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Desastres naturais | Shere Hite (1942-2020)

“Nunca se perguntou às mulheres como se sentem em relação ao sexo”. Na frase de abertura, um programa revolucionário. E a sua autora, falecida em Londres no passado dia 9 de Setembro, bem merece ficar para a posteridade como “a grande perguntadora”, já que o que de mais bombástico existiu no Relatório Hite não foram as conclusões alcançadas – para muitos, pouco científicas e bastante questionáveis –, mas o facto de, pela primeira vez, alguém ter resolvido interrogar as mulheres sobre o modo como viviam a sua sexualidade, coisa que, pelos vistos, nunca merecera a atenção dos homens, na academia, na política, nem mesmo na cama.

Shere HiteShere Hite

Nascida em 2 de Novembro de 1942 com o nome Shirley Diana Gregory, Shere Hite viu a luz do dia em St. Joseph, estado do Missouri, uma cidade ultraconservadora que, no passado, fora ponto de partida do lendário Pony Express, local de falecimento do gangster Jesse James e, mais recentemente, terra natal do cantor Eminem. Fruto de uma gravidez adolescente, criada pelos avós e por uma tia, Shere adoptou o apelido do padrasto, Raymond White, camionista de profissão, pouco antes de concluir os estudos secundários na Seabreeze High School de Daytona Beach, Flórida, após o que se matriculou na universidade desse estado, onde se licenciou e obteve o mestrado em História. Em 1967, inscreveu-se na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, para fazer o doutoramento em História social, que não chegou a terminar porque, segundo dirá mais tarde, o ambiente aí reinante era demasiado retrógrado para as suas investigações arrojadas.

Para ajudar a pagar os estudos, fez trabalhos como modelo e chegou a posar nua para a Playboy. Reza a história que foi então que teve a sua epifania feminista: num anúncio para as máquinas de escrever Olivetti, em que surgia vestida como uma secretária diligente e sexy, um publicitário desastrado resolveu introduzir uma piada misógina – “A máquina de escrever já é tão inteligente, que ela [Shere, a secretária sexy] nem precisa de o ser.” Ao que parece, a própria Hite, que já na altura frequentava os círculos feministas de Nova Iorque, participou nas ruidosas manifestações de protesto que se realizaram à porta da empresa.

O seu interesse pelo orgasmo feminino e pela compreensão da sua própria sexualidade levou-a a conceber um questionário em larga escala a que responderam 3.019 mulheres americanas de diferentes estractos socais e de idades compreendidas entre os 14 e os 78 anos, às quais foram colocadas perguntas que iam da masturbação ao orgasmo, passando pelo coito, pela estimulação clitoriana ou pelo lesbianismo. Nesse inquérito, levado a cabo entre 1972 e 1974, colaboraram diversas organizações de defesa dos direitos das mulheres, como a National Organization for Women, além de grupos pró-aborto e revistas como The Village Voice, Mademoiselle, Brides, Ms e Oui, que publicaram anúncios sobre o projecto, os quais foram divulgados inclusivamente nos boletins de diversas igrejas. Os resultados contribuíram para desfazer mitos arcaicos sobre a sexualidade feminina, mostrando, por exemplo, que a estimulação clitoriana era muito mais importante para atingir o orgasmo do que a penetração vaginal (apenas 30 % das mulheres disseram alcançar o clímax através do coito), algo que, impõe-se dizê-lo, não era uma novidade absoluta e já tinha sido dito, por exemplo, no livro The Myth of the Vaginal Orgasm, que a feminista radical Anne Koedt publicara em 1970. Mas, para muitos milhões de mulheres em todo o mundo, o mais importante foi terem percebido que não estavam sozinhas no modo, ou modos, como experienciavam a sexualidade.

Depois da revolução operada pela pílula do dr. Pincus, que ao dissociar o sexo da reprodução libertou as mulheres do fardo das gravidezes indesejadas ou acidentais, o livro de Shere Hite, saído em 1976, introduziu uma nova e radical transformação da intimidade feminina (e masculina), bem mais profunda e perene do que os excessos hippies dos anos 60 precisamente porque não trouxe o excesso nem enalteceu o desvio, mas, muito pelo contrário, evidenciou a normalidade, mostrando que não era anómalo nem motivo de vergonha preferir esta ou aquela via de alcançar o prazer, sendo inadmissível que existissem prescrições convencionais – e patriarcais – sobre a melhor forma de as mulheres chegarem ao orgasmo e, pior ainda, de o simularem para satisfação dos parceiros. 

A pílula democratizou o sexo, Hite aboliu a culpa. Com mais de 48 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, a importância histórica do Relatório Hite dificilmente pode ser sobrevalorizada. A controvérsia que gerou nos mais diversos quadrantes acaba por comprová-lo: se a direita cristã conservadora então em ascensão na América viu no livro de Shere Hite um panfleto contra os valores da família tradicional, a Playboy acusou-a de querer instaurar uma guerra entre sexos e de promover o ódio aos homens e, com certa graça, chamou ao livro “The Hate Report”. Outros disseram que Shere não passava de uma mulher sedenta de protagonismo fácil e que até deveria mudar o nome para “Sheer Hype” (“pura fama”, numa tradução possível).

Tornada a primeira sexóloga de renome mundial (Alfred Kinsey era homem, Masters e Johnson eram um casal), Shere Hite não se deixou abalar pelas críticas académicas que sustentavam que a sua amostragem não era representativa, que a metodologia que usara não tinha fiabilidade científica e, logo, que os resultados da sua pesquisa não eram credíveis. Em 1981, voltou à carga com volumoso relatório de mais de mil páginas sobre a sexualidade masculina, baseado num inquérito a 7.239 homens, no qual se concluía, que, à semelhança das mulheres, o sexo masculino tem mais prazer através da masturbação do que por meio do coito, que muitos homens vivem a sexualidade de uma forma opressiva e sufocante, pressionados pela necessidade de exibirem erecções e ejaculações e que, enfim, as infidelidades e a raiva são parte integrante e assaz comum das cenas da vida conjugal. O livro, no entanto, não teve o impacto do anterior.

 Em 1987, Shere Hite completou a trilogia com Woman in Love: A Cultural Revolution in Progress, em que, uma vez mais, recorreu à técnica do questionário nos moldes por si definidos (por exemplo, às respostas de escolha múltipla, consideradas mais objectivas, preferiu sempre os testemunhos prestados sob forma narrativa). As 4.500 entrevistas que conduziu levaram-na a conclusões polémicas, como a de que, para as mulheres, as relações com os homens estavam a ser uma fonte de “crescente frustração emocional e desilusão gradual”. Em meados dos anos 1980, a novidade do método e a iconoclastia das teses de Hite tinham perdido grande parte do fulgor original e ela parecia aprisionada à fama do primeiro e inultrapassável livro. A Time considerou Woman in Love um “ataque gratuito aos homens” e Shere começou a receber centenas de cartas e telefonemas anónimos com insultos violentos e até ameaças de morte. A campanha foi tão intensa que um grupo de doze destacadas feministas, entre as quais Gloria Steinem e Barbara Ehrenreich, acabou por vir em seu socorro, afirmando que a virulência dos media contra ela não só veiculava a agenda conservadora dominante na época como constituía um ataque não a uma mulher isolada, mas a todas as mulheres do planeta.

Desiludida com o seu país, Shere Hite entregou o passaporte norte-americano às autoridades, abandonou os Estados Unidos e fixou-se na Europa, onde considerava que as suas ideias seriam aceites mais pacificamente e com mais tolerância. Quatro anos antes, casara com Friedrich Höricke, um pianista alemão 19 anos mais novo do que ela, e o casal foi viver para a Alemanha em 1989. Shere, cuja família tinha ascendência germânica, adquiriu a nacionalidade alemã em 1995. Divorciou-se em 1999, voltou a casar com o inglês Paul Sullivan e fixou-se numa moradia situada a norte de Londres, onde escreveu as suas memórias, The Hite Report on Hite: A Sexual and Political Autobiography, de 2000, uma tenttaiva de resposta às acerbas críticas que lhe foram feitas durante décadas. Morreu em casa no passado dia 9 de Setembro, aos 77 anos, em resultado de uma conjugação letal de Alzheimer e de Parkinson. Foi o marido que comunicou à imprensa o seu falecimento.  

Artigo publicado originalmente por Expresso em 26/9/2020.

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