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On Safari

Quando eu era pequena e imaginava o mundo em que um dia iria viver, sempre pensava estar numa planície de árvores, perto de um rio, ouvir a água correr, ou então viver na praia, como nos filmes americanos da televisão, a tomar o pequeno-almoço com o mar ao fundo, ou numa zona despovoada de certa forma, com muito espaço para mim e ar.  Assim protegida por uma paisagem que preservava qualquer coisa mágica, inviolável. Eu não sabia que o mundo seria este conjunto de grandes metrópoles interconectadas, com periferias peculiares e feito também de regiões desertas, resistentes. O espaço é pouco para tanta gente junta, para o consumo de energia  que este nível de vida pede, e ainda assim aqui onde vivo, numa Europa gasta pelo tempo da discórdia e do impasse, não se desiste de respirar. O corpo avança. Eu sonho com o dia em que vou viver do meu trabalho artístico, partilhando o conhecimento e interagindo numa comunidade livre e aberta em que todos possam ter voz e em que o valor do dinheiro seja substituído pelo do amor, assim simples. Um dia em que ao cinismo em que estamos afundados passem rasteiras as formas de contacto mais fáceis, toma a minha cadeira, leva, traz o projetor fulano tem um, a comida é de todos, se não dá não faz mal, é do cabo vê-se assim, toma o resto não quero mais, troca o dvd, empresta aí o livro, o outro também quer essa roupa, ok, e mesmo a casa, o carro. Emprestar, trocar, dar, receber, parecem tarefas cada vez mais árduas num mundo que as coloca permanentemente em causa para no fundo com isso fazer lucrar alguns.

Quando penso no filme que quero fazer, baseado no ensaio da antropóloga argentina Paula Sibilia O Homem Pós-Orgânico, Corpo, Subjetividade e Tecnologias Digitais, penso nessa sensação que tinha quando era criança e não existiam ipods nem playstations e eu ia brincar para a rua, da excitação que era correr e esconder-me entre os carros do jardim com outros primos e vizinhos, mas também penso no zxspectrum, no primeiro computador que chegou e no entusiasmo de um mundo virtual com bonecos combativos que faziam sonhar. Ficava mais tempo só eu e o computador, a escrever ou a cismar com possibilidades de expandir o meu mundo interior pelos circuitos electrónicos que passariam certamente a mensagem ao mundo exterior.  O problema é que esse mundo “interior” está a desaparecer. Esse referente que é o antes do corpo que, segundo o neurocientista António Damásio, é projetado na mente como um mapa de que nos servimos para produzir as nossas emoções, começa efetivamente a ser posto em causa no futuro próximo dos cyborgs, da inteligência artificial e da manipulação genética. Enquanto hoje três espécies biológicas são extintas por hora, em decorrência das intervenções tecnocientíficas na biosfera (o que nos leva a nós Homo-já-não-tão-Sapiens a questionar se a seleção ainda se encaixa na categoria de “natural” enunciada por Darwin em meados do Séc. XIX), já não sabemos que fazer de nós, que dizer de nós, se não tiver postado no facebook (essa praça pública virtual que tende a substituir cada vez mais o lugar de encontro no espaço público)… já não escrevemos “diários íntimos”, dedicamo-nos antes à fabricação virtual do nosso eu,  transformamos a intimidade em espetáculo.

É sobre estas questões que o ensaio fala, com um olhar atento e bastante crítico sobre os mecanismos de poder implicados neste processo de reconfiguração da Natureza.

A quem interessa o futuro ?

“A primeira transformação do corpus legal tendente a privatizar e comercializar a vida aconteceu no ano de 1971, quando um microbiologista da companhia General Electric solicitou a concessão de patente para uma bactéria geneticamente alterada. O Instituto de Propriedade Intelectual dos Estados Unidos negou o pedido, alegando que os seres vivos não podiam ser patenteados. Mas a firma apresentou um recurso e, em 1980, acabou ganhando o processo: a Justiça entendeu que as novas bactérias eram “mais semelhantes a composições químicas inanimadas, tais como reagentes e catalisadores, do que a cavalos, abelhas, framboesas, ou rosas.” A equiparação legal de um ser vivo a um produto químico passível de ser comercializado constituiu um importante precedente. Pouco tempo depois, em 1987, todas as formas de vida geneticamente modificadas passaram a ser patenteáveis, não importando tratar-se de bactérias, cavalos, abelhas, framboesas ou rosas. Apesar das polémicas e dos obstáculos legais­, os seres humanos e seus diversos componentes originais também foram incluídos nesse processo de privatização total da vida na Terra.” (p. 173)

A epistomóloga e ativista indiana Vandana Shiva lidera um movimento que pretende criar uma alternativa à visão transgênica da vida, lutando contra a biopirataria e a favor dos direitos intelectuais colectivos. Numa entrevista que deu recentemente na televisão, eu ouvi-a dizer:

“A terra, a floresta e os rios, os oceanos e a atmosfera foram todos colonizados, desgastados e poluídos. O capital precisa agora ir em busca de novas colónias para continuar a sua acumulação  – o espaço interior dos corpos das mulheres, plantas, e animais. (…) É preciso construir uma alternativa para o paradigma do conhecimento, e da própria vida, como propriedade privada.”

Desde o ano passado que comecei a pesquisa para este filme, num contexto de crise económica e social em Portugal, em que se vive e sonha com um mundo diferente, melhor. Fui filmando as diversas manifestações de contestação às políticas de austeridade da Troika, a acampada na praça do Rossio, as assembleias populares e os debates entre os grupos que aí se realizaram. A minha intenção é obter imagens que ilustrem de certa forma as tensões do sistema de poder atual, e que impliquem as reivindicações do corpo face a ele como força de expressão singular e coletiva. Assim, quero filmar e entrevistar cientistas e pensadores como Hermínio Martins que é uma referência importante no ensaio pois discute as questões da eugenia, e também procurar inspirar-me na obra de outros artistas e realizadores, como é o caso de Armand Denis, pioneiro a filmar a vida selvagem em África. Este homem foi o primeiro a ter um programa sobre animais selvagens na BBC nos anos 50, quando apareceu a televisão, e escreveu uma autobiografia chamada On Safari que conta as suas peripécias com os animais. Ele era de certa forma um mágico do improviso, pois inventou muitas técnicas de filmagem e tornou-se um ativista pelos direitos dos animais e contra a caça, defendendo um mundo que já estava na altura em vias de extinção. 

Considero também que a minha implicação física no filme é importante, para resgatar e confrontar de certa forma a invasão de que falava. Assim, enquanto não obtenho o apoio financeiro necessário à sua realização, tenho-me vestido com um fato de tigre em alguns lugares da cidade, em performances de curta duração: pendurei-me numa árvore em super8, fiz dupla com um homem-estátua para os turistas, passeei de gaivota no jardim zoológico, fui esquiar com um macaco nos Alpes, entre outras coisas. 

Criei um perfil no Facebook, “SafariGoOn”, para partilhar este processo de pesquisa e poder discutir e problematizar o filme, e um canal com um mesmo nome no Youtube, onde se podem ver os videos editados das performances:

 

 

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