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INAUGURAÇÃO DA EXPOSIÇÃO Fotógrafos – Viajantes & Viagens de Fotógrafos

INAUGURAÇÃO DA EXPOSIÇÃO Fotógrafos – Viajantes & Viagens de Fotógrafos, dia 29 de Setembro quinta-feira às 22:00

“O viajante, no seu movimento incessante, vê tudo à distância. Silhuetas recortadas contra a paisagem. Imagens arquitecturais se destacando no horizonte. Pessoas e lugares que pretende encontrar depois da próxima curva. A viagem é produção de simulacros, de um mundo puramente espectral erguido à beira da estrada.1

Em registo fotográfico, presentificam-se as imagens de existências, encenações e/ou simulacros com tópicos de genuinidade. Assim se demonstram subjectividades de autores nos territórios estéticos da fotografia.

Numa fotografia, supostamente, congela-se o tempo e o espaço. Congelam-se as figuras individuadas no tempo pois deixam de ser pessoas e talvez sejam, transitoriamente, personagens. Estas localizam-se ou ausentam-se, consoante os casos e as estratégias estéticas dos autores. Inequívoca é a decisória presença do fotógrafo-viajante, aquele que concretiza acto e obra. Não é verdade?


“Em minha opinião, não há nenhum mais atraente do que andar no encalço das próprias ideias, tal como o caçador persegue a caça, sem procurar manter um dado caminho.”2

O próprio fotógrafo-viajante torna-se visível – em proposição de auto-retrato – ou oculto, consoante sua intencionalidade ou desejo. Mas é a sua afirmação de sujeito/agente artístico que determina a produção das fotografias que o “antecedem”, o estimulam e o acompanham a posteriori. Através do seu acto, que concebe e concretiza obra, mantém laços com as imagens fotográficas, conferindo-lhes – ad simultaneum – autonomia e projecção. Os fotógrafos-viajantes cativam pessoas e lugares, convertendo-os, respectivamente, em figuras/personagens e em paisagens. As paisagens, com alguma frequência, correspondem a tempos de respiração, quer do pensamento, quer da acção/actividade do fotógrafo. O ritmo da viagem decide os intervalos na paisagem, as consequências de sobrevivência de ideias ou de substâncias. Fragmentos, parcelas ou secções presidem às escolhas espontâneas ou morosamente destinadas pelo autor em jornadas, caminhadas e/ou transportando-se.

O veículo em que se desloca condiciona o ritmo da captação de imagens; os momentos em que dispõe uma paragem ou a continuidade do seu movimento. As tomadas de vistas são distantes, conforme o viajante as realiza enquanto condutor de um automóvel (p.ex.) ou não. Assim, está-se perante tomadas de vista com ponto de fuga numa estrada ou encarada na lateral, esperando aquilo que se vai descortinando. Se a deslocação ocorre num com boio, a ambiguidade relativa entre a paisagem (aparentemente em movimento) e a ilusão hierática do viajante, gera imagens de uma cativação insustentável e precária. A paisagem que é consequente da mobilidade da viagem anatomofisiológica assume pressupostos diferenciados de uma viagem de indexação psicofisiológica…e assim por diante. A viagem preenche, recheia ou esvai a paisagem, propiciando um reentrar no si mesmo do fotógrafoviajante: “A paisagem em volta esvaziada de sentido, reflectindo-se nos meus olhos, brotava dentro de mim…”3

Definitivamente as pessoas alocam-se a lugares – mesmo que estes se possam configurar, teoricamente, enquanto “não-lugares” (seguindo Marc Augé) e, consequentemente, os espaços efectivos transcendem o tempo real, expandindo-se e adquirindo uma simbologia transfiguradora – independentemente do seu índice ou percentualidade documental.

“Julgamos que nos libertamos dos lugares que deixamos para trás de nós. Mas o tempo não é o espaço e é o passado que está diante de nós. Deixá-lo não nos distancia. Todos os dias vamos ao encontro daquilo de que fugimos.” 4

Seja um deambulador, flâneur, Wanderer, peregrino, caminhante et allie viajantes…os fotógrafos asseguram-nos a autenticidade, a ilusão…enfim…as confluências de imaginário e real que definem o humano.

 

Fátima Lambert

  • 1. Nelson Brissac Peixoto – “Miragens”, Cenários em ruínas – a realidade imaginária contemporânea, Lisboa, Gradiva, 2010, p.137
  • 2. Xavier de Meistre, Viagem à roda do meu quarto, Lisboa, & etc, 2002, p.25
  • 3. Yukio Mishima, O templo dourado, Lisboa, Assírio & Alvim, 1985, p.148
  • 4. Carlos Drummond de Andrade – “Mãos dadas”, Antologia Poética, Lisboa, Dom Quixote, 2002, p.149

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