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Sinceridade radical… o passado nem sempre passou

Cara Marta,

O primeiro texto que escrevi para a Dá Fala (que precede o BUALA) foi no ano de 2004 em Cabo Verde sobre o Terceiro Cinema. Falava de questões de representatividade. O profundo desenlace que é valorizarmos o nosso quotidiano, a nossa vida e as nossas estórias. Foi o que fiz ao longo destes meses neste espaço em que me ofereceste voz.

O maior erro do oprimido, do recalcado é deixar ou perder de si a sua presença e voz. Ela é mais poderosa do que consideramos e mais reveladora com a transparência, foi esse o meu plano: levar-me com humor e honestidade. Sem medo do indefinido e do percebido. Escrever é um acto de coragem que sempre pautou a humanidade de heróis e acima de tudo cidadãos. Escrever é um acto de participação e modéstia, de coragem e determinação assim também vejo o cinema ou qualquer outro meio de expressão colectiva. Assim, do público ao pessoal existir é preciso. Nada é mais horizontal que a participação coletiva nesta vasta aldeia humana e quanto mais vozes mais a horizontalidade. Falaremos menos do Trump e mais de nós. Transgéneros, LGBT ou qualquer outro grupo que se sente resvalando a um escuro de representatividade. A uma violência contínua de negação de voz, corpo ou e até personalidade. Escrever é dizer “Eu existo. Estou aqui. Antes de tudo sou sujeito, penso, vivo e corro como os outros no rio desta vida. Sigo aqui a escrever em letras e em audiovisual quando posso. O meu imprint feito neste papel ou numa barra digital é a mesmíssima missiva – existo!

So What? Diria o Warhol. Compete-me reclamar espaço para as minhas questões, necessidades e afirmações. Não anda fácil, estamos de novo a viver períodos de ainda mais recalcamento e até aprisionamento, com ou sem Covid 19, ventos de revolução não os sentimos nem por sombras. Surge um Diem 25 que parece querer reclamar o sonho de uma união mais alargada aos espaços globais digitais e, no entanto, também não parece ser solução. É um princípio. Como resposta a uma gigante pegada do mundo dos mercados parece anedota. Uma formiga a questionar-se antes de ser esmagada. Estamos perante um fim anunciado no qual o futuro mais se assemelha a uma China, com ou sem partido central, observadora de comportamentos humanos ao mais ínfimo pormenor, com escala de pontuação social. Sociedades observadoras, sim, mas tendenciosas como tudo. George Floyd é exemplo de que aquilo que é captado por nós cidadãos é mais do que relevante. As câmaras funcionam como armas de auto-defesa, pontualmente, num sistema que se cega a si mesmo, com tanta segurança desmedida. Parece o panóptico do Foucault a uma escala nunca antes imaginável. 

Amar nestes tempos é um gesto revolucionário, como o foi em tantos outros, não aparece sem ser algures um comando de retorno ao que é significativo na vida – as relações. Por muito que os sistemas queiram negar ao humano o humano, como poderá ele deixar de ser? Nada é mais pequenino e gigante do que isto. Nada mais perigoso aos sistemas de autoridade bruta e cega do que o nosso sentimento de perda de um rapaz esmagado pela ignorância. Está tudo ali! Somos todos George Floyd – mal respiramos com tanta violência sistémica, tanta ignorância vigente. O meu coração re-despertou para um amor esmagado no passado e que não deixou de sobreviver – estranha Resistência esta a do coração que parece tão fraco e, no entando, in the end, que estranha força tem. Lá no fundo do fundo do escuro surge uma luz de carinho que nos vai emergindo para a vida. Jung falava de sombras e a Noite Escura da Alma como uma fase importante na integração da totalidade da pessoa humana. O processo alquímico de individuação que faz parte da vida colectiva daquilo que é ser humano. Sempre me perguntei se este termo poderia ser aplicado a todos ou só àqueles que demonstrem verdadeiras qualidades humanas.

Marta, e aqueles polícias? Humanos? A farda que enche o mundo de anónimos instruídos pelas vestes de uma imunidade a ser pessoa. Que faz ainda num mundo que já entendeu tudo? É que entender não basta, é preciso aplicar e, para se aplicar, é preciso grupos e coletivos que assim o desejem manifestamente. O Trump foi eleito por um grupo e um coletivo que deseja ver aplicado o seu domínio de ignorância no país que parece estar no leme do mundo ocidental. Um leme de influência sem fim anunciado, por mais negativa que seja a sua conduta. Brutamontes e investidores ceguetas, empoderados por uma populaça sedenta de carismas de reality TV. Onde está a oposição destes ogres? Como o George Floyd: mal respiram a caminho de um fim. Restam-nos as ondas de solidariedade passageira no Twitter como esperança que algo vai destronar o Tirano, mas bolas, nem o Covid lá chega. São pequenas brisas de mudança que depressa desvanecem. Como as medidas desproporcionais aplicadas aos poucos humanos que apareceram para se manifestar. Não se trata de um ligeiro backlash aquilo que vivemos, de modo algum estamos a falar de um backlash. Estamos perante uma ditadura que aplica forças uniformizadas e desumanizadas como bem lhe apetece. It’s back e é preciso amar agora como se amou nos anos 70, contra a brutalidade, e isso é instrumento da história recente americana. Será que irão aplicar essa medida de poder alternativo? In Extremis? Seria uma repressão ainda mais forte do que nos anos 70, muito mais violenta ainda porque nestes tempos o Robocop já se manifesta tal como as máquinas que vendem chocolates. É só pôr a moedinha e, zás, faz o que se espera deles.

foto de Monika MacDonaldfoto de Monika MacDonald

Humanos? Já nem todos temos o privilégio de o ser. Pergunto-me por mais quanto tempo irei eu ser? Amo ainda e isso é bom sinal. Sinal de vida interior que não foi esmagada por estes tempos, mas Marta, pergunto-me como não? Ahah… como não? Porque o coração sobrevive e tem uma força única que se estende muito além do corpo. O corpo é aliás muito pouco do humano e isso é a força da flor leve com que se adorna os cabelos hippies ou os canos das espingardas de Abril. Os gestos que milagrosamente redobram a presença do humano, como se tratasse de uma força que habita exterior ao corpo e só encarna na vida que a aceita. Ser Humano e não Humano como dado adquirido. Amor pela flor que habita o outro pela de todos. O que são aqueles polícias? Máquinas, Marta, feitas pelo sistema. Homens roubados da humanidade que era o seu direito de berço. Eles próprios mortos antes de matarem. Eles próprios mortos vivos. O sonho americano cheio de mortos vivos. Heil Hitler!!! Heil Trump!!! Heil seja que farda for… isto chega a ser aborrecido, não fosse tão violento.

foto de Monika MacDonaldfoto de Monika MacDonaldApanhei uma nova leitura da identidade Trans associada a uma sinceridade radical. Que quererá isto dizer? Que, por defeito, estamos obrigados a resolver uma questão de sinceridade cedo na vida. Uma questão de liberdade, cedo na vida. Perguntei-me se as sociedades de capitalismo agressivo e sistemas neoliberais têm tempo ou espaço para considerar estas questões. Muito pouco ainda, mas lá vai surgindo no pano de fundo da vida e apenas para poucos. Os outros, está claro, elegeram Trumps, Bolsonaros, etc. O humano cada vez mais reduzido a pó de populismo, sem tempo sequer ou alcance para votar em consciência. Questões que se colocam desde o berço da democracia: como vota quem vota. Estamos a braços com a ineficácia do sistema democrático e os ditadores como opção. Falta nos councils seguros desta palhaçada, mas até o senado americano já parece uma mera casa de Big Brother também com aquela encenação do impeachment a Trump. Este personagem consegue reduzir tudo a um nível de peixeirada, como por magia. É esse o seu maior perigo, mas também o espelho de como as democracias ficam fragilizadas pelo populismo. Responder-lhe é sempre um gesto de engagement e isso é garantia de que tudo irá por água abaixo. Quem poderá, de forma legítima, retirar o Donald Trump do poder? Para mim é a Michele Obama que parece ter nascido com um  indiscutível grau de sensatez e classe. Só uma figura não redutível a Trampa pode fazer esse engagement com ele e deixar cair por terra o cócó todo que ele projeta na sua aura de acção. Seria a verdadeira Guerra de Mundos porque uma mulher negra a desafiar o mundo republicano americano é o melhor versus possível. Olha, no bullshit! A questão central. Quem não gostaria de assistir a esse debate? Senhora livre-nos destes tempos e meta lá o sósia do joker no manicómio da Marvel? É que eu gosto da Marvel e da Gotham city e isso, mas é em filme ou BD, não como ordem vigente na América e seus simpatizantes. 

foto de Monika MacDonaldfoto de Monika MacDonald

Volto a mim. Chega de Trump! Estes anos de auto-descoberta e sinceridade foram duros mas encontrei o meu coração lá atrás perdido numa encruzilhada de vida onde não tomei a decisão certa. E agora? Viver sem admitir erros é para máquinas, e eu sou humano. Falível, idiota e frágil como manda a flor dos canos das espingardas de abril. Vou assim conversando com o meu amor e limpando a merda que me impediu de ser feliz logo ali aos 30. Um processo de clarificação que vai emergindo em camadas, com ajuda. O carinho é como musgo e vai entrando no deserto em que me encontrava, 20 anos depois. A quarentena sem deixar que se imponham as tarefas sobre o que é mais importante – as relações humanas.

Quando escrevi faz tantos anos sobre os mágicos teóricos do Terceiro Cinema, havia no ar uma esperança que o progresso estava para continuar e foi fácil alertar para as nossas narrativas como significativas. Volvidos tantos anos, a tarefa é mais complexa mas fica ainda assente o mesmo alerta – a tua estória a tua História. Estes rasgos de continuidade sabem muito bem. É que a Nova Ordem Mundial confunde Ordem com Regime e de ordem não percebem nada, a ordem é difícil como tudo, por isso é que aparecem regimes que fazem passar formatação por ordem em desespero tentam impor aquilo que existe e só com muita gentileza atinge ordem. A quarentena veio mexer em tudo e trouxe consigo algumas pacificações, não fosse tudo um intervalo num filme da Marvel estava até OK, mas é que o tal dito cujo continua no poleiro do mundo ocidental. Intervalo? Não me parece muito provável que o vá dar. Estamos todos reféns deste cromo. Vai ter que ser a rir do palhaço ou a palhaçada não acaba. Ando a divertir-me com a qualidade da disrupção que os democratas vão fazendo. Nunca aquele partido teve um nome tão significativo. A democracia está em causa ali como no Brasil, está em causa com ditadores que se ergueram como palhaços mas chegaram ao poder e só devem cair quando nos rimos e muito deles. 

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