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Maternidade, Mãe, e o Monstro do Lago Mess

Quando comecei a ler o livro da Júlia, Quotidiano de Luxo, fiz uma comparação, que poderia ser inevitável mas que, bom, aconteceu assim para mim, com o seu livro anterior, Gravidez (não sei se é o imediatamente antes mas é anterior). Quotidiano de Luxo é assim uma espécie de a continuacion do Gravidez: é o passo seguinte da vida com uma criança, para uma criança, entre nós, onde tudo se rearraja e nasce de novo.

Num primeiro momento, pensei num filme que vi recentemente de uma pessoa de quem gosto bastante: o filme é o De nuevo otra vez, da Romina Paula, uma autora argentina que ecoou em mim, por ser argentina, claro (a Júlia vive em Buenos Aires faz algum tempo), e porque o seu filme fala da reorganização da sua vida não apenas depois do seu filho nascer, mas também depois de se separar do seu marido. O que vemos é também um Quotidiano de Luxo – e de crise: crise no sentido de ruptura na/da normalidade, um sentimento de fragilidade e alguma insegurança (E agora?) enquanto a personagem de Romina vai sentindo devagarinho o chão debaixo dos pés na construção deste novo caminho, que não conhece e, através do qual, ainda não se conhece.

Porém, à medida que ia avançando no livro da Júlia (e para ser justa, deve ter acontecido tipo na página 2 ou 3), percebi que essa fragilidade da Romina, que talvez até poderia estar presente um pouco no Gravidez, estava muito ausente aqui neste livro. Pelo contrário: o que via, e também lia, era uma mulher muito segura e confiante, uma espécie de herói (ou anti-herói, como fala a Marta Lança no seu posfácio) juggling e hustling nesta sua nova realidade onde quer ir a todas. E aí bateu-me: além daquele primeiro feeling de Rei dos Gazeteiros que a Júlia manda (porque é um Exuzinho, mischivious e de bom coração), quem ela parecia realmente era o Bruce Willis no Die Hard, o John McClane, sempre em luta e on the go.

Há algum tempo atrás, e a propósito da peça de teatro do Cão Solteiro ft. André Godinho, We’re gonna be alright, a Maria Sequeira Mendes escrevia na folha de sala sobre o conceito de “zaniness”; diz ela que “Sianne Ngai, em Our A esthetic Categories, define a ideia de que “zaniness” é uma categoria estética, na qual os performers zany “se encontram constantemente em acção e em fuga de situações precárias, que surgem por exemplo na forma de mísseis”. A experiência do zany é a assim a de ter de sobreviver ou evitar carros que voam na sua direcção, a de desmontar bombas, de lutar contra o inimigo, o que leva a que “zaniness seja essencialmente a experiência de um agente confrontado com – e colocado em perigo por – demasiadas coisas que surgem contra si ao mesmo tempo” (183), por isso “a experiência de zaniness é de bombardeamento físico”, que se contrapõe ao sentido de segurança do espectador.”

Ao ler o livro da Júlia, não me parece que exista assim esse sentido de segurança do leitor, no sentido em que a forma como escreve – e como desenha -, que é uma espécie de stream of conscioussnessness nervoso, deixa a pessoa inquieta. Como ela própria se descreve, “toda neurótica”, faz dela uma espécie de Monstro do Lago Mess, no sentido em que ela é a rainha – e o Monstro – de toda aquela bagunça. Há uma empatia que se estabelece, ou que eu estabeleci, por tudo e com tudo o que está a passar, mas depois há também um twist, que é aquela maneira tão peculiar de ver o mundo. Uma pessoa que eu apreciava bastante e que morreu há pouco tempo (Fernanda Young) dizia, “ser inocente, a partir de uma certa idade, pega mal”. Ou a Júlia ainda não chegou a essa idade, ou está- se um pouco nas tintas para o que “pega mal”. De qualquer forma, fica claro que a maneira como encara o seu quotidiano é de facto uma piscada de olho constante ao duplo sentido da expressão “quotidiano de luxo”: por um lado, é um luxo poder partilhar experimentar viver etc assim as nossas vidas com um filho; por outro lado, qualquer coisa que caiba no domínio estritamente individual, se existe algo como estritamente individual, no sentido de tarefas/concretizações além-filho, é um luxo: porque o tempo é escasso.

Ainda voltando à parceria Júlia Barata/John McClane, há uma coisa que parece distingui-los: a calma do McClane, entre o caos, parece contrastar com a tal bagunça da Júlia. Isso poderá talvez ter que ver com a questão das crises de que falava atrás: vemos o John McClane a tratar de um momento – um – claramente de crise; como nos rituais de passagem do Turner, há a situação original – a crise – o regresso à normalidade, já com a(s) mudança(s) incorporada(s). Mas o que acontece se a crise é a normalidade, se o dia-a-dia não é aquela coisa arrumadinha que alguns filmes mostram, sobretudo os de Hollywood que tanto apreciam assentar nesta ideia, como no Die Hard, do indivíduo sozinho contra tudo?

Havia aqui no meio uma pergunta, que tinha que ver então com a ideia do que é o quotidiano. Katherine Stewart, no seu livro Ordinary Affects, considera que “o comum é um conjunto de práticas em mudança, uma cena ao mesmo tempo de actividade e exaustão, um sonho de escapar ou de uma vida simples”. Nesse sentido, “os afectos comuns são variados, e têm uma capacidade de afectar e de serem afectados que dão ao quotidiano a qualidade de relações, cenas, contingências e emergências contínuas em andamento. São coisas que acontecem. Acontecem em impulsos, sensações, expectativas, sonhos, encontros, e hábitos de relação, em estratégias e nos seus falhanços, em formas de persuasão, contagion e compulsão. Os afectos comuns podem ser divertidos, perturbadores, ou traumáticos.”

Esta ideia de que o quotidiano é esta cadência de relações que acontecem continuamente, que implica por sua vez uma ideia de cruzamento de mundos e de entrosamentos afectivos, surgiu também durante a leitura deste livro: aquela ideia de que it takes a village. Não sendo uma questão abordada directamente pela Júlia, sobretudo porque está em outro país por isso “naturalmente” sem a sua rede, acho que é importante falar desta ideia de simpoiésis da Donna Haraway, de making-with, fazer com, e esta ideia de que nunca estamos sozinhos, de que fazemos com, e de que os nossos sentimentos são estes entanglements, emaranhados de situações com os outros mas também com nós mesmos, na medida em que são muitas coisas ao mesmo tempo. É vagamente recente esta ideia de que as crianças são pessoas e não projectos de pessoas, e isso criou uma série de ansiedades nesta nova leva de pais que quer providenciar tudo o que é suposto aos seus filhos sem deixar de ser indivíduo mas que, com este modelo de família nuclear, parece um pouco difícil.

É à luz destas qualidades que talvez possamos entender melhor os vários estados, às vezes alternados, às vezes simultâneos, pelos quais passa a Júlia do livro, esta montanha-russa ou esquizofrenia que liga tudo a tudo sem fazer pausas e quase sempre sem respirar. É assim que percebemos quando o seu filhinho lhe diz que ela talvez precise de mais anarquia (porque tem muitas regras), que seja apaixonada pelo seu companheiro mas que não hesitaria em extingui-lo, se fosse preciso escolher entre ele e o filho de ambos, em como escolhe não fumar, mas depois coiso porque, e quando damos por ela está a sair do carro no meio do trânsito para cravar um cigarro a um desconhecido, ou de como vacila entre ir a uma festa ou não “porque está toda neurótica” – são estas neuroses, aliás, que se tornaram um pouco a imagem de marca das mães recentemente: mães que são mães mas que, mais ou menos abertamente, sentem ou podem sentir, como a Júlia, que não querem ser mães o tempo todo. Ao tornarem-se marcas, as mães, ou uma ideia de mães, também se torna mercadoria, e há uma certa ideia de quotidiano – e de mãe – que é vendida. Se, como diz Emanuele Coccia no seu livro The Transitory Museum, “a marca é o que permite a um objecto tornar-se mercadoria”, conseguimos compreender melhor todos os objectos, desde os objectos físicos até aos virtuais, instagram e facebook feeds, os likes das redes sociais, como também fala Júlia, que vendem esta neurose materna como marca, e que deixa demasiado peso em cima da figura da mulher, de quem depende exclusivamente alinhar ou não nestes quotidianos: toda a acção, como nos filmes de Hollywood, assenta no herói, o que iliba o sistema, que nunca é colocado em causa – o sistema nunca falha, quem falha são as pessoas. (O sistema é forte, as pessoas são fracas).

Num artigo chamado “Happy Objects”, Sara Ahmed fala da figura da feminist kill-joy, que compara à figura da angry black woman. Colocando por um momento de parte toda a problematização que isto traz consigo, gostaria de me focar na ideia que Ahmed avança de que “a feminista é um alien do afecto: ela pode até tirar o gozo porque se recusa a partilhar uma orientação em direcção a certas coisas consideradas boas porque não acha os objectos que prometem felicidade assim tão promissores.” Na verdade, reconheço essa feminista tira-gozo nas páginas do livro da Júlia, no sentido em que me parece que não procura felicidade nos objectos normalmente associados à ideia de felicidade (ou na forma como esses “objectos”, ou a ideia desses objectos, como a família, se organizam); mas há qualquer coisa na Júlia que contradiz esta ideia: gozo parece ser o seu impulso de andamento. “Tirar-gozo” parece fora do seu léxico, semântico e emocional.

Uma das coisas que achei mais belas no livro da Júlia, além do uso do encarnado e de recuperar a palavra “porro”, é a sua capacidade de partilha íntima. Da confusão dos seus pensamentos, mas também da sua clareza. Há uma passagem que ilustra bem isto: quando no encontro da família do companheiro, alguém pergunta se querem whisky, ela quer imenso, mas não tem coragem de dizer, e vai lavar a loiça, mas depois não aguenta e larga a loiça e pede um whisky. E ao contrário do que parecia que ia acontecer (ou do que eu pensava que iria acontecer, pela cadência dos quadrinhos), ninguém fica surpreendido, e todos ficam felizes por vê-la assumir, lá está, os seus gozos. Acho que a Júlia já chegou à idade em que ser inocente poderia pegar mal, mas como ela é punk e passa a vida a chutar o balde, acho que realmente não tem isso na cabeça. O que fica do que passa, como na peça do Filipe Pereira&Teresa Silva, é que a Júlia é uma arquitecta e que, de vez em quando, como na obra que está a supervisionar, o lintel vai caiir e está-se bem com isso. E como sei que ela gosta de whisky, trouxe aqui um gole para ela. Viva a Júlia.

 

PS – A autora ressalva que o texto foi escrito para ser falado/dito na apresentação do livro na Tigre de Papel em Lisboa.

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