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e pedir escusa de vez?

o Presidente da República instou os jovens a empenharem-se em “missões e causas essenciais ao futuro do país” com a mesma coragem e determinação com que fizeram os militares que participaram há 50 anos na guerra em África.

“Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar”, afirmou o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva.’

só mesmo num país completamente obnubilado e destituído de memória ou noção mínima da história, onde os jornalistas se encarniçam a pescar sound bites sobre guerrilhas políticas do momento, é que estas duas frases surgem, assim, sem relevo nem sublinhado, no meio de uma notícia cujo título é, ainda por cima neste extraordinário português, ‘cavaco escusa fazer qualquer comentário sobre crise política’.

dizer que quem foi alistado para a guerra de áfrica o fez com ‘desprendimento’ , ‘determinação’ e ‘coragem’ e que essa guerra foi, por analogia, ‘uma missão ou causa essencial ao futuro do país’ ultrapassa tudo o que devíamos estar dispostos a ouvir de um presidente da república em democracia.

não está obviamente em causa discutir o sentido de homenagear quem combateu e morreu numa guerra estúpida e criminosa, ainda que com a noção de que muito de pavoroso se fez em nome da ditosa pátria bem amada. mas pedir aos jovens de hoje que sigam o exemplo dos que foram obrigados a combater, a matar e a morrer numa guerra sem sentido ecoa, sem distância, o ‘para angola e em força’ do presidente do conselho no terreiro do paço.

isto é inaceitável e insulta a memória de todos os mortos e estropiados desta guerra. nada, mesmo nada do que até hoje ouvi a cavaco chega perto desta enormidade. este homem não está, definitivamente, à altura do cargo que ocupa.

mas, de facto, quando se ouvem pessoas, a propósito de uma manif, dizer que é o segundo 25 de abril, ou que ‘antes’ — no antes em que se ia para a guerra sem saber ler nem escrever e sobretudo sem poder escolher a não ser a deserção e o exílio — era melhor ou igual, se calhar isto faz sentido. como deve fazer sentido que nenhum dos países onde essa ‘guerra em áfrica’ teve palco faça mais que levantar as sobrancelhas. que tristeza.

Fernanda Câncio, no Jugular 

 

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