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Sujeitos a um corpo sem voz. Sujeitos de um corpo voz

No camarim…

“Nunca saio de casa sem maquilhar…

porque é a forma de eu exteriorizar o meu Eu, aquilo que Sou”(Kiki)

1 da série Sujeitos a um corpo sem voz. Sujeitos de um corpo voz, Fotografia Rita Rainho, 2013.1 da série Sujeitos a um corpo sem voz. Sujeitos de um corpo voz, Fotografia Rita Rainho, 2013.

Combinamos o encontro hoje, no camarim. Éramos quatro e as imagens reflectidas nos espelhos em volta, traduziam projectos de fuga a um quadro heteronormativo – corpos tensionais e intencionais.

Viajamos num ritual de maquilhagem, evadidos de um corpo que recusa o quadro, reentrando nele e vivendo-o como uma tela de inscrição (Fortes, 2013) para outros desejos. Diante e perante um espelho desencadeiam-se tensões entre o sujeito e os quadros socioculturais de uma sociedade que, “calada” perante esses corpos, invisibiliza esses sujeitos e os seus projectos de afirmação de pertenças identitárias. Corpos – lugares de manifestações. Corpos – eles próprios, manifesto (Almeida, 2004).

Um cenário, várias máquinas, o mesmo clique: produzindo fotografias binárias

Existem fotografias a preto e branco, coloridas, perfeitas e bonitas (que ficam na sala), íntimas (que ficam no quarto). Existem poses apropriadas (para BI, Passaporte, Cartas de Condução, para Sócio de Clubes, etc), poses ousadas (para despertar interesse sexual, erótico, por exemplo).

As fotografias revelam-nos aos Outros. Registam o nosso compromisso de aceitação das regras de um jogo social – mas seguir essas regras obriga-nos a poses vazias do Eu, contrariadas de subjectividades, imperfeitas.

3 da série Sujeitos a um corpo sem voz. Sujeitos de um corpo voz, Fotografia Rita Rainho, 2013.3 da série Sujeitos a um corpo sem voz. Sujeitos de um corpo voz, Fotografia Rita Rainho, 2013.

As molduras que guardam e aceitam essas fotografias “perfeitas”, normativas, são guardiões de um quadro social e cultural que, no que se refere às identidades de género, também é normativo e moralista. Um quadro homogéneo, amante fiel de fotografias binárias e heterossexuais. As casas cabo-verdianas muito dificilmente aceitam fotografias que poderiam colocar em perigo as suas paredes, historicamente edificadas, sobre os argumentos de uma sociedade patriarcal e machista. Entre grades de uma história que é sempre produzida por um grupo dominante que, para legitimar o seu projecto de nação, cria um quadro de pertenças e de exclusões.

 Para além do interesse em transmitir para lá das paredes da intimidade, a ideia de perfeição, correspondendo às expectativas sociais e culturais, as fotografias traduzem também os poderes inerentes às configurações destas relações íntimas e colectivas: homens e mulheres dispõem-se para as máquinas a partir de códigos de poder. Fotografias de famílias, homens em pé, abraçados às suas esposas, quando estas não estão sentadas, os filhos – eles servem de razões legitimadores de masculinidade e feminilidade – também sentados, muitas vezes no chão.

As razões da busca pela fotografia “perfeita” devem ser procuradas no contexto histórico da formação da sociedade cabo-verdiana. Uma compreensão que pretenda ir para além das amarras destas leituras binárias terá de viajar pela história cabo-verdiana.

Lá onde estão guardadas as raízes de um projecto (colonial) que teve, como aliado a igreja católica. Instituição que procurou ajudar na legitimação da dominação masculina (Semedo, 2009).

Lá, onde o cenário das relações de género e das construções colectivas dos sentidos de ser homem e mulher legitimam os discursos das fotografias patriarcais-binárias.

Cabo Verde, sociedade nascida da colonização portuguesa, no atlântico sul. Marcada pelo encontro de gentes e socioculturas, corpos negros e brancos, corpos livres e escravos em relação, forçada muitas vezes. Corpos diferentes em competição – sexual sobretudo (Fortes, 2013; Rodrigues, 2003, 2005) para a criação de um contexto sociocultural miscigenado (Mariano, 1991). Corpos que contrariam o projecto colonial inicial que, com os seus aliados se posicionavam contra a possibilidade de encontros corporais e sexuais, tanto extraconjugais como também e sobretudo, extra “grupais”/raciais (brancos e negros).

A colonização portuguesa no arquipélago cabo-verdiano procurou por vários meios a imposição de um sistema de relações sociais de separação dos grupos sociais. Mas o projecto fracassou. Prova disso é a existência de múltiplos modelos de organização familiar, que contradizem o projecto de família normativa e patriarcal – nuclear, a partir do casamento e de relações monogâmicas (Martins e Fortes, 2011) e a existência de práticas de poligamia informal (Carreira,1977).

Embora se tenha verificado o enraizamento de discursos e práticas de dominação masculina e que procuram colocar as mulheres – não sem resistências por parte delas – num lugar de subordinação.

Mas talvez as fotografias sejam os únicos lugares garantes desse projecto de normatividade, preocupadas em produzir uma realidade estática, parada, colocada no modo pause – esquecendo-se que as realidades são múltiplas e antagónicas.

2 da série Sujeitos a um corpo sem voz. Sujeitos de um corpo voz, Fotografia Rita Rainho, 2013.2 da série Sujeitos a um corpo sem voz. Sujeitos de um corpo voz, Fotografia Rita Rainho, 2013.Outras poses, outros cliques: fotografias anormativas, compondo outras molduras.

Em Cabo Verde vive-se, actualmente num contexto que insiste em cristalizar discursos e pertenças heterossexuais, dando protagonismo a corpos masculinos legitimadores daquele projecto patriarcal e machista. Muitos, inquietados com o olhar sentenciador e/ou aprovador, dos outros, rendidos à normatividade social, vivem na clandestinidade dos corpos, fechando-se para dentro de si.

Contudo os quadros normativos muitas vezes acabam por desencadear contestações. Encontramos corpos, Outros, que assumem o desafio de uma participação não passiva. Sujeitos a um corpo sem voz, sujeitos de um corpo voz.

Kiki e Paulo são os protagonistas dessa proposta de análise dos usos do corpo enquanto lugar de manifestação de pertenças, Outras, que fogem às poses convencionalmente aceites e que procuram introduzir nos cenários já existentes possibilidades de outras poses identitárias, mais próximos dos desejos subjectivos, do Ser. Os seus corpos tornam-se para eles O manifesto.

Assumindo as dificuldades desses corpos em se tornarem presentes no quotidiano, não se inibem contudo em fazê-los presentes. Esses corpos onde habitam identidades, conflituantes com o quadro heteronormativo, vivem numa arena de diferendos quotidianos e o grande desafio é combater os discursos legitimadores de uma sociedade machista e patriarcal.

Posicionando contra os discursos e olhares que resistem à ideia de abertura de possibilidades para lá desse quadro binário. Lutam a favor do argumento de que os nossos sentidos de ser além de serem compósitas (Strathern, 1998) estão sempre em construção (Agier, 2001).

O que significa que apesar de vivenciarem alguns constrangimentos em se fazerem presentes, esses espaços são importantes para construírem os seus projectos de pertença. Os olhares e posições ainda que reprovadores servem para se construírem enquanto corpos políticos

A nossa proposta de leitura da sociedade cabo-verdiana a partir desses Corpos, Outros, é a de pensar Cabo Verde, os lugares e os espaços ocupados por esses corpos assim como os seus limites de possibilidade de afirmação.

4 da série Sujeitos a um corpo sem voz. Sujeitos de um corpo voz, Fotografia Rita Rainho, 2013.4 da série Sujeitos a um corpo sem voz. Sujeitos de um corpo voz, Fotografia Rita Rainho, 2013.

Procuramos evidenciar as suas potencialidades para um activismo social, reformulador dos quadros binários, bem como os palcos e cenários (Goffman, 1993) onde se fazem presentes, nas suas multiplicidades. Palcos relacionais, importantes para a definição do Eu, do Nós e dos Outros.

Mas não buscamos argumentos universalizantes, que procuram também eles encarcerar essas pertenças (em conflito com a sociedade) num grupo homogéneo, essencialista e vitimizante. Por agora, procuramos localizar as suas biografias dentro de um contexto micro e local. E por outro lado, parece-nos também importante que os diálogos identitários sobre a construção da homossexualidade no contexto cultural cabo-verdiano sejam estabelecidos também com outros idiomas identitários como seja as pertenças de “classe”, por exemplo.

Se durante alguns anos, esses corpos foram lugares de prisão dos desejos subjectivos, se durante momentos biográficos como a infância e a adolescência incorporaram (Almeida, 2004; Ferreira, 2007) as normatividades familiares, sociais e grupais e familiares. Outros momentos foram importantes para se soltarem das amarras sociais, excorporação (Ferreira, 2007) dos desejos subjectivos.

Projecto de acção-investigação de Celeste Fortes e Rita Rainho.

 

Referências

Agier, Michel, Distúrbios Identitários em tempos de Globalização, Revista Mana: Estudos de Antropologia Social, 2001, 2.

Almeida, Miguel Vale de, O manifesto do corpo, 2004, Manifesto, 5,18-35.

Carreira, António, Cabo Verde: Classes Sociais, Estrutura Familiar, Migrações, Lisboa, Ulmeiro, 1977.

Ferreira, Vítor Sérgio, Marcas que Demarcam. Corpo, tatuagem e Body Piercing em Contextos Juvenis, Dissertação de Doutoramento, Sociologia, ISCTE, 2006.

Ferreira, Vítor Sérgio, Política do corpo e política da vida: a tatuagem e o body piercing como expressão corporal de uma ética da dissidência, Etnográfica, 2007, 11, 291-326.

Fortes, Celeste, O corpo negro como tela de inscrição dinâmica nas relações pós-coloniais em Portugal: A Afro como (pre) texto, Caderno Pagu, 2013, 4, no prelo.

Goffman, Erving, A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias, Lisboa, Relógio d’Água, 1993.

Martins, Filipe; Fortes, Celeste, Para além da crise. Jovens, mulheres e relações familiares em Cabo Verde, (Con)textos. Revista d’antropologia i investigació social, 2011, 5, 13-29.

Mariano, Gabriel, Cultura Cabo-verdiana. Ensaios, Lisboa, Veja, 1991.

Rodrigues, Isabel P. B. Fêo, “Islands Of Sexuality: theories and histories of creolization in Cape Verde”, International Journal of African Historical Studies, 36, (1), 2003, 83-103.

Rodrigues, Isabel Fêo, “’Our ancestors came from many bloods’. Gendered narrations of a hybrid nation”, Lusotopie, 2005,  12, 1-2, 217-232.

Semedo, Adilson F. Carvalho, Religião e Cultura: A influência da Igreja Católica na Reprodução da Dominação Masculina, Porto, Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, 2009.

Strathern, Marilyn, “Novas Formas Económicas: um relato das terras altas da papua-nova guiné”, Mana, 4 (1), 1998, 109-139.

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