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Ser visto à socapa por um público precário

Ao recuperar e preservar os traços das nossas vidas e ao pô-los ao lado de outras histórias sul-africanas, o GALA vem atestar a própria existência dos homens gays e das mulheres lésbicas nesta terra, valorizando-os. 

Graeme Reid (1998:120) 

O Gay and Lesbian Memory in Action Project (GALA) surgiu nos anos pós-apartheid com o intuito de “recuperar” histórias de homossexuais, lésbicas, transgéneros e bissexuais sul-africanos que, segundo os registos oficiais durante o apartheid, nunca tinham existido. Sob este ponto de vista, GALA é simultaneamente um projecto reparador e activista. Ao compilar histórias de vidas precárias e desconhecidas, estas tornam-se, retrospectivamente, dignas de compaixão e valorizadas e erigem-se como base da reivindicação de direitos LGBTI no presente. 

Num contexto político opressivo, como criar espaço de representação? Como pode um público alternativo e precário ser completamente underground e, ao mesmo tempo, tornar visível a sua identidade de género, com auto-expressão? Tomando o caso de Fanfare, uma fanzine feita por transgéneros sul-africanos durante os anos 80 e início de 90, examinarei os modos como a circulação desta fanzine contribiu para criar uma espécie de visibilidade meio à socapa1 para a comunidade que nela participava, um espaço público alternativo onde quem escrevia podia, em segurança, ser visto e conhecido pelos outros. Numa segunda parte examinarei as formas como, no contexto pós-apartheid, o arquivo de Fanfare e os seus escritos são mobilizados. 

A fanzine fanfare e o ser visto à socapa 

O resto da sociedade vê-nos como gays, e assim beneficiamos das bases que os gays lançaram. Só que nós somos diferentes e então tentamos passar por mulheres, é esta a ironia da situação. Se formos bem sucedid(a)s, a sociedade nunca nos aceitará porque nunca nos vê! Só quando, por uma ou outra razão, somos mal sucedid(a)s é que reparam em nós. 

Joy Wellbeloved, Fanfare (1986:16) 

Wellbeloved alude ao contraditório estado de invisibilidade e de hipervisibilidade que os transgender experimentam quotidianamente. Ser “bem sucedido” significa não ser reconhecido como transgénero, mas reconhecido de acordo com o género com se escolheu, “passar por” ou não ser notado. Ser “mal sucedido” significa estar exposto, precário, em risco. Num clima político no qual a exposição podia implicar a perda de emprego, da família ou mesmo a prisão, sendo impossível a livre expressão de orientação sexual. Como é possível, num contexto político opressivo, criar espaço de representação? Como é possível passar despercebido e expressar a própria identidade – ou, dito de outra forma, ser visto à socapa? 

Os membros da Phoenix Society responderam a esta necessidade com a criação de Fanfare, uma fanzine que existiu entre 1984 e 1997, e que era um fórum para a circulação de histórias, fotografias, fantasias e artigos científicos. Michael Warner sustenta que aquilo que discursivamente cria um público, aquilo que o forma, é a constante circulação de textos por entre os seus membros. “Escrever para um público cria mundo, dado que este é parcialmente construído por via da sua afirmação e da sua caracterização.” Para sermos mais específicos, o público da Fanfare poderia ser descrito como perfazendo uma espécie de contra-público, dado que, para fugir à censura, os seus membros tinham vidas completamente underground. Na maioria dos casos os escritores conseguiam, nas suas vidas quotidianas, não dar corpo às suas verdadeiras identidades. 

Numa época na qual o refrão Out and Proud foi o grito do movimento do orgulho gay, passar pelo género escolhido é visto como indesejável. No entanto, como Pumla Gqola aponta, é simplista sugerir que ser visto corresponde sempre à posição de mais poder. Vezes há em que ser visto cria uma posição de perda de poder ou mesmo de opressão, como no caso da hiper-visibilidade das lésbicas negras nas townships sul-africanas, frequentemente vítimas de crimes de ódio. 

A historiadora de arte Patricia Hayes afirma que “há contextos em que não ser visto, ser invisível ou mesmo ser desconhecido têm sido e continuam a ser as opções privilegiadas, dando espaço e tempo para que as difíceis condições de existência social e de género sejam negociadas.”
A fanzine Fanfare tornou-se então o fórum onde os membros da Phoenix podiam escolher conscientemente, de que modo queriam ser vistos pelos outros. Por exemplo, nas páginas de fotografias da fanzine, os membros podiam submeter auto-retratos vestidos a rigor, completamente maquilhados e com belíssimas jóias. Neles, os sujeitos destas fotografias, enfrentando a câmara com confiança, pousavam em jardins ou apareciam sentados em salas com sofás. Outras fotografias mostravam as mulheres ao longo de diferentes momentos de se vestirem e se maquilharem. Nestas imagens, tiradas no espaço privado da casa, transparece uma sensação de intimidade e conforto. 

Mostrando uma visibilidade criteriosamente escolhida, onde os próprios termos da visibilidade eram ditados pelos sujeitos, estas fotografias apresentavam uma alternativa distinta ao “ser invisível” ou “hipervisível”. No campo de ação da comunidade textual que girava em torno de Fanfare, criou-se um público alternativo que operava dentro dos limites e restrições do clima político opressivo. Mal o Apartheid chega ao fim e a coleção da Fanfare se torna pública ao ser doada aos arquivos da GALA, e a visibilidade alternativa haveria de sofrer uma transformação. Analiso, na próxima seção, os modos como, num contexto de arquivo pós-apartheid, o texto será mobilizado. 

Fanfare no arquivo 

Veres-te impresso, e em papel, é uma garantia de imortalidade. Imagina os arqueólogos, daqui a dois mil anos, a folhearem os números antigos da Fanfare e a escreverem um artigo sobre ti! Que glória a tua! 

Wellbeloved, Fanfare (1989:16) 

Numa frase premonitória, Wellbeloved antecipa o momento em que, em 2013, escrevo sobre esta fanzine. Não passaram 2000 anos – se bem que quase parece, tendo em conta o que aconteceu na África do Sul desde 1989. Apenas passado um ano desta frase de Wellbeloved, Nelson Mandela foi libertado. Em 1994, nas primeiras eleições livres da história do país, o Congresso Nacional Africano (ANC) subiu ao poder. Num curto espaço de tempo, as leis do apartheid, sob as quais os colaboradores da Fanfare viviam, transformaram-se em algo que estudei no meu livro de História, onde se podia ler 10 Factores que Levaram ao Fim do Apartheid. 

Chegara o tempo a que Wellbeloved aludia no qual a Fanfare seria lida por um público completamente diferente, e teria nova visibilidade. Apesar de que os textos adquiram novos significados em arquivo, eles não se “aposentam”. Pelo contrário, na sua nova posição enquanto parte de uma coleção de arquivo, são mobilizados de novas maneiras e diferentes tipos de comunidades textuais formam-se à sua volta. A remediação do material da Fanfare em livro é um importante exemplo deste processo. 

Publicado em 2009, numa colaboração entre GALA e Gender Dynamix4, Trans: Transgénero Life Stories From South Africa é uma compilação de histórias de pessoas que vivem na África do Sul e se identificam como transgénero, baseada em entrevistas e história oral. A fundador da Phoenix Society e editor da Fanfare, Marlene, aparece no livro, tal como a colaboradora regular da revista e secretária da Phoenix Society, Wellbeloved. No seu interior, um fascículo a cores reproduz as capas de várias edições da Fanfare e algumas fotografias antigas (igualmente publicadas nas revistas originais) de Joy Wellbeloved sentada no bar de Marlene ou do único homem transgénero da organização, Charl, numa festa com a namorada a seus pés. Na legenda pode ler-se: 

As bases do actual ativismo transgénero foram lançadas nos anos 80, com a formação da Phoenix Society, uma organização para pessoas transgénero na África do Sul. A Phoenix Society publicava mensalmente uma revista chamada Fanfare… entre 1984 e 1997. 

Uma vez que os editores do livro têm o objetivo explicitamente ativista de “trazer os assuntos e as experiências dos transgénero para o mainstream... [para que] mais um passo seja dado para futuramente deixarem de existir, na África do Sul, jovens transgénero a crescerem isolados e em desespero” (Manio e Theron, 4), a revista Fanfare pode ser vista como lançando as bases do próprio livro. As atuais e futuras pessoas transgénero formam o público a quem o livro se destina. Enquanto nos anos do apartheid a comunidade textual de Fanfare se limitava aos membros da Phoenix Society, no pós-apartheid esses textos foram utilizados para mobilizar uma mais ampla visibilidade pública para os transgénero sul-africanos, cujas vidas continuam precárias, não obstante as importantes mudanças constitucionais que protegem o direito à liberdade de orientação sexual. 

Neste contexto de arquivo, os textos são mobilizados para contarem e fazerem história(s) e formam-se novas comunidades em torno da (re) circulação destes textos. Michel Warner sustenta que “os públicos têm uma vida contínua: eles não são publicados de uma vez por todas (como acontece, por exemplo, com um arquivo académico)”. No entanto, é precisamente no seio destes arquivos (académicos ou outros) que mediações alternativas de material (e mobilização de públicos) se tornam possíveis. GALA é responsável por voltar a mediar os textos que selecionou e pela sua inserção em narrativas organizadas, consideradas apropriadas para os interesses atuais da organização. GALA, construída pela valorização do passado, é uma organização que olha presentemente para o futuro, um futuro onde “não haja, na África do Sul, jovens transgénero a crescerem isolados e em desespero”. 

 

Referências bibliográficas 

BUTLER, B. (2004) “Mourning, Violence and Politics” e “Precarious Life” in Precarious Life: The Powers of Mourning and Violence, Verso 

PUMLA, G. (2008), Go Home or Die Here: Violence, Xenophobia and the Reinvention of Difference in South Africa

HAYES, P. (2005), “Visual Genders” in Gender and History, Vol 17(3). 

FANFARE, M(1987), Phoenix Publications 

MARTIN, K. e REID, G. (1998), “Dogs on Wheels
and More Mainstream Memorabilia: The Gay and Lesbian Archives of South Africa” in The Right to Be: Sexuality and Sexual Rights in Southern Africa

MORGAN, M. e WELLBELOVED, J. (2009), Trans: transgender Life Stories From South Africa, Auckland Park, Jacana Media 

WARNER, M. (2002), “Publics and Counterpublics” in Public Culture 14. 

WELLBELOVED, J. (1989), Fanfare, Phoenix Publications 

 

Publicado no livro Este corpo que me habita, BUALA 2014

  • 1. N.T. O título original deste artigo é “Stealth Visibility and Precarious Publics”. Stealth é uma expressão de difícil tradução, podendo dizer respeito ao acto ou à ação de proce- der à socapa furtiva, secreta ou imperceptivelmente (em geral), como ser utilizada para significar o comportamento de um transexual que vive integralmente na pele do seu novo género, sem nunca revelar ser transexual. Dada a ambivalência dos seus significados e o espectro de utilizações possíveis da expressão que muitas vezes encabeça títulos de secções ao longo do texto, optámos por traduzir stealth por ver ou ser visto à socapa.

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