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Sarar contra as metáforas

Sarar, fotografia de Vasco CélioSarar, fotografia de Vasco Célio

Sei muito pouco sobre a Sara Goulart. Quando a Sara nasceu, mais ano menos ano, Susan Sontag publicou o ensaio A doença como metáfora – que em Portugal partilha a capa com um outro: A Sida e as suas metáforas. Li os dois textos em 2020, pouco depois de declarada a pandemia Covid 19, este diagnóstico-sentença de que nos vamos ora livrando ora aprendendo a viver. Lembrei-me do discurso de Sontag enquanto assistia ao ensaio de Sarar, há dias, no Centro Cultural da Malaposta. Não decorei citações nem trouxe o livro para a viagem de onde escrevo agora, com a luz desses textos, como um sinal de emergência num quarto onde não costumamos dormir. A silhueta de uma pessoa que corre e uma seta a indicar o caminho que nos tira dali.

Também não anotei as deixas da Sara que teria sublinhado se o meu corpo as lesse e em vez de as ouvir. Trouxe, também desse fim de dia, mais o discurso do que as palavras que a Sara disse. E que talvez não repita, tal como não se repetem as formas de um caleidoscópio ou o para o ciclorama colorido para onde Sara nos encaminha os olhos, e nos deixa o resto do corpo mais ou menos imóvel – e eu, toda ouvidos, embalada no discurso que é muito mais do que um texto.


Sarar
é a história do corpo da Sara, de como tomou conhecimento do que se passava, de como lhe assentaram as palavras que foi ouvindo sobre a doença – um cancro da mama – e  de como se foi livrando delas durante a cura, até entregar o seu corpo à dança e ao que parece ter sido uma imensa companhia de amor e cuidado. 
As primeiras palavras que Sara ouviu, e que nos repete nesta performance, instauraram uma realidade que já acontecia. Sob a pele, as células já faziam o seu mau trabalho, reproduzindo-se de forma errada, maligna. Saberá quem assistir que também Sara ficou parada enquanto chegaram as palavras que lhe marcaram a fronteira entre o que havia antes e o que passou a haver. Como Sara ao receber a notícia, somos puxados por um fio, como um balão de hélio sobre a sala retrospectiva.
As palavras da médica e o discurso em que se organizam – e Sara guarda os dois – marcam a fronteira tripla entre o que acontece no corpo, o que sabemos sobre isso e o que podemos fazer com o que sabemos sobre isso. Não podemos escolher as palavras que ouvimos: ninguém quer ouvir o que vem a seguir a «não trago boas notícias» ou outros eufemismos que podem atrasar por minutos a chegada de uma mudança em curso, silenciosa, caótica e metódica, como uma doença oncológica pode ser. Mas assistimos, neste encontro, ao que a Sara Goulart escolheu, no seu caminho, com dano e reparação em bermas opostas, fazer com as palavras que lhe chegavam. 

Talvez por isso, em Sarar não se fale de ciência, nem do que acontece debaixo da pele de Sara, microscopicamente falando. Sabemos o que acontece e é visível, ou foi tornado visível neste texto. Num discurso escolhe-se o que se quer iluminar da realidade, o que trazer à claridade opaca da linguagem, o que deixar por dizer, provocando uma espécie de destaque silencioso por omissão, como uma silhueta em contraluz. Há também no discurso desta mulher em palco, um jogo de luz, enquadramento e manipulação que Sara acompanha, compondo um fundo onde entregamos os sentidos, enquanto fala – o som da sala ajuda no mergulho. 

No retroprojector, objecto que uma geração de estudantes conheceu nas aulas, muitas vezes nas aulas de Ciências da Natureza, Sara opera, compõe, as imagens que nos embalam, não como uma ilustração mas chegando onde não chega o texto. Lembra-nos, com uma microdança que um corpo existe, sensível, mesmo sem palavras. Como uma mesa de luz. 

Sara descreve mais como lhe foram faltando as palavras do que como foi perdendo o cabelo. À medida que o processo de tratamento, o caminho para sarar, avança, os efeitos da quimioterapia, dos medicamentos que atenuam esses efeitos, e do turbilhão em que se vive, fizeram com que as palavras falhem: mesmos as mais banais, como os gestos mais decorados. Nessa altura, o mundo parece ter ficado reduzido ao essencial, àquilo que ainda se consegue apontar com uma etiqueta genérica. «Quando as palavras nos faltam, parece que é o mundo sensível que encolhe também. Tudo passa a ser uma coisa, outra coisa, aquela coisa.»

Imagino que tenha sido mais ou menos por esta altura que Sara se libertou do glossário da doença, abandonando a guerra da informação e interpretação com os médicos e o sistema estigmatizante, complexo como nova gramática agora recusada. Susan Sontag dedica algumas páginas da sua reflexão sobre o cancro precisamente ao sistema de metáforas bélicas que entorna o doente, o seu percurso por corredores de tratamento e minimizações, numa lógica de batalha campal, lutas, vitórias e derrotas. Sara Goulart parece ter desistido precisamente desse argumentário no momento em que escolheu desviar-se da novilíngua obscura dos hospitais.
Quando lhe faltam as palavras, Sara também deixa de falar sobre elas. Nessa altura, o projector solta-se da tela e as imagens ocupam a sala, espalhando o jogo de cores, agora libertas do enquadramento, abrindo a pista à dança, regeneradora, sem saídas de emergência à vista.
Sontag, nos seus dois ensaios, olha para o cancro e para a Sida como doenças sem glamour, por oposição a uma tuberculose romantizada. Analisa o modo como os discursos procuram responsabilidades, aliados, inimigos, que fazem com que nos envergonhemos destes males e procuremos fora do corpo as suas causas, fazendo destas doenças, de algumas doenças, metáforas.
Depois de Sarar, pensei nestes dois ensaios de Sontag – e também em dois episódios que Rebeca Solnit narra em Esta Distante Proximidade (que nunca me canso de citar, ler e sublinhar). Solnit conta que a sua mãe foi perdendo a ligação com o mundo à medida que perdeu a memória e capacidade de falar sobre o que lhe acontecia. Ao mesmo tempo que nos relata este apagamento sem retorno, Solnit conta como foi gerindo a excessiva produção de alperces que herdou da mãe. Como se essa ocupação e essa gestão de uma natureza imparável a deixassem em contacto directo com o mundo sensível depois de se apagar o discurso, num movimento inverso ao que acontece em Sarar. O mundo sensível amplia-se, talvez por a palavra ser uma única: o nome do fruto e as suas múltiplas declinações e formas de conservar.

O discurso de Sara sobre o corpo não é exaustivo nem pesado. Não é científico, nem parece querer cumprir um programa inspirador. É discurso focado num corpo onde a doença acontece independentemente do que se possa dizer sobre ela. Vai além da doença também porque um discurso de Sara também declina o corpo de uma mulher e antecipação da inevitabilidade da menopausa, e todos os seus efeitos. Sarar é sobretudo um discurso dos efeitos: os efeitos das palavras dos médicos, os efeitos dos tratamentos, os efeitos que ficaram depois desta travessia – e os efeitos das palavras de Sara em quem escolhe entregar-lhe uma hora da sua vida.
Como um negatoscópio (a mesa vertical de luz usada pelos médicos para observar raio X) o que pode ficar desta performance são as palavras que se deixam iluminar e nos trazem frestas por onde espreitamos a realidade: as palavras do anúncio, as palavras que fizeram o léxico da doença, as palavras a que Sara escapa, as palavras que fogem de um corpo dominado pelo chemo brain exausto, as palavras que se dispensam de repetir e que terão sido trocadas com a turma de amigos que imaginamos fundamentais no caminho de sarar. 

O espectáculo termina em festa, mesmo antes da meta ou de uma cura. Sabemos que o corpo que ali vemos, bonito, operacional, sereno, transporta em si todos os efeitos de que fala, activos ou como memórias, mas prossegue como se dançasse. «Recuperar possibilidades» foi a primeira frase que anotei quando se acenderam as luzes. Literal, sem metáforas, a apontar um caminho novo: paralelo à saída de emergência, talvez leve ao mesmo lugar.

Sarar, fotografia de Vasco CélioSarar, fotografia de Vasco Célio

SARAR, 30 de outubro às 17h no Teatro do Bairro Alto 

Conceção, texto e direção artística Sara Goulart
Apoio coreográfico Ana Rita Teodoro
Desenho de som Fernando Ramalho
Cenografia audiovisual Luísa Homem
Desenho de luz Zé Rui
Produção Ana Lobato
Comunicação Marta Rema
Design gráfico Ana Teresa Ascensão
Organização efabula
Apoios Devir/Capa, Buala, Terratreme, cem – centro em movimento
Coprodução Teatro do Bairro Alto
Projeto financiado pela Direção-Geral das Artes / República Portuguesa – Cultura
Agradecimentos Tânia Guerreiro, Filipe Quaresma, Filipe Felix de Almeida, João Castro, Catarina Morais, c.e.m. – Centro em Movimento, Centro Cultural da Malaposta
Fotografia João Almeida e Vasco Célio

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