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Ser gay em Cabo Verde

A Mindelo Pride, “Iª Semana pela igualdade das pessoas lésbicas, gays, bissexuais e trans”, organizada pela Associação Gay Cabo-verdiana, marca as conquistas e os novos desafios dos homossexuais em África.

foto de juliette brinckmanfoto de juliette brinckman

Há alguns anos, quando vivia em Lisboa, num bairro de maioria cabo-verdiana, ouvi alguém dizer que em África não existiam homossexuais. Percebi ainda o repúdio por se ter visto passar duas lésbicas.

Um amigo homossexual veio visitar-me e sentiu, nesse mesmo bairro, arder na pele o olhar fulminante das pessoas pelo fato de ser assumidamente gay.

A partir dessa e de outras experiências, percebi a dureza do preconceito contra os homossexuais em Cabo Verde. Acresce a isso que em alguns países africanos ser homossexual é crime, sob pena de prisão perpétua e, em alguns, como a Mauritânia e a Somália, dá até pena de morte. Tomei conhecimento do tratamento dirigido às lésbicas, inclusivamente na África do Sul, onde chegam a ser estupradas como forma de “correção” ao seu “desvio”.

Ao chegar ao Mindelo, a principal cidade de São Vicente, considerada a mais cosmopolita das ilhas do arquipélago, por diversos fatores, entre eles pelo mais expressivo Carnaval do país, notei uma maior tolerância com a homossexualidade.

Muito provavelmente o “Mindelo Pride – I Semana pela Igualdade das Pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trans” facilitou o encontro de pessoas com uma nova forma de pensar, que se reuniram para celebrar a diversidade em Cabo Verde.

Porém, apesar de ter encontrado no Mindelo uma sociedade mais aberta, é inquestionável o preconceito contra os homossexuais em Cabo Verde, que parte principalmente de instituições do poder público, a igreja e a escola.

“É matar um coelho por dia, principalmente para os homossexuais de classe social baixa que, por sofrerem muita discriminação, acabam por abandonar a escola. A maioria não terminou o ensino secundário, então é muito difícil”, desabafa Elvis Tolentino, vice-presidente da Associação Gay Cabo-verdiana, sobre a realidade do gay em Cabo Verde.

foto de juliette brinckmanfoto de juliette brinckman

Denis, um jovem de 19 anos que assume abertamente a sua homossexualidade e tem o apoio da família, reafirma que não é fácil para um gay continuar os seus estudos quando são os próprios professores a discriminá-lo. “Eu me assumo como gay e sou aceite pela minha família. Mas pela sociedade ainda sou muito discriminado. Com o apoio da família nos sentimos firmes.” Segundo Denis, “sair do armário” muda o olhar da sociedade, de forma positiva.

Denis fazia parte do audiência que participou da conferência “Homossexuais, bissexuais e transgêneros em Cabo Verde: necessidades e desafios para o futuro”, realizada no Centro Cultural do Mindelo, com uma mesa formada com a participação de Anilton Barros, a Anita, presidente da Associação Gay Cabo-verdiana, o vice-presidente Elvis Tolentino, da professora Fernanda Fernandes, da deputada e ex-presidente do ICIEG (Instituto da Igualdade e Equidade de Gênero) Cláudia Rodrigues, e de Juan Alfredo Pazmino, presidente da sede da Fundacion Triángulo nas Ilhas Canárias, entidade que apoiou o evento.

A programação, realizada no dia 24 a 29 de Junho deste ano de 2013, contou ainda com uma exposição fotográfica da artista e fotógrafa alemã Julliette Brinkmann, com o nome “Musas”, retrato da comunidade gay de São Vicente. Pudemos ainda ver uma exposição em comemoração aos 20 anos da primeira Parada Gay em Berlim, e os diversos filmes abordando os temas em questão no“I Film Festival LGBT de Cabo Verde”.

foto de juliette brinckmanfoto de juliette brinckman

Associação Gay Cabo-verdiana: porta aberta para os homossexuais em África

Pioneira no país, sediada no Mindelo, a Associação Gay Cabo-verdiana nasceu há três anos, por iniciativa da presidente Anita que, desde muito jovem, sentia a necessidade de fazer algo pela sua comunidade. Depois de viver alguns anos em Itália e ver a organização da comunidade gay das cidades que visitou, decidiu-se a agir. “Na Itália vi travestis, como eu, organizadas e pensei: porque não fazer algo em Cabo Verde, para acabar com a hipocrisia e marcar a igualdade?”

Anita e Elvis afirmaram que a principal dificuldade da associação é a falta de verba, de apoio do poder público e de outras entidades locais.

O Mindelo Pride não teve apoio da Câmara Municipal local. “É egoísmo e preconceito também. Seguramente haveria verba se se tratasse de outra manifestação, mas como é uma manifestação gay… Eles fazem finta de que não existimos, que não somos cabo-verdianos, mas na hora da eleição vêm atrás de nós”, revela Anita.

Por outro lado, o economista Amílcar Pinto, que estava presente na manifestação para prestigiar e celebrar afirmação da diversidade em São Vicente, afirmou que a falta de verba está para além do preconceito. “Temos que levar em conta que estamos numa altura de crise e os recursos públicos são escassos para todas as atividades.”


A associação Gay Cabo-verdiana vem trabalhando na área de informação e prevenção ao HIV. Como próximos passos pretende continuar esse trabalho afim de consciencializar a comunidade gay, entre outras ações. “Queremos dar mais sustentabilidade e potência na defesa da doença. Também queremos atuar na área da educação, sabemos que Cabo Verde é um país pobre e vemos muitas dificuldades. Os meus colegas deixaram a escola muito cedo, porque é uma luta, queremos ajudá-los. Mas não só, dentro da comunidade gay também temos pessoas carentes e idosos que vivem sozinhos e queremos ajudá-los.”

A agenda da Associação pretende, em agosto, realizar uma atividade de consciencialização da comunidade gay na rua, na ilha de São Nicolau, onde a abertura para a questão da homossexualidade é muito menor.

Outro projeto é o Mindelo Pride passar a ser anual e que no próximo ano as atividades decorram durante um mês.“Queremos dedicar um dia às lésbicas, temos agora uma grande luta que é dar visibilidade à comunidade lesbiana aqui em Cabo Verde.” explicou Elvis.

 

São Vicente, um lugar particular em Cabo Verde

A boémia, o Carnaval e as atividades culturais fazem de São Vicente um lugar especial no país. O Mindelo foi o palco da diversidade, no Mindelo Pride.

Christian, 28 anos, é ator, trabalha no Carnaval, é ativista e membro da Associação Gay Cabo-verdiana. Explicou-nos o que é ser gay em Cabo Verde, reconhecendo que São Vicente é uma ilha mais aberta, mas que existem casos de intolerância grave em outras ilhas. Ele que já viajou para São Paulo e teve conhecimento de grupos homofóbicos organizados no Brasil, considera que esse tipo de situação não existe por aqui. “Sinceramente, nós não sofremos uma pressão tão forte. A discriminação em São Vicente é uma coisa mais suave. Porém, não deixa de ser chata e não deixa de ser discriminação. Já fui vítima de violência física, já aconteceu com outros, mas é uma coisa pontual.”

Percorrendo as ruas do Mindelo com a Mindelo Pride, a comunidade aderiu e se juntou no desfile pelas ruas, com muita música, dança, alegria e consciencialização.

Mas a que se deve essa aceitação? “Por natureza, o povo de São Vicente é um povo aberto, suave, aceita tudo, acomoda-se a tudo e habitua-se a tudo. Mas a discriminação existe, de forma mascarada”, afirma Christian.

Para ele, esse evento será uma forma da sociedade em geral acordar para o fato de que os gays em São Vicente não são apenas “as pessoas que deambulam pelas ruas, filhos de não sei o quê, meio loucos, que participam no Carnaval.”

Fazendo a cobertura jornalística do evento para a seção de São Vicente da Rádio Pública de Cabo Verde, o jornalista José Leite afirmou ser um processo normal, já que há muito tempo os gays se assumiram em Cabo Verde. “A nível do Carnaval eles têm uma forte expressão, um grupo carnavalesco próprio. Temos contato quase permanente com eles. Essa semana tem um cunho especial porque várias atividades tiveram lugar, mas não é nada surpreendente, nem a nível da ilha nem do país. Provavelmente São Vicente é a ilha mais aberta, mas existem gays nas outras ilhas. Existe preconceito, mas eles estão aqui, tranquilos, não há polícia, não tem forças armadas, as pessoas olham, fazem fotos e trocam impressões”.

A professora de Estudos Científicos e estudante de Serviço Social, Fernanda Fernandes, que também participou da mesa da conferência, realizou recentemente uma série de entrevistas com gays e transsexuais para um trabalho que apresentou na faculdade sobre homossexualidade. Para ela o evento tem valor social. “Essa é uma boa iniciativa e acho que a homossexualidade deve ser abordada em diversas vertentes, é preciso ir além. Algumas pessoas ainda acham que a homossexualidade é uma doença. Considero importante trabalhar essa questão na educação, transmitir os bons valores, os alunos irão transmiti-los para a sociedade o que irá mudar a mentalidade das pessoas.”

Para ela, Cabo Verde está num processo de mudança e também a homossexualidade deixa de ser um tabu. “Eu acho que o cabo-verdiano está se adaptando às mudanças. O problema é a pessoa ser socializada de uma maneira, educada para outra sexualidade. Acho difícil também a posição da sociedade. Mas devemos também estimular, de modo de que as pessoas comecem a aceitar. Mas já estão aceitando, antigamente os homossexuais eram apedrejadas. Os homossexuais que entrevistei agora disseram não ser discriminados.”

Mário, que participou na manifestação, reconhece que hoje existe uma maior abertura, mas relatou sua experiência pessoal de discriminação no local de trabalho. “Se eles descobrem que você é gay já te vêem com outros olhos. No modo de falar você já vê que eles não vão te dar um trabalho por ser homossexual. Eu já fui vítima desse preconceito, os colegas já me fizeram a vida negra, já senti na pele. Outros colegas também já sentiram isso e espero que mude.”

 

Tchinda, a primeira homossexual a se assumir publicamente em Cabo Verde, em 1997, reforça em 2013 a luta contra a intolerância.

“Hoje estou aqui para dar o meu apoio à Associação Gay Cabo-verdiana e também para fazer tudo o que posso para manifestar os nossos direitos. Quando me assumi, na altura com 17 anos, tive o apoio da minha mãe e da minha família. Aos poucos a sociedade foi mudando, apareceram outros colegas, começamos a fazer moda, Carnaval, shows em discotecas e hoje estamos aqui. É um orgulho estar nesta grande manifestação, é importante para Cabo Verde.” Tchinda

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Dona Fernanda, um exemplo de cidadania

Aos 54 anos, com seis filhos, seis netos e um bisneto, dona Fernanda participou ativamente na Mindelo Pride. Explica assim: “Eu apoio porque eles merecem a liberdade. Não tenho filho gay mas acho o respeito algo muito importante. Eu não sei se o que será no dia de amanhã, mas se um neto meu for gay, vou apoiar com todas as letras. O povo cabo-verdiano tem que respeitar os gays e as lésbicas porque somos todos iguais. Respeitar para ser respeitado também.”

 

Ser homossexual em África

Existe uma intolerância fortíssima contra os homossexuais em muitos países africanos. Alguns casos motivados por convicções religiosas, outros por ignorância. Muitos africanos são forçados a imigrar para a Europa na impossibilidade de viverem livremente a sua sexualidade.

Para Anita, a questão da homossexualidade em África deve ser encarada de frente: “É uma questão complexa e tem muita hipocrisia. Com a minha experiência de vida digo que em todas as sociedades existem gays, na China, no Brasil, na África, até na Conchichina. Tem gay preto, gay branco. Na comunidade africana existem gays mas há muito medo de assumir, porque em alguns países chegam a ser condenados à pena de morte. É o medo que os faz dizer que não tem, mas tem.”

Christian fala sobre uma realidade: o êxodo dos homossexuais cabo-verdianos para a Europa: “Existem muitos membros da classe média e alta que enviam seus filhos gays para o estrangeiro, para não terem que conviver com o preconceito. É muito mais fácil ser gay na Europa, do que em Cabo Verde ou em África.”

Alfredo, da Fundacion Triângulo, fez um alerta para a complexidade do trabalho que deve ser feito em Cabo Verde onde, além do preconceito quanto à sexualidade, a questão racial ainda é muito presente: “a Associação Gay Caboverdiana tem três anos de trabalho, mas só agora, quando um branco acompanha as reuniões, as portas se abrem.”

Elvis esclarece o papel da Associação Gay Cabo-verdiana na questão da homossexualidade em África: “a associação pretende que Cabo Verde seja um porto seguro, onde todos os ativistas LGBT possam vir aqui para delinearmos estratégias e linhas a seguir para combater essa mentalidade africana de que a homossexualidade é uma coisa importada, de que foram os europeus que a trouxeram para África.”

 

Fundacion Triángulo Canárias, pela igualdade social de lésbicas, gays, bissexuais e trans

Como única entidade apoiadora do Mindelo Pride estava a Fundacion Triángulo e como representante o presidente da sede nas Ilhas Canárias, J. Alfredo Pazmino H.

A parceria com a Associação Gay Cabo-verdiana surgiu em 2010 no primeiro trabalho que realizaram junto com o Instituto Cabo-verdiano de Igualdade de Género, na cidade da Praia, e onde puderam conhecer ativistas como Elvis, Anita e Tchinda.

Cabo Verde e as Ilhas Canárias apresentam muitas características em comum, entre elas serem ilhas africanas, terem economias similares e aspectos culturais que diferem muito da Europa.

A Fundacion Triángulo trabalha em cooperação internacional com gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais do mundo inteiro, com sedes em diferentes regiões da Espanha. A sede das ilhas Canárias tem como prioridade a África Ocidental. “Nós vemos Cabo Verde como uma porta direta para entrar em África”,explicou Alfredo.

Em 2013, a parceria com a Associação Gay Cabo-verdiana intensificou-se e a Fundacion Triángulo apoiou ativamente o Mindelo Pride, antes, durante e depois do evento.

Apesar de ser abrangida pela constituição espanhola e pertencer legalmente a Espanha, as Ilhas Canárias têm características muito particulares. “Tal como Cabo Verde, somos territórios insulares, portanto as comunidades LGBT estão um pouco mais fechadas porque as pessoas não tem acesso às grandes cidades como Madrid e Barcelona, permanecendo em zonas rurais. Trabalhamos com elas sobre os nossos direitos. A Espanha tem constituições mais avançadas como o matrimónio entre pessoas do mesmo sexo e adoção, mas isso é no centro das cidades, não podemos nos esquecer das pessoas do campo e dos homossexuais idosos.”

Cabo Verde precisa de mudanças no pensamento e comportamento mas, segundo ele, “a mudança é um processo longo, não é de um dia para o outro. É importante que as pessoas LGBT tenham e construam referências positivas e que falem dessas referências. Podemos falar de Cláudia Wonder, a primeira transexual de 1970 que, em São Paulo, foi a referência da comunidade transexual. São referências positivas abrem o caminho. Também é importante falar sobre o tema. Aquilo de que não se fala não existe. Quando começamos a falar, mudamos o pensamento.”

 

Associação Gay Caboverdiana

https://associacaogaycaboverdiana.blogspot.com.es

www.facebook.com/associacao.gaycaboverdiana

@CaboVerdeLGBT

Fundacion Triangulo Canárias

www.fundaciontriangulo.org

alfredo.pazmino@fundaciontriangulo.es

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