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Largo da Peça, de Ana Andrade – Elinga Teatro I LUANDA

Dias 21, 22, 23, 28,29, 30 de Outubro, às 19 horas, no Elinga Teatro. E dias 4, 5, 10, 11, 18, 19 de Novembro, às 19 horas.

Sinopse

Esta peça situa-se numa época de transição política e social, logo após a Independência de Angola, num quintal da zona antiga, dos primórdios da colonização da cidade de Benguela. São protagonistas algumas mulheres unidas por laços de família alargada tradicional. Celebram o regresso de um filho há muito exilado e confrontam-se com dramas individuais e colectivos de seres humanos expostos, na sua fragilidade, à inexorabilidade histórica.

Autora

ANA ANDRADE. Nasceu em Benguela e viveu a maior parte da vida em Luanda, onde actualmente reside. Estudou História, , trabalhou no Arquivo Histórico de Angola e em outras áreas do Ministério da Cultura como produtora cultural. No teatro trabalhou como atriz no Grupos de Teatro Tchingange, Teatro Xilenga, Teatro del Disgelo e Elinga Teatro de que é membro fundador. Fez adaptação de textos teatrais e realização para teatro radiofónico para a Rádio Nacional de Angola, traduções literárias e produção cultural para várias instituições. A sua obra “Largo da Peça” foi premiada pelo Concurso de Textos de Dramaturgia, do Projecto “Leituras Assistidas” do Centro Cultural do Brasil em Angola em parceria com o Clube de Leitura da Mediateca do Cazenga, em 2021.

Coordenação e produção

ORLANDO SÉRGIO. Nasceu em Malange. Estudou teatro no Conservatório de Lisboa e participou como actor em variadas peças teatrais de grandes companhias e em muitos filmes portugueses e angolanos. Em 2001 retoma a atividade teatral no Elinga Teatro de que é membro fundador e em outras associações, trabalha teambém em cinema e televisão como actor. Entre os seus trabalhos mais significativos como actor estão: “Othelo” de William Shakespeare como protagonista, Dir. de Joaquim Benite; Woza Albert”; “Disputa”—Marivaux ,Teatro Trindade Dir. João Perry; “A Missão” de Heiner Müller, Teatro Cornucópia Dir. Luís Miguel Cintra; “Quem me dera ser Onda”—M. Rui Monteiro, Elinga Teatro, Dir. Cândido Ferreira, Premio melhor peça do ano e melhor actor; as séries Conversas No Quintal, “Minha Terra

Minha Mãe” TPA; “Caminhos Cruzados” Óscar Gil Produções. No cinema, “O Herói”, de Zezé Gamboa; “Corte de Cabelo”, de Joaquim Sapinho. Para além de actor, Orlando Sérgio é também produtor.

Encenação

JOSÉ MENA ABRANTES. José Mena Abrantes nasceu em Malanje. Estudou Filologia Germânica em Lisboa, e em 1967 começou a fazer teatro com o luso-brasileiro Luís de Lima, o português Fernando Gusmão e o argentino Adolfo Gutkin. Com este último fez na Fundação Gulbenkian, em 1969, Cursos de Actuação e Direcção Teatral. Em Frankfurt/Main, dirigiu em 1973 o grupo La Busca, e foi assistente convidado do argentino Augusto Fernandez.

De regresso a Angola, foi co-fundador do Tchinganje, primeiro grupo a apresentar uma obra de teatro na Angola independente (28/11/75), e do grupo Xilenga (1976-1980). Criou em 21/5/1988 o grupo Elinga-Teatro, que dirige até hoje. Publicou vinte peças de teatro (uma delas em co-autoria com o português Rui Zink, o cabo-verdiano Abraão Vicente e o brasileiro Ivam Cabral), três livros de ficção, três de poesia e vários estudos sobre o teatro e o cinema em Angola. Membro da UEA e membro fundador da Academia Angolana de Letras. Vencedor do Prémio Sonangol de Literatura de 1986, 1990 e 1994. Vencedor ‘ex-aequo’ do 1o Prémio de Poesia da Associação Chá de Caxinde e do 2o lugar do Prémio PALOP’99 do Livro em Língua Portuguesa (2000). Recebeu em 2006 o Diploma de Mérito do Ministério da Cultura de Angola pela sua “significativa contribuição ao desenvolvimento da dramaturgia em Angola”. Prémio Nacional de Cultura e Artes em 2012, na categoria de Literatura.

ELENCO:

Personagens

Mãe
Tai
Michiko

Teresa Bombo

Filho

Cabral

Tropa 1

Tropa 2

Actores

Yolanda Viegas
Luzolo Amor de Fátima

Luz Feliz
Bernardete Mukinda

João Paulo Eleveny

Toke Esse
Madaleno da Fonseca

Honório Santos

Equipa técnica:

Encenação e cenografia – José Mena Abrantes

Produção e Direcção de Actores – Orlando Sérgio

Iluminação e som- Paulo Cochat

Figurinos e maquilhagem – Anacleta Pereira

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Texto de Filipe Correia de Sá sobre a peça

Filipe Correia de Sá é escritor e jornalista e autor do livro “Tala Mungongo”, 1995, adaptado ao teatro pelo escritor e dramaturgo José Mena Abrantes e levada à cena pelo Elinga Teatro.

A propósito de “Largo da Peça”, de Ana Andrade….

O Largo da Peça é referido com tendo sido a primeira praça da cidade de Benguela. Para ali convergiam as caravanas dos negociantes de cera, marfim e borracha provenientes de zonas tão distantes como o Bié. Bordejada por casas comerciais e de habitação de considerado prestígio, centro comercial por excelência, foi também ponto crucial na defesa da cidade com a instalação, no século XIX, do canhão crismado de peça no local que depois virou jardim, já no século XX .

A tudo quanto sabemos sobre este Largo junta-se agora esta peça em 3 Actos de autoria de Ana Andrade. Benguelense, ela própria.

Aqui já dá para entender a fluidez deste trabalho literário, porque só alguém que tenha vivido profundamente imersa na realidade desta urbe podia colocar, assim, nas luzes da ribalta, um microcosmos que desfila perante nós uma época, que faz pressentir outras, e suas gentes, usando os ingredientes mais comuns do quotidiano, incluindo a multidimensionalidade das personagens que dão corpo a esta história. Fora de um tempo histórico, mas aflorando- o, definitivamente emergindo das águas profundas da arte da escrita.

Esta peça, subtraindo-se à história, vive do “garimpo” da prodigiosa memória da Ana Andrade, aliada a um evidente talento literário.

O termo “garimpo” tomei-o emprestado a Luandino Vieira que, numa entrevista ao jornal O Globo (17.11.2017) afirmava: “tenho as minhas memórias para garimpar”. A professora universitária e investigadora brasileira Adriana Mello Guimarães, que o cita, define Luandino como uma “espécie de mineiro do tempo interno da consciência”. Atrevo-me a tomar de empréstimo este conceito e a aplicá-lo a Ana Andrade.

“A vivência da infância só se tornou tema literário com a modernidade”. Foi Proust quem o celebrizou na sua monumental obra “Em busca do tempo perdido”. E, como recomenda a professora Adriana Mello Guimarães, no seu ensaio “ Luandino Vieira: O Mineiro Angolano da Memória” (Ensaios – União dos Escritores Angolanos) “cumpre entender como Agostinho e outros filósofos depois dele, e a exemplo de Bergson e de Husserl, que o tempo da consciência é um fluxo contínuo, uma correnteza em que pulsam, simultaneamente, o que foi, o que é e o que está vindo a ser. Daí o sentido da memória como modo de presença do que não mais existe, de coisas e factos vividos que, embora pertencentes ao passado, fazem parte (tanto quanto as coisas e factos previstos, sonhados, planeados ou apenas imaginados e que ainda não existem) do mundo real que experimentamos actualmente”.

Muita gente irá reconhecer o quintal desta peça, as personagens que nela figuram e recordará o manancial de histórias que a Ana vem contando aos amigos, quase como ensaio, pré-escrita do que temos aqui e agora. Gente que testemunhará que estas vivências vêm da infância e (a) foram seguindo ao longo da vida, se foram acumulando, e a foram construindo, transformando-se na longa mina onde a Ana Andrade foi garimpar para se transformar na autora desta obra literária.

E ao decidir transpor esse material para o papel depois de garimpado e lapidado, dele extraindo as partes mais preciosas ou adequadas à sua escrita, várias coisas aconteceram, entre as quais:

1. O Largo da Peça é de novo convocado ao campo da consciência, de forma inédita, e, com subtileza, devolvido ao tempo histórico, com a preciosa ajuda de um roteiro musical que nos devolve vozes como a de Milá Melo ou de Belita Palma, Artur Nunes e até Nelson Ned. E para mostrar como esse tempo histórico é respeitado, neste quadro de invocação de uma época, a palavra à autora:

“É comum, é quase obrigatório, que nos quintais de Benguela, esteja desde manhãzinha um rádio a tocar. Liga-se o rádio assim que se começa a regar o jardim, às 6 da manhã…

Então, haverá um rádio no quintal da peça que transmite o emissor provincial de Benguela, em 1976. Há a voz do locutor que apresenta o programa, que pode talvez ser de “discos pedidos” e passa a música que elas ouviam naquele tempo. (O estranho é que ainda agora ouvem quase as mesmas músicas… Benguela onde o tempo parou…). A emissão da rádio faz-se mais, ou menos audível ao longo da acção da peça. Há momentos em que é a protagonista principal.” Disse tudo.

2. Do Largo da Peça é extraída uma parte da sua geografia, um espaço que é também o mundo onde habitam os nossos fantasmas, não os que aterrorizam mas os que acalentam, avisam, aconselham, segredam ao ouvido, lá no fundo, queridos fantasmas, os seres que amámos e que povoam a nossa memória, com carinho e, às vezes, até, com revolta, porque nos abandonaram ou nos foram retirados, pela vida, pelo tempo.

3. As personagens deste quintal são cada uma delas um pouco de muitos dos muitos que tantos passos deram aqui, tantas histórias ouviram e contaram, tantas gargalhadas lançaram sob os ramos das árvores frondosas que davam sombra e frescura aos convívios, que tantas lágrimas secaram e engoliram, tantos olhares cruzaram, cúmplices, enamorados ou fugazes.

4. E este espaço e estas gentes, se atentarmos bem, são fibra de Benguela. Uma cidade aberta ao mundo, como nos sugerem de forma positiva os nomes de Tai e de Mishiko, a evocar lonjuras orientais e, de forma negativa, a ausência de Cabral geograficamente longe mas emocionalmente demasiado perto. Aliás, esta peça, para quem quiser garimpá- la, é rica em homenagens, que a autora também dedica sem dúvida a todos aqueles, e muitos serão, que com ela conviveram, e a quem desafia a entrar no jogo de descobrir o que está escondido ou à vista de todos, por exemplo, no nome de Mishiko ou no de Teresa Bombo. Se juntarmos todos os quintais como este do Largo da Peça, como num puzzle, reconstruiremos a cidade e, também, as nossas próprias memórias.

5. E muita atenção ao choque, à mudança, aos novos tempos, que levaram ao golpe de asa da autora, no final da peça, num desfecho a que ela dá corpo e segura com a firmeza da sua escrita, porque é inevitável, mesmo que parte de si possa parecer desmoronar com o muro do quintal ou assistir impotente ao desespero que se pressente na morte de Tai e no turbilhão dos ventos dos novos tempos que arrastam Aloísio, Camenino e arrebatam Mishiko.

Nesta peça, o tempo é o presente, embora este espaço já não exista, acabou porque assim tinha que ser, mas também porque talvez tenha deixado de haver quem pudesse cuidar dele. Mas esta dúvida esvai-se porquanto este quintal, com tudo o que implica, humana e sociologicamente falando, persiste em ser presente porque a arte lhe dá corpo e alguém, afinal, decidiu cuidar dele, pela memória que a escrita garimpa.

O que passo a concluir é de minha lavra porque me aproprio do labor da autora:

– O “Largo da Peça em 3 Actos” é um aviso para que cuidemos do que amanhã vai ser passado, porque nada existe só no presente e porque o passado se torna por vezes tão presente que até dói.

– É uma homenagem de grande quilate à cidade onde nasceu e que a viu crescer.

– É uma magistral demonstração de que uma cidade, um largo, uma praça, um quintal e suas gentes que de tal modo inspiram alguém, como a Ana Andrade, merecem como gratidão, serem invocados pelo talento de quem cresceu no seu seio, como é o caso.

– À Ana Andrade toda a nossa gratidão por nos permitir perpetuar memórias, assim, através da literatura, mesmo quando as implacáveis mudanças inevitáveis parecem ameaçar a existência desses imensos espaços e tempos para garimpar.”

Filipe Correia de Sá
Luanda, 1 de setembro de 2021

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