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Perto do Coração Selvagem

Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector. 

Certos escritos adolescentes são inspirados e isso revelam-nos as irmãs Brönte, Mary Shelley, ou esta obra-prima em língua portuguesa, vinda do Brasil. A viagem íntima de Lispector roça o apelo místico de Etty Hillesum, mas numa versão de sintaxe sensual, crua, com a curiosidade infantil de uma Alice descendo pela toca de coelho da sua própria alma. Com uma maturidade e desilusão raras, mesmo entre escritores cínicos e batidos, o sussurro incessante nas entrelinhas de toda a obra é o da tragédia implícita à efemeridade. E tudo é efémero. E o tempo não cura coisa nenhuma, pois o tempo é, ele sim, o grande agressor. De que adianta penhorar e investir todo o nosso espírito em vivências das quais, o que sobra é nada? Apenas pelo momento? E quando esse momento já carrega a desconfortável consciência da sua própria evanescência? Pela memória que fica? A memória também se distorce e depois dissolve. Não há nada que valha a pena ter ou ser. Nada. Compreenda-se: vale ter e ser, pois como o contrariar? Obviamente não se pode deixar de ter e de ser, sempre algo, a menos que se auto-sabote a existência. E para quê fazer, também, esse gesto inútil, ingrato e fundamentalmente fútil? Mas… valer a pena – valer o sofrimento, a penalização para se ter ou ser, algo sempre tão sem essência – isso é que é questionado diante a imparável enxurrada da impermanência, o tsunami da transitoriedade. Pois a efemeridade não é apenas comparável à saudade transparente, em fotos de gente bonita de outros tempos, e que agora se vão apagando – mas, factualmente, a impermanência tem a velocidade das partículas quânticas – e tudo é de uma fugacidade fulgurante… Mas, e é aqui que a menina se tornou santa: no vórtice do mundo fenomenal ela diz: “talvez num fim de tarde, num instante de amor, no momento de morrer – teria a sublime inconsciência criadora, a intuição aguda e cega de que era de facto imortal para todo o sempre.” 

MIGUEL GULLANDER 

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