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3º chamada – corpo – VIDA E MORTE

Convidamos os leitores e colaboradores do BUALA a produzirem textos e/ou imagens relacionados com o CORPO. Avançamos apenas linhas de abertura. Interessam-nos tanto os estudos mais teóricos/ analíticos como reflexões mais pessoais, experiências, trabalhos ou obras que explorem estas questões ou temas a partir da arte, ciência, política, etc.  Os registos podem ser de todas as naturezas: poético, ensaístico, jornalístico, impressionista, manifestos, provocações,… convém não ultrapassar as 1500 palavras nem o dia 30 de Novembro 2013.  É o nosso desafio para chegar ao resultado de uma publicação em papel (possível devido a uma campanha bem sucedida de crowdfunding). O email de envio é o info@buala.

Não morremos porque estamos doentes, mas porque estamos vivos.
Michel Montaigne (1533 – 1592)

Santiago Sierra, 133 personas remuneradas para ser teñidas de rubio (133 persons paid to have their hair dyed blonde), 2001. Installation view, Venice Biennale. Courtesy of Galerie Peter Kilchmann, Zurich.Santiago Sierra, 133 personas remuneradas para ser teñidas de rubio (133 persons paid to have their hair dyed blonde), 2001. Installation view, Venice Biennale. Courtesy of Galerie Peter Kilchmann, Zurich.

Não morremos porque estamos doentes, mas porque estamos vivos.

Michel Montaigne (1533 – 1592)

A vida e a morte são compreendidas em relação a determinado contexto, a um determinado marco. Independentemente deste, continuam a ter lugar, e esse facto põe em questão o próprio marco e o campo ontológico que definem o seu estatuto.

De acordo com Judith Butler, em Frames of War: When Is Life Grievable?, a figura humana pode ser apreendida como VIVA mas não ser reconhecida como VIDA. Assim, a questão da VIDA em abstracto, ou melhor, do VIVO, responde a posições próximas do humanismo e do individualismo liberal. Estas questões remetem-nos diretamente para a chamado do CORPO E PRECARIEDADE, que denunciava a existência de certas normas que estabelecem um reconhecimento diferenciador, razão para algumas vidas serem choradas (em formas de luto e de dor publicamente aceites) e outras não, separação que se inscreve na concepção do que é normativamente humano.

Para Michel Foucault, “o homem moderno é o animal, em cuja política, a sua vida de ser vivo está em questão”. Na mesma linha, Butler refere que não podemos ficar ancorados a debates sobre o que se considera ou não um indivíduo vivo. Podemos antes experimentar outra abordagem: perguntarmo-nos sobre as condições que tornam a vida possível.

Como sustenta Foucault, em História da sexualidade I: A vontade de saber, o poder caracteriza-se não tanto por matar, mas pela administração da vida. As formas de controlo da vida atuam fundamentalmente sobre o corpo. E acrescenta em Il faut défendre la société que, a partir dos finais do séc. XVIII, há um distanciamento progressivo da morte e da sua ritualização pública, e que, desde que as tecnologias do poder intervêm afincadamente na vida, a morte passa a ser entendida como (fim da vida) fim do poder.

Santiago Sierra, NO-Global-Tour, film, 120 min.Santiago Sierra, NO-Global-Tour, film, 120 min.

A partir do século XIX, o poder organiza-se mais em torno da gestão da vida do que na ameaça da vida, sendo o sexo (e a sexualidade), o seu prioritário objectivo de controlo. Curiosamente, como analisa Foucault, a temática do sangue reaparece e sustenta este poder político que se exercerá sobre a sexualidade. O racismo forma-se neste contexto. Não é um fenómeno anormal dentro da sociedade, mas antes o fundamento do Estado moderno, ao assegurar o poder homicida do Estado, uma vez que funciona na base do biopoder. O racismo, que se baseia na eliminação do perigo biológico, funciona não só a nível étnico como, numa lógica evolucionista, inclui os doentes mentais, os criminosos, os adversários políticos, etc. (os exemplos remontam a 1907, desde a aprovação da lei nos EUA que permitia a prática da eugenia, e continuam até à década de 70 noutros países como Suíça, Áustria, Suécia ou Noruega, onde constatamos esterilizações forçadas)1 Portanto, há que pensar também como o poder pretende regenerar a própria raça.2

Queremos acrescentar que, embora Foucault tenha salientado o desenvolvimento inicial do racismo como genocídio colonizador, não considerou a questão colonial constitutiva da modernidade e, por consequência, do biopoder e da governabilidade, como destacam Said, Bhabha, Spivak, Mbembe ou Chatterjee. Ainda que isto não invalide a sua tese, é necessário relê-la numa perspectiva comparatista com estes autores. 

Santiago Sierra, 8 Foot Line Tattooed on Six Renumerated People Espacio Aglutinador Havana, 1999.Santiago Sierra, 8 Foot Line Tattooed on Six Renumerated People Espacio Aglutinador Havana, 1999.

Recapitulando, o biológico e o histórico aliam-se em torno de tecnologias modernas de poder que intervêm e invadem a vida. E há uma crescente proliferação de tecnologias políticas: a saúde, as formas de alimentação e de habitação, as condições de vida, o espaço total da existência. É sabido que a existência, a conduta, o corpo, são crescentemente medicalizados3, e cada vez encontramos menos dimensões da vida fora deste controlo. Na sociedade capitalista, prioriza-se o somático: o corpo é uma realidade biopolítica, a medicina uma estratégia biopolítica.

A vida parece ter como finalidade a reprodução da realidade com destinos diferentes para cada um, mas não passa, afinal, de um ato privado cuja intenção e objectivo é produzir uma vida privada. Como assinala o filósofo catalão Santiago López Petit, o “capitalismo atual coloca a vida a trabalhar”, subsumindo por completo a subjetividade: afectos, emoções, sentimentos, desejos. Claro que isto não significa que o sujeito esteja determinado ou sentenciado. 

Michel de Certau insiste, em A Invenção do Quotidiano, que a sociedade não se reduz à quadrícula da vigilância e torna-se, portanto, urgente enunciar os procedimentos, os modos e as artes que jogam com os mecanismos da disciplina, por muito minúsculos que possam parecer-nos. É necessário resgatar este material que nos serve para reinventar o quotidiano, capaz de nos afastar das imagens fatalistas que impõem a impossibilidade de mudança ou de transformação. 

Santiago Sierra, Person remunerated for a period of 360 consecutive hours, 2000. Installation view, P.S.1 Contemporary Art Center, New York. Courtesy of Lisson Gallery, Lisson.Santiago Sierra, Person remunerated for a period of 360 consecutive hours, 2000. Installation view, P.S.1 Contemporary Art Center, New York. Courtesy of Lisson Gallery, Lisson.

Santiago Sierra, Trabajadores que no pueden ser pagados rumenerados para permanecer en el interior de cajas carton (Workers who cannot be paid, remunerated to remain inside cardboard boxes), 2000. Courtesy of Lisson Gallery, London.Santiago Sierra, Trabajadores que no pueden ser pagados rumenerados para permanecer en el interior de cajas carton (Workers who cannot be paid, remunerated to remain inside cardboard boxes), 2000. Courtesy of Lisson Gallery, London.

No entanto, Santiago López Petit adianta uma posição mais radical e propõe-nos romper o medo perante a não conservação da vida (ou seja, ganhar ódio a uma vida integralmente intervencionada). Isto é, romper com este medo permitir-nos-ia decidir o que queremos e o que não queremos viver, sendo este o caminho que nos resta para subverter a nossa condição de sujeitos precários. “E se a vida é hoje um autêntico campo de batalha”, conclui López Petit, as perguntas sobre o sentido da vida – como dispor do nosso mal-estar? O que significa fazer do “querer viver” um desafio?… são perguntas diretamente políticas. Há que inventar um ódio à vida que nos liberte do medo”.4 Não se trata de matarmo-nos, nem destruir-nos, mas antes de não morrer numa vida que conserva todas as misérias.

As questões da vida e da morte são políticas. Não podemos por isso encarar a vida num sentido neutro, esvaziada de conteúdo existencial. No entanto, isto não exclui qualquer outro enquadramento, aproximação ou estudo sobre a vida e a morte.

 

Ler as outras chamadas: 

Corpo – Imagens e Geografias 

Corpo e Precariedade 

  • 1. Não podemos deixar de mencionar o recente caso, em Portugal, de Liliana Neto que, por sentença judicial, devido a dificuldades económicas, lhe foram retirados sete dos dez filhos, depois de se ter recusado a uma imposição de esterilização.
  • 2. Merece especial atenção a atual proposta do Ministério de Saúde Espanhol para aplicação restritiva do Real Decreto de 2006, do direito à procriação medicamente assistida pública, sendo excluídas mulheres sem companheiro e lésbicas, reservando esta apenas para “casais constituídos por um homem e uma mulher”. Análoga legislação em Portugal.
  • 3. “O controlo da sociedade sobre os indivíduos não se opera simplesmente pela consciência ou pela ideologia, exerce-se antes no corpo, com o corpo”, em História da Medicalização, conferência ditada por Foucault no Curso de Medicina Social, Centro Biomédico da Universidade Estatal de Rio de Janeiro, em 1974.
  • 4. “Conversación entre López Petit y Sandro Mezzadra: De qué está hecha una vida política?” na Universidad Internacional de Andalucía – Arte y Pensamiento.

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