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A representação poética da mulher no contexto pós-colonial moçambicano

Após a independência a exaltação do corpo da mulher, representada através de metáforas terrestres, constitui uma tentativa por parte de muitos poetas moçambicanos de se reapropriarem poética e concretamente da própria terra; como afirma Rita Chaves “esta fusão da mulher com a terra foi um dos postulados da poesia africana empenhada na construção da identidade nacional”1.

Fotografia de Giulia SpinuzzaFotografia de Giulia Spinuzza

Por exemplo em O País de Mim (1989), de Eduardo White, uns dos fundadores da revista Charrua, o próprio país é redescoberto ao longo de uma viagem erótica através do corpo da mulher: “MULHER! […] colina,/ lagoa profunda, garça sobre a duna”. É por meio desta representação geo-corpórea que o sujeito se pode reapropriar, também eroticamente, da terra-mulher: “desbravar-te as colinas/ com as mãos repletas de desejo […] e a carne endurecida/ à beira da falésia”2.

Podemos então dizer que na poesia da pós-independência a mulher é uma representação metafórica de Moçambique, tal como escreve White: “Teu corpo é o país dos sabores,/ da súplica e do gozo”3; o corpo da mulher transfigura-se num jardim edénico de onde o poeta vai buscar os melhores frutos.

Assim sendo será que, ao identificar a mulher com a terra através do topos da Mãe-África, não estará o discurso masculino a atribuir à mulher um papel passivo na construção da nação? O que nos interessa evidenciar são as implicações da utilização do corpo da mulher enquanto alegoria da nação na poesia moçambicana da pós-independência. 

Ao analisar o tropo da Mãe-África, Florence Stratton reflecte sobre a questão do género: segundo a autora, a partir do modelo de Senghór a mulher foi representada como the heritage of Africa values, an unchanging African essence4; a mulher torna-se então um modelo estático, imutável e a-histórico. A Negritude que segue o modelo de Senghór, opondo-se à representação criada pelo colonizador, substitui a imagem negativa, selvagem e aterradora da mulher por uma outra positiva, quente, sensual, procriadora e nutridora: a encarnação de África através do corpo da mulher.

O risco, ainda de acordo com a autora, é que este tipo de tropo justifique a perpetuação de uma situação convencionalmente patriarcal, no sentido de reafirmar a relação de subordinação e de exploração da sexualidade feminina numa sociedade onde é o sujeito-homem a produzir criativamente uma visão político-social, baseando-se na mulher (representada ou eroticamente ou como mãe fecunda).

Escultura de Malenga, fotografia de Àlex Tarradellas Gordo.Escultura de Malenga, fotografia de Àlex Tarradellas Gordo.Escultura de Malenga, fotografia de Àlex Tarradellas Gordo.Escultura de Malenga, fotografia de Àlex Tarradellas Gordo.

O corpo da mulher associado à paisagem, de onde deriva o tropo da Mãe-África, relegaria a mulher para a esfera da natureza e representaria desta forma uma tentativa de inclusão da mulher num contexto a-histórico, excluindo-a do processo de construção narrativa da nação. Mas a identificação da mulher com a Mãe-África não se vincula exclusivamente a um contexto a-histórico. De facto, a autora determina duas linhas principais ligadas à representação da mulher como Mãe-África: uma que segue o modelo de Senghór onde, como vimos anteriormente, a mulher representa a essência africana imutável, e outra mais crítica, denominada the sweep of history strand5, em que a mulher reflecte o estado da nação. Neste último modelo a mulher torna-se então um índex que determina o (mal)-estar da nação pós-colonial.

A crítica relativa a este tropo na literatura fundamenta-se, segundo Stratton, com base no facto de que “the trope elaborates a gendered theory of nationhood and of writing, one that exclude women from the creative production of the national polity or identity and of literary texts”6; ou seja, a mulher só contribui enquanto objecto para a concretização da visão do homem, sujeito-activo nacional, que possui a mulher, objecto-nação passivo.

A reapropriação de um corpo-terra identificado com a Mãe-África opõe-se à penetração territorial do corpo-espaço nacional por parte do poder colonial; mas, desta forma, a união masculina dos novos sujeitos nacionais verifica-se através do corpo feminino. Nesse sentido, Hilary Owen, autora do estudo Mother Africa, Father Marx, chega à conclusão de que o colonialismo-anticolonialismo se estrutura de uma forma maniqueísta, que não prevê a existência de um terceiro espaço: o feminino.7

A autora, que estuda a literatura moçambicana do ponto de vista da questão do género, nota que o corpo da mulher se transforma simplesmente de um objecto fetiche colonial em depositária da essência africana, representada pela imagem da terra-mãe. Desta forma a imagem da mulher configura-se por uma lado por uma acção regenerativa e socialista, a Cerere comunista, e por outro como Mãe-África, terra escrava que tem que ser libertada8. Assim, segundo Owen, combinaram-se o marxismo e o nacionalismo africano através do corpo feminino.

Será então que a poesia de White se enquadra nesta perspectiva crítica? Segundo a nossa opinião só parcialmente, porque na poética de White a mulher é representada quer através de elementos terrestres quer aquáticos: por exemplo no livro Amar sobre o Índico (1984) é no Oceano, longe da terra violada pela guerra civil, que há uma união erótica entre o ser masculino e feminino. Em O País de Mim é este o retrato da mulher que o poeta traça: “És o Índico numa tarde quente de Janeiro, […] e beijas a precisa boca dos pássaros/ a lenta maturação dos moluscos/ sob a costa,/ teu corpo é de água,/ pura/ e de vagas e de espuma”9. A imagem da mulher associada à água retoma figuras importantes de deusas das águas, como por exemplo Kianda, Nzuzu ou Iemanjá. O Índico-mulher revela-se um espaço aberto, lugar de erotismo, de liberdade e de partilha com outras culturas e povos, que reequilibra a ideia de apropriação-penetração-expansão, representada pelo corpo da mulher-terra como Mãe-África.

Fotografia de Giulia SpinuzzaFotografia de Giulia Spinuzza

Se Hilary Owen chega à conclusão de que a representação da mulher enquanto Mãe-África pode alimentar uma teoria da nacionalidade com base no género10, onde o homem é o sujeito activo e a mulher o passivo, podemos dizer que na poesia de White esta imagem se torna mais complexa na medida em que a mulher vai para além dos confins do território moçambicano e envolve os elementos cósmicos. Ela torna-se metáfora de um espaço cultural mais amplo e com fronteiras líquidas, o do Oceano Índico. 

Assim, ao representar a mulher como encontro de culturas diversificadas que partilham o mesmo território, sugere-se a possibilidade da existência de uma “pátria aquática” situada no Índico, ou de uma “interregional arena”, como a define Sugata Bose. Em suma, é nesse sentido que é possível superar, pelo menos parcialmente, a imagem da Mãe-África, atribuindo à mulher este duplo estatuto que transcende a ideia de Estado-Nação. A água e a terra, que definem a mulher, são elementos que fazem parte deste percurso de identificação de um princípio cósmico estável e ideal.

A mulher é este espaço de cruzamentos, onde culturas orientais e africanas  se encontram no lugar limite entre o mar e a terra. O poeta busca então a amada a partir da Ilha de Moçambique, um microcosmo edénico moçambicano, mas também metonímia de um país feito de diferenças. É em Os Materiais do amor (1996) que a mulher da Ilha se torna numa entidade mitológica, cosmogónica e eterna; o útero da existência, a “redonda residência do mundo”WHITE 1996: 31., imutável mas também histórica ao mesmo tempo, porque identificada com a viagem, em sentido temporal e geográfico. Desta forma o passado da escravidão é recuperado e relembrado a partir da beleza sensual das mulheres da Ilha:

Tu que adormeces as órbitas, a forma primaveril e tolerante do amor, tu que és onde as estrelas são lentas, […] o centro constelar da minha própria casa, tu que és uma mulher e explodes pela beleza de ser isso, o cristal iluminado de algum rosto swahili, tu a quem a fundo gravita o açúcar nas furnas da pele, tu que és uma lua e um relâmpago e o corpo arrancado de alguns versos calados, […]. Em tudo abita a tua imagem, o m’siro purificado da tua beleza e das tuas sedes, a rosa dos ventos, o sextante dos tempos, em tudo acordas de repente como se ardesses naus, garças, águas, ouro, pratas, vagas, escravos ausentes […]11.

A mulher permite repensar o passado e imaginar um novo futuro e se por um lado é a Mãe-África, com todas as implicações relativas às questões de género que abordámos, por outro é também representação do Índico, “terra” mátria onde confluem culturas diferentes. É neste lugar não apenas territorial, histórico ou geográfico, mas também cosmogónico, que a concepção de um novo espaço “nacional” pode ser questionada.

 

BIBLIOGRAFIA

WHITE, Eduardo (1984) Amar sobre o Índico, Maputo, Aemo.

____________ (1989), O País de Mim, Maputo, Aemo.

____________ (1996), Os Matérias do Amor seguido de O Desafio à Tristeza, Lisboa, Caminho.

Chaves, Rita (2000), “Eduardo White: o sal da rebeldia sob ventos do Oriente na poesia moçambicana”, In África e Brasil: Letras em Laços, Rio de Janeiro, Atlântica, 133-155.

Falconi, Jessica (2008), Utopia e conflittualità. Ilha de Moçambique nella poesia mozambicana contemporanea, Roma, Aracne. 

Owen, Hilary (2007), Mother Africa, Father Marx, Lewisburg, Bucknell University.

Stratton, Florence (1994), Contemporary African Literature and the politics of gender, London, Routledge.

  • 1. CHAVES 2000: 140.
  • 2. WHITE 1989: 16-18.
  • 3. Idem: 24.
  • 4. STRATTON 1994: 41.
  • 5. Ibidem.
  • 6. STRATTON 1994: 51.
  • 7. OWEN 2007: 56.
  • 8. Idem: 60.
  • 9. WHITE 1989: 27.
  • 10. OWEN 2007: 51.
  • 11. Idem: 15-32.

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