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quem é a mulher angolana?

Pode haver algo mais belo do que um corpo nu? Um corpo despojado de adereços, livre com a sua verdade, a sua disponibilidade para a vida, as marcas desta no corpo e a sua fusão com outros elementos (e outras vidas)…
Acaba de sair, pela DZzzz Ent, um livro onde a nudez é contemplada pelo olhar de um fotógrafo angolano, Massalo, que dá nome ao livro. Preto e branco, as cores que Massalo mais escolhe nos seus trabalhos “à volta de ideias. Por vezes soltas e abstractas, por vezes claras. Este livro é uma mistura” – a abstração da mulher e a soltura da nudez. A conexão entre a praia (mar e areia) e a mulher, presente no imaginário do fotógrafo que cresceu com as fantásticas histórias da Kianda (a sereia guardiã de Luanda), e outras sereias da mitologia africana e grega.

É que não faltam ligações entre a água e o feminino. A figura Mami Wata, com a sua beleza excessiva e sobrenatural, cabelos longos e uma tez muito leve, poderia perfeitamente ser evocada. É uma das divindades da água, adorada na África Ocidental, Central e Austral e na diáspora africana, nas Caraíbas e em parte da América do Norte e do Sul. Poderíamos falar  também da super adorada brasileira “Rainha do Mar” Iemanjá (ou Janaína, Inaê, Princesa de Aiocá e Maria), cuja festa de homenagem – todos os anos em Salvador (a 2 de Fevereiro) ou na passagem de ano no Rio de Janeiro – junta milhares de pessoas vestidas de branco, numa procissão até ao templo na foz do rio Vermelho ou até ao mar, onde se lançam oferendas, espelhos, bijuterias, comidas, perfumes e pentes, para embelezar Iemanjá que assim trata dos seus lindos cabelos (os brilhos do luar nas águas), como tão bem descrevia Jorge Amado.

A Massalo “interessa esta fusão entre a feminilidade e o mar”, que é um elemento feminino. “A fonte de alimento, o mistério, os cheiros, o conforto de suas águas como do útero materno se tratasse… muitos mais paralelos poderia fazer.” Este livro é, portanto, uma celebração da mulher e sua ligação aos elementos de água (vida). Curiosa esta celebração da mulher ser iniciativa de dois homens. Nástio Mosquito resolveu editar o livro porque “vai mexer com as pessoas”. No contexto de “uma sociedade com sede de mudança e, com a extrema necessidade de se libertar de dogmas que contribuem para o isolamento de sonhos, filosofias e alternativas de vida”, diz Nástio, é importante valorizar “esta nova mulher que se assume com escolhas, dona do seu corpo e da sua vontade de existir coerente com o seu ambiente, com a sua condição de ser belo, livre e dominante; é assim também o Mar” explica Massalo.
O diálogo da mulher com a sociedade começa com os pais, maridos, namorados e filhos – e outras mulheres, ora bem. As organizações que pretendem representar e defender as mulheres, conhecerão realmente o que a mulher angolana busca e procura ser hoje?
 O desafio que Nástio Mosquito propõe é este: “falar do espaço da mulher em sociedade e como isso se reflecte no relacionamento com o seu corpo, a sua estética e a sua filosofia de vida enquanto mãe, filha e irmã”. A partir de um acto tão simples, pois todas nele vivemos: o nosso corpo, “averiguar a postura social em relação ao seu corpo e vida, estabelecer novas possibilidades de diálogo e de existência no domínio público angolano.” Lembrar e celebrar as mulheres neste país, antes de mais, muitas vezes remetidas para  planos secundários quando são elas a base e sustento da dinâmica de Angola.
 As fotos, de boa qualidade técnica e estética, mostram mulheres angolanas despidas – mas será que nuas?, “num desejo de eliminar tabus”, dizem os autores. As modelos do livro não são profissionais (e não estão identificadas nem por nome nem mostram o rosto – ainda o preconceito?), habitam a cidade de Luanda, e o corpo que emprestam à imagem de si próprias tem a ver com uma luta pela emancipação, “no sentido mais simples e prudente da expressão”. Numa declaração da liberdade.

Transformar em produto da casa

Nástio Mosquito optou por publicar as fotografias sem palavras de contextualização, no sentido de interagir culturalmente, “mexer com a forma hipócrita como a sociedade luandense e angolana reflecte sobre a mulher, quando olhada sem roupa seja em que contexto for”. Estas raparigas “queriam tirar fotos, viver a experiência, como se vêem; queriam sentir-se como querem ser, livres e sem vergonha de serem belas.” Não tem a ver com fama, não tem a ver com ganhar dinheiro, a beleza está ali na afirmação daqueles nus que se contorcem e se fazem desejar.
Nástio e Massalo já tinham colaborado numa publicação, Silhuetas, um pequeno livro de fotografias e textos da autoria de Massalo, com o qual deram “os primeiros passos nisto de fazer livros.” Foi tudo produzido em Luanda, onde há ainda limitações no papel, na mão-de-obra e os custos são elevados. Apesar disso, deixaram o investimento no país, querem “ser parte desta Angola que evolui melhorando-se… sem a obrigação de importar informação e tecnologia, mas adquirindo do mundo, com o mundo e no viver, conhecimento.” Há determinação aqui.

MASSALO da DZzzz Ent., 3000 kwanzas

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