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Ser homem não é só fazer xixi de pé

Cara Marta,

“A Discriminação Não Faz o Meu Género”. Dos melhores slogans dos últimos tempos. Foi no Pride Marcha do Porto, onde me encontrei de repente. Muito sem querer. Fui encaminhado para um projeto social de abrigo a vítimas de género. Pergunto-me o que será isto e se não somos todos vitimas de género, crença, classe e raça etc. Por sorte não fiquei na rua e, apesar das medidas de segurança da casa, por proteção a vítimas, inclusive de aprisionamento, pelo menos mild, evitei o momento traumático, imagino, de dormir ao abandono nas ruas de Lisboa. Sei que a Luísa não ia deixar, como sabes, e para não a incomodar lá encontrei alternativa. Até para se ser homeless é preciso lutar, bolas! Mudei finalmente os papéis, foi em matéria de dias. Não tive que fazer xixi de pé nem nada. Cheguei lá e disse: 

— Quero mudar de nome e sexo. 

Assim mudei. Atirei-me para o lado de lá da linha do binário e apesar de sair do Governo Civil com calor, não senti nada de maior a mudar. Já há uns dias que me tratam com muita consistência pelo pronome masculino na casa LGBT, apesar de eu me trocar todo a usar o feminino com uma Trans com quem partilho a casa. Mas ela irrita-me e lá sai o insulto mais danoso, sou mesmo selvagem. Ela odeia-me, o que atesta em pleno a sua feminilidade, e isto é caricato também. As vivências nesta casa dava material de Teatro Revista Top. Como tenho um mau aspeto do caraças, pelos dentes e estado físico fraco, para não falar dos mil defeitos gerais de comportamento em habitação comum – que nunca pensei viver outra vez, devagar e com firmeza, todos estão a começar a discriminar-me sem maior regras de esclarecimento. 

Somos todos o mesmo, afinal ser humano é um exercício de paciência com os outros e nada nos pode salvar deste exercício a não ser a ermitagem que começo a considerar seriamente. Temos regras de limpeza que me parecem mais exercícios militares do que a alegre manutenção de um espaço de surrogate home, mas quem sou eu para explicar seja o que for aos doutores do espaço? Os modos de controlo deixam os inmates meio malucos e os doutores também, mas como o mundo está assim também não destoa.

Consegui um trabalho na Grécia, vou na fase final de testes, e estes meros dias acordaram um fogo de desejo de libertação que me deu uma pica do caraças. Já que não posso ser marido da fadista Mariza vou então ser grego. Aceitaram a minha nova identidade, apesar de ter que mudar tudo nos últimos momentos e por isso tiveram que trocar logo nos primeiros contatos telefónicos. Mudei, disse. Peço muita desculpa mas agora sou um homem por isso podem tratar-me por pronomes masculinos, if thats ok? disse, e ela, yes, of course. Assim, está bem encaminhado, Atenas, não é mau. Gosto de arte, comida e do mau feitio dos gregos. Fico mais em casa, acho. Como se está a instalar uma inclinação à direita posso ser útil, né? Quando lá chegar vou dizer muitas vezes “vi-me grego para aqui chegar” e rio-me sozinho, porque será verdade. Lembro-me de me ter apaixonado por uma grega, mas o meu amigo Paiva pôs-se a charmar a moça e eu fiquei sem espaço. Foi bom porque como  ali havia uma relação de poder, não ia eu virar produtor do estilo #MeToo, acabou por me proteger. São assim os amigos: mesmo quando fazem merda fazem-na bem feita, né Fausto?

Desculpem o tom pessoal, mas com a idade vamos ficando interessados na nossa vida que até então parecia normal lol! Nestas matérias tenho tido contatos novos com a zona norte do país e as pessoas agradam-me, apesar de não as entender de todo e nem elas a mim. Vivem numa realidade paralela de ordem própria onde nada é o que é, e nada significa nada. Ficam nos modelos de diálogo cujo cerne a eles/elas compete e divertem-se com as suas descobertas nos seus contextos e eu muito também, no meu. Enfim a Maya Angelou disse uma vez “we are more alike than we are unalike” (sometimes I wonder). 

Sei que estou peixe fora de todas as águas, mas não faço ideia de que raio de destino mais próprio poderia tomar. “Ó Senhora de Matosinhos, Ó Senhora da Boa Hora, ensinai-nos os caminhos para zaparmos daqui para fora…”, que dizer pode ser que a V(b)eja. Fiquei a saber que a cidade de Matosinhos faz parte do grande projeto Arco Íris da UE, que só se lembra de parvoíces, ou seja é LGBT friendly, junto com Berlim, Barcelona e provavelmente Budapeste (inventei a última porque começa por B). Estão a fazer o oposto do que é correto, mas são surdos. Estaremos nós perante um projeto de reeducação ou tolerância ou mesmo ghetto estilo social engeneering, tão característico destas normativas europeias? Oh dont mind me, Im a Lunatic French Bulldog! Por sinal, gostei muito do discurso final da May que, apesar de ter falhado redondamente nas datas do Brexit porque os amigos fazem merda bem feita, fez um discurso mais que pertinente e non bullshit até na promoção que faz do seu próprio trabalho foi rigorosa. Que competência caraças, até dá gosto, para não falar na escolha de casacos principalmente das golas – alguém devia fazer uma colagem disto para o you tube, merece. Dava para fazer uma tese para o Downtown Abbey Department com o título “As Golas de Theresa May, a genius revised”. O meu amigo da casa ia gostar, ai! Amiga.

Precisamos de mais polícias é do bom gosto, na linguagem, vestimenta e até modos. Se pagamos aos políticos e nem etiqueta discursiva nem de (re)apresentação se manifesta pois andamos a ser caloteados. Ando impressionado com as camisas brancas do chefe da CDU. Faz pandan (a boa onda da Dra. Ana) com o cabelo branquinho e fica mais sex symbol de velhas como o seu Deus Cunhal já Era (Agente Imobiliário). Tudo pintadinho de fresco com um ramo de laranjeira. 

Eu ainda não me sei vestir, ao que parece, sou muito cinzento e como não quero ser acusado de ser non binary tenho que me pôr a pau ou ainda me expulsam da comunidade Trans por não ser macho o suficiente. É que isto é caixinhas por todo o lado, caraças. Olha, apaixonei-me por um Trans, é parecido com a Mariza (ahahah) fica fácil, o magano é lindo e ainda por cima faz croché e eu pensei, caraças isto é que é masculinidade segura porra! Que HOMEM! Mas pronto, é muito mais novo e eu não quero ficar um homem (espera que esta não é fácil) Gay apaixonado por um Trans mais novo. Assim, o mais fácil é que é black. Que achas? Estamos todos complexos né? Ainda bem.

Finalmente, para te dar continuidade sobre o Shaman. Pois andava eu a ver you tube quando me apareceu um link sobre Jung e Wotan, o Deus nórdico que descreve como o que deu os “ventos” ao nacional socialismo. Olha não é que me fez pandan com a minha iniciação na Roménia. Chiça! Gandas malucos! Será que andamos a importar mais do que o humanismo alemão para o sul da Europa? Isto, olha lá, tem que haver discernimento. É que aquilo não é nada fofinho mine fraulein nada fofinho! Ando a seguir a série Dark na Netflix, é do melhor, temos que tirar papel e caneta para manter minimamente o sentido cronológico da estória. Agrada-me a complexidade freudiana de incesto desdobrado no tempo. Junto com as teorias da radioactividade como componente da estória. Só não fica perturbado quem é alemão. Mas a Netflix para mim é assim como uma má trip de um qualquer componente psicotrópico. Assim será que a radioactividade solta aos ventos nos dá trips maradas? E não é que tinha uma destas centrais a cinco minutos do meu apartamento em Bucareste. Mando foto. Que trabalho de Harry Potter. Oh Meu Deus será que sou eu no passado? Enfim, estas ligações são como os componentes de hardware que ando a estudar para o trabalho na Grécia, encalhei no motherboard – uma cena de assustar meninos e meninas e anything in between.

Desculpa não ter ficado aqueles dias em Ourique, mas tive uma batalha em Campo de Ourique (olha fez pandan!) com um francês por causa de um coco de uma cadela de raça alemã, que não é sequer minha, e atrasei-me nos meus afazeres em Lisboa. E depois olha fiquei na Luísa. Se calhar ainda nos vemos antes da Grécia, sou otimista, isto é se sair de Matosinhos com vida ou sanidade mental ou o que resta dela, ai, desculpa dele! 

AGORA a sério — o deslocamento de referências habituais de vivência faz uma coisa estranha à consciência. Afasta o som para longe e ouvimos vozes fantasmas que vivem nos seus contextos mas parecem querer dizer algo para os nossos. Será isto a Voz do inconsciente colectivo? Depois o mundo não entende nada do que quero dizer e eu não entendo nada do que eles querem. O que parece uma conversa de malucos – um bocadinho como o Brexit. Marta, pergunto-me se o processo de viagem nos barcos para “o novo mundo” teriam forçosamente que provocar esta alteração nas percepções. Imagina que a corrente LGBT parece-me agora uma corrente meio forçada de gestão de rebeldes e maluquinhos. A verdade é que nunca estive inteiramente com eles nem sem eles. Bicho estranhinho eu. Não sei se me desloco agora também desta religião que parece consumir muito açúcar ahahah. E se? OK vou experimentar. Renuncio ao estatuto LGBT! Não vou mais me acorrentar neste rio. Gostei do Pride e da estadia no Arco Íris, mas estou além. Pronto! Já não sou Trans, sou Amadeo como o Cardoso que era futurista e “não consta que soubesse inglês”.

Só falta o Sporting acho, mas há limites né? VIVA O SPORTING CARAGO!!!

Abracos, 

Adin Manuel 

PS. Se ouço dizer mais uma vez “Graças a Deus”, “Vai com Deus” e etc, acho que vou explodir. Isto é só Sambistas Evangélicos, dear! Tenho uma no quarto do lado. Chiça e eu com dúvidas existenciais com o Sporting. É da radioatividade alemã.

PS. Já marquei o meu Adinexit na casa. Vou pirar-me antes que a Trans me ataque. Aparentemente deixo o WC que partilhamos com água no chão, depois de tomar duche e isso sim é uma injustiça-mor né. Nem imaginas o fogo que cuspiu, parecia a Fúria da Noite destreinada. Queria-me explicar, é que sou ADD também, mas não entende siglas. Só LGBT ou talvez AA. Enfim, a vida em siglas; esta semana podia ter mandado o CV para a UN mas faltou-me as participações em ONGs ou mais siglas de associativismo/ativismo/socialismo.

PS. O melhor desta semana foi um velho no café. Ao ouvir-me dizer obrigado, disse: “é muito triste esta coisa da dislexia” (lol!). Ganda tirada pensei, nem me ofendi, aquilo foi mesmo engraçado. Vou passar a dizer “tenho dislexia de género”, e você? 

Desculpa os PS mas ando a dar graxa aos partidos de poder que “compraram” estas identidades. Sabes é que sou maluco mas não sou estúpido! Um dia destes ponho BE em vez de PS, ver se resulta num posto fit for a Doutor. É que a independência não me assiste a carteira. Valha-nos a Grécia. Pronto, agora sim, vou estudar hardware.

O dia seguinte estilo Dark, um cigarro depois. 

BE. Não resisto a dizer qualquer coisa séria. Triste estado o meu quando sensível. Apanhei um Andante (gosto muito deste nomenclatura aqui nos transportes) depois de levar mais uma shot de Testosterona. Sentei-me no banco detrás do autocarro e pousei um segundo quando vejo um velhote tuga a pedir a um jovem alemão para o deixar passar para o lugar vago que estava ao seu lado, quando de repente o puto lhe fez sinal que não, tinha a mala, apontou. Fiquei num estado nem imaginas. Levantei o cu do banco e fiz sinal ao velhote para se sentar no meu lugar. A seguir peguei no meu melhor inglês e disse-lhe What the fuck is wrong with you? (é o meu melhor Inglês). O puto não disse nada. Fiquei de pé e fui para o meio ao pé da porta de saída. Os momentos seguintes foram de outro nível animal. Fiquei a bambolear em fúria sem dizer nada. O puto falava com os seus amigos a rir. Esperei. Esperei. Até que se dignou a mexer o cu para o lado da mala dele e dar-me lugar. Tomei e disse; you see, thats very kind of you. Que dizer? O autocarro cheio de portugueses não se mexeu, e assim pergunto que meteram nas nossas águas pá? Radioatividade? Se calhar quem devia estar a pedir de joelhos aos ingleses que fiquem é a arrogante da UE. É que a currency para se viver bem não é só dinheiro. Ela há outras coisas como dar um seat to an elderly man. Que é o mínimo para não falar de tudo o resto que compõe o sonho que é estar vivo ou a or whatever in between. É que ser homem não é só fazer xixi de pé! 

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