Website on global south and decolonial issues.

O terceiro género – Muxes de Juchitán, México

Não são mulheres nem  homens. Não são heterossexuais, bissexuais, nem gays. Rompem identidades a preto e branco e assumem-se em tonalidade maquilhada. São os muxes de Juchitán. Sexualidade cruzada no México tropical.

 

Em Juchitán, o corpo não é prisão. Na pequena cidade do estado mexicano de Oaxaca, a ancestralidade zapoteca dita outras regras. Uma bússola diferente em que os pontos cardinais se fundem em macho e fêmea, homem e mulher, masculino e feminino, pénis e vagina. Orientações sobrepostas.

É nesta rotação de ponteiro sem necessidade de norte magnético, que giram os muxes. São o terceiro género de Juchitán. Caminham lado a lado com “os outros” – homens e mulheres – que os aceitam como são: machos biológicos que assumem uma sexualidade aparentemente ambígua. Não trazem rótulos bipolarizados estampados na testa, são “outra coisa” e não são menos por isso. “A mulher está aqui, o homem está ali, e o muxe está in between. Não tenho razões para querer ser mulher (…) Sinto-me bem no meio, esse é o meu espaço. Posso entrar onde as mulheres não podem e onde os homens não podem.”  Testemunho de Felina,  muxe de Juchitán, à jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho, no livro Viva México.


Neste gigantesco caldeirão de sincretismos que é o México, os muxes são apenas mais um elemento. O istmo de Tehuantepec, onde se finca Juchitán, é da etnia zapoteca. Língua, roupas, formas de estar que resistiram à invasão espanhola e à formação do México moderno. Os muxes (corruptela do espanhol “mujer”) são um traço firme mais dessa ancestralidade sobrevivente. Documentos do século XVI falam deles como parte da sociedade pré-hispânica da região.

Definida ao longo de séculos, a identidade sexual zapoteca assumiu códigos que podem confundir os forasteiros. Muitos muxes, por exemplo, são casados com mulheres e têm filhos. Nada de especial, não fosse o fato destes pais de família terem relações assumidas com outros homens. “Estados civis” alternativos, aceites e reconhecidos pela sociedade de Juchitán. No entanto, realça Mandis, um cronista de Juchitán, à revista mexicana La Jornada, “um muxe nunca anda com outro muxe, anda com homens” heterossexuais, nunca com gays. Confuso? Não perca o norte desta realidade: em Juchitán, os muxes não são homens nem mulheres, são um terceiro género.

E como género diferente, têm também as suas próprias noções de vestuário. A maior parte usa roupa de homens e apenas se pinta com pouca maquilhagem e, às vezes, calça sapatos de mulher. Mas há outros que apostam na exuberância, numa espécie de travestismo. A partir dos anos 80, conta Leonardo Aguilar na reportagem “Muxes: entre la tradición y el cambio”, os “meios de comunicação e o interesse de estrangeiros e investigadores”, fez com que alguns muxes se começassem a vestir com trajes tradicionais – toucados, joias, saias, vestidos coloridos. Curiosamente, esta imagem colorida e marcante acabou por caracterizá-los como grupo, ainda que não represente a maioria.

As mudanças continuam a gerar-se a uma velocidade alucinante, e vão muito além de simples vestimentas. Em Géneros, sexualidad y etnia vs globalización: El caso de los muxe entre los zapotecos del Istmo, Marinella Miano  e Águeda Gómez contam que muitos jovens muxes querem agora ser “completamente” mulheres. Desejo que pressupõe, em última instância, uma mudança de sexo. Este é um elemento novo, “um embrião de transexualidade desconhecido anteriormente”, notam as investigadoras.

Bruxos e bons filhos

Apesar das aparências, das teias de relações e dos hábitos sexuais, os habitantes de Juchitán não consideram os muxes bichos raros, nem mulheres-barbudas ao jeito dos circos de antigamente. Em geral, vêem-nos, sim, como quaisquer pessoas, e que jogam um papel importante na família e na comunidade.

Os muxes que não se casam, quase sempre vivem com os pais. Quando conseguem vencer resistências iniciais, sobretudo por parte dos homens da família, tornam-se uma muleta para a família. Dentro de casa, assumem tarefas normalmente atribuídas às mulheres. Cuidam das crianças, dos velhos e doentes, cozinham e limpam. Por tudo isto, são, muitas vezes, vistos pelas mães como dádivas. “É uma bênção ter um muxe na família, porque um muxe trabalha sempre (…) e cuidará dos pais até ao último dia”, realça Ulises Toledo, muxe de Juchitán entrevistado por Alexandra Lucas Coelho em Viva México.

Ofertas divinas ou não, não são poucas as histórias de muxes curandeiros e bruxos, com capacidades espirituais e paranormais. Mas o que de verdade lhes outorga respeito em Juchitán é o seu papel na preservação da cultura tradicional zapoteca, da qual eles mesmos são uma face inalienável. Frequentemente, são os dinamizadores das festas tradicionais. E uma das festas mais conhecidas da região acontece em Novembro, e celebra os muxes como grupo. A tradição começou há mais de 30 anos por iniciativa das Auténticas Intrépidas Buscadoras del Peligro, e é hoje copiada por outros clubes de muxes mais jovens. Milhares de turistas mexicanos e estrangeiros enchem Juchitán, por esses dias.

Atualmente, com o acesso a estudos superiores, estes personagens começam a ter papéis importantes a nível político. São também a cara de fortes movimentos sociais, sobretudo de luta contra a SIDA, uma realidade que os arrebatou, sobretudo depois de muitos deles se terem começado a prostituir em grandes centros urbanos do país, como a Cidade do México.

Mas este não é único desequilíbrio que ameaça esta comunidade. Em graus mais ou menos preocupantes, a homofobia começa agredir, de forma inédita, os muxes de Juchitán. Em alguns casos, com requintes de tortura e brutalidade que terminou em morte. A contra-resposta da sociedade zapoteca não se fez esperar, firme e dura. Para os habitantes do istmo, um ataque de ódio a um muxe é um ataque a toda a sua cultura e valores, explicam as investigadoras Miano e Gómez. Esta convicção, contam, criou um forte “ativismo étnico” por parte do povo zapoteco que quer preservar a todo o custo o que, desde tempos incontáveis, sempre o caracterizou – a tolerância da diversidade.

O tempo e a bússola identitária de Juchitán continuam a girar. Fundidos. Muxes como exemplo de que o que parece nem sempre é. E que o corpo não é o limite final.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, pulvinar dapibus leo.