Luanda em “Chico Nhô” de Jacinto de Lemos

obra de Marco Kabendaobra de Marco Kabenda“Nesta nossa terra de Luanda”. Representação da cidade em Chico Nhô de Jacinto de Lemos é, antes de mais, uma viagem que continua, pelos trilhos da literatura angolana que comecei a conhecer e investigar por ocasião do trabalho final da licenciatura e que, a partir daquele momento, determinou o eixo principal dos meus interesses e das minhas pesquisas académicas. A ideia germinal para esta dissertação era a de focalizar a minha atenção mais sobre temáticas sociolinguísticas do que literárias e analisar em pormenor o possível emergir, nalgumas obras recentes do panorama literário angolano, duma norma africana do português, para além das europeia e brasileira. Porém, a visita à exposição da Trienal de Arquitectura de Lisboa e a temporária vivência nesta mesma cidade, cheia do fascínio que contínuas e implícitas referências à literatura portuguesa alimentavam, resultaram determinantes na escolha do mundo dos estudos urbanos como âmago deste trabalho final do mestrado. A nova urgência das minhas pesquisas tornou-se portanto a de tentar capturar a imagem da capital de Angola, Luanda, escondida nas palavras dos autores que a tinham descrito, encenado e tornado viva nas suas obras: se isso era possível com as cidades europeias (tinha na cabeça as imagens da Lisboa de Fernando Pessoa e de José Saramago, da Dublin de James Joyce e da Londres de Charles Dickens), porquê não o podia ser também com uma cidade africana, normalmente referida simplesmente como lixeira de problemas sem solução e expressão de mera desesperança e miséria?

É preciso admitir que o meu então limitado conhecimento do panorama literário angolano e o meu entusiasmo contribuíram para a sobrestimação da originalidade do tema: a literatura angolana nasce urbana por razões históricas e, na maioria das suas manifestações, é urbana por definição; disso procede que a produção sobre a cidade de Luanda, desde os primórdios da literatura escrita na colónia portuguesa de Angola até às mais recentes estreias no panorama editorial contemporâneo, consta ser imensa, até de difícil recolha e catalogação, sem pensar num trabalho de análise exaustivo e suficientemente abrangente; por ser tão intrinsecamente caracterizador da sua mesma existência, o elemento urbano nas obras dos escritores angolanos é um dos temas mais pesquisados, debatidos e antologiados pelos críticos e estudiosos das literaturas africanas de língua portuguesa. A revelação da pequenez das minhas pretensões foi-me dada por um especialista desta disciplina, o professor Pires Laranjeira, catedrático de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade de Coimbra, o qual porém, ao mesmo tempo, me abriu caminho para outras questões, como o círculo vicioso da publicação limitada a certos nomes fixos, em Portugal e consequentemente no resto da Europa; a necessidade de não autoalimentar a produção crítica sobre si mesma, mas de alargar os horizontes de pesquisa a temas e autores nunca explorados; o prevalecer dum certo olhar ainda “eurocêntrico”, que pretende ler e interpretar textos produzidos num contexto cultural africano, e no caso angolano banto, só recorrendo a conceitos e pressupostos culturais ocidentais. Nesta senda de uma abordagem alternativa ao tema que tinha escolhido e aproveitando dos novos conhecimentos que entretanto tinha adquirido, afinal decidi dedicar a minha dissertação de mestrado à análise do romance Chico Nhô de Jacinto de Lemos.1

fotografia de Sergio Pinto Afonsofotografia de Sergio Pinto Afonso

Reparti o meu trabalho em quatro capítulos. Resolvi manter uma primeira parte dedicada à exposição do tema da cidade em literatura que nasce na Europa com as profundas mudanças acarretadas pela revolução industrial do século XIX: o laço que une a modernidade com o ambiente urbano pareceu-me uma referência obrigatória para enfrentar qualquer discurso sobre uma cidade e a sua representação literária. Tentei, nas citações com que enriqueci sobretudo o segundo parágrafo deste primeiro capítulo, abranger quantas mais expressões da cultura europeia declinada nos diferentes idiomas nacionais me foi possível, e também lançar um olhar ao outro lado do Oceano Atlântico, também representante da comum cultura ocidental. Não sendo tarefa fácil, por envolver a abordagem a disciplinas que nunca estudei de forma sistemática como a sociologia ou a história económica, enfrentei também uma apresentação das principais questões e nós problemáticos envolventes a chamada cidade pós-moderna, a que sai da (por alguns definida) “terceira revolução industrial” e tem que encontrar soluções atuais a situações novas, como a cada vez menor dependência, no que se refere à economia urbana, do setor industrial, a compulsiva aceleração dos ritmos e segmentação dos espaços da vida social e a progressiva falta de um horizonte futuro na perceção dos seus habitantes, que pelo contrário parecia ser o valor fundacional das cidades da belle époque.

Ao mudar do cenário para uma panorâmica sobre as cidades africanas muda também a medida com que estas são avaliadas: já não a literatura ou outras formas de interpretação do sentido dos signos concretos, mas sim teorias históricas e modelos de desenvolvimento procuram traçar os seus limites, os seus anseios, a sua realidade mais intrínseca. Se é verdade que o passado (prolongado até ao presente?) colonial é uma laceração indelével no tecido dos centros urbanos africanos, com toda a sua carga de preconceitos, segregação, injustiça e violência, é ao mesmo tempo inegável que foi mesmo nesta conjuntura histórica que o urbanismo em África começou a desenvolver-se e que foi nas cidades, não nas imensas extensões rurais, que as lutas pela independência se originaram, daí expandindo-se para todas as variegadas realidades dum continente até então subjugado. Se é também verdade que as instantâneas que nos chegam das cidades africanas contemporâneas reiteram no nosso imaginário de “civilizados” a indignação por uma miséria que não parece ter fim e a desilusão face à esperança que algo mude, é ao mesmo tempo inegável que um grande número de africanos continua a escolher o labirinto urbano, as suas complexidades e os seus desafios como lugar para onde mudar-se e conduzir as suas vidas; nalguns casos isto parece ser uma opção obrigatória, a única alternativa possível à ainda menos desejável pobreza rural, mas isso, na minha opinião, está a processar-se não diferentemente do que acontecia há um século (e talvez muito menos) nas nossas latitudes. Como reflexo desta negação duma leitura “moderna” das cidades africanas, a maior parte dos textos que abordam o urbanismo em África apoia-se a dados, números, classes sociais e relações entre países. Pouco é o que se encontra sobre as luzes, os cheiros, os sons e as cores que descrevem o seu ambiente físico, “lugar insubstituível de todas as vivências humanas”; sobre as perceções, as sensações e a ligação destas com a memória, “os sentimentos, as necessidades, os desejos e os projetos”, todos elementos que caracterizam a cidade como um conjunto de signos, no labirinto dos quais a literatura e as outras artes tentam encontrar um sentido plausível à vida do homem. Escolhi portanto dar voz, no último parágrafo do segundo capítulo, a visões diferentes da realidade urbana africana, que a olham como um repositório de possibilidades criativas, e a algumas imagens capturadas por escritores africanos, que revelam a sua vitalidade, o seu fascínio e os seus cantos de beleza.

fotografia de Sergio Pinto Afonsofotografia de Sergio Pinto Afonso

Pelo contrário a cidade de Luanda sempre foi, desde o seu nascimento, o centro político de Angola, o lugar de onde a expansão colonial portuguesa se irradiou, o que a tornou no centro literário da ex-colónia de Portugal, papel que desempenhou também depois da independência até aos nossos dias. A sua história é aqui relatada passo a passo com o nascimento e o desenvolvimento da literatura angolana, os quais se processaram depois da efetiva tomada de posse de Portugal sobre a sua “joia” africana na altura da “corrida a África” dos finais do século XIX que viu competir as potências europeias na conquista e controlo do território africano. É a história, sobretudo, da progressiva exigência e consciência da autonomia dessa literatura para com os padrões culturais da metrópole, do reconhecimento da sua originalidade face aos modelos europeus e das tentativas de a recolocar em esquemas interpretativos próprios: Luanda como expressão duma sociedade crioula contraposta ao resto do país ainda profundamente embebido da original cultura banto, ou como elemento extrínseco na sua realidade de cidade fundada por estrangeiros mas pouco a pouco reconquistada pelos legítimos habitantes da terra e a sua cultura; a Luanda da contraposição Baixa-musseques, o coração pulsante da nação liberta mas precipitada numa guerra civil onde as regras existem só para ser enganadas, ou ainda a capital do “petro-capitalismo” descontrolado. É uma história que deixei contar, na medida do possível, aos que nela se encontraram envolvidos e que procuraram registá-la, descrevê-la, interpretá-la e através disso fazê-la reviver nas suas páginas. A escolha caiu necessariamente sobre os autores mais conhecidos em Portugal (e consequentemente na Europa): a incontornável e imprescindível referência, para o estudo das letras angolanas, de Luandino Vieira; outro nome fundamental, Pepetela, o escritor que mais do que os outros recria e reinventa a história de Angola num contínuo processo de leitura, crítica e reexposição do projeto da nação; os mais recentes Agualusa, João Melo e Ondjaki, que com estilos muito diferentes nos dão a sua própria interpretação da sociedade luandense contemporânea.

Conclui e completa o meu trabalho de aprofundamento das relações que intercorrem entre cidade e literatura no caso específico de Luanda a apresentação e o comentário do romance Chico Nhô do escritor Jacinto de Lemos, tanto popular e constantemente lido na sua terra quanto é desconhecido em Portugal e no resto do Ocidente. É uma obra em que forte é o marco da cultura africana originária, nas temáticas confrontadas, bem como na cadência dialógica que ritma a composição, na linguagem “mussequeira” e na maneira como a matéria do romance se encontra distribuída ao longo da narração. Uma leitura que me levou mais perto da cena literária angolana atual, que continua a ficar fora do alcance dos gostos e das exigências de mercado europeus mas que nem por isso deixa de existir.

fotografia de Sergio Pinto Afonsofotografia de Sergio Pinto Afonso

Revelou-se complexo manejar tantos e tais argumentos, da teoria da literatura à história africana, da sociologia urbana às teorias do desenvolvimento, passando pelas teorias pós-coloniais que tentam dar novas chaves de leitura dum universo que até há poucas décadas a Europa desconhecia ou abordava com pretensa superioridade. Este risco permanece e permanecerá até que enfrentemos o estudo das culturas alheias com a mesma genuína curiosidade e vontade de descoberta, com o mesmo respeito e da mesma forma sem preconceitos, com os mesmos olhos atentos mas não maliciosos que desejaríamos se nós estivéssemos sob a lupa de qualquer estudioso. O presente trabalho quer ser uma homenagem e um contributo a esta maneira de descobrir, de estudar e de divulgar o conhecimento sobre o homem e o mundo que ele habita.

 

  • 1. O qual, muito cortesmente, procurou enviar-me uma cópia da obra que só se encontra editada em Angola e Cabo Verde.

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