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uma voz que não morre – rdc

Escrever sobre Ruy Duarte no passado custa-me por ele não poder responder. A expressão das suas considerações – de forma elegante ou, por vezes, irascível (coisa que comigo só aconteceu uma vez e, mesmo assim, foi uma cólera tão bem fundamentada e contextualizada que só pude dar-lhe razão apesar da minha teimosia) – acrescentava sempre. A sua voz ainda está muito presente, viva e intensa – com atribuições sábias para tudo, da paisagem ao livro, passando pela fofoca – cheia de adjectivos precisos e originais, uma voz com o tanto que partilhou connosco nos últimos anos. Por isso me custa muito a ideia de ele já cá não andar, com o seu ar dandy e a eloquência que sabemos. Ruy Duarte de Carvalho, cultivador de um ríspido isolamento, no seu caso necessário para pensar e criar, enredar a fábula com uma pesquisa apurada, ruminar no silêncio e na luz que vai esmorecendo na parede e no mar as suas conspirações privadas, esse Ruy isolado gostava porém de conversar interminavelmente e se rodear de juventude que, como ele, vive a inquietação e insatisfação perpétuas de querer saber, sem se fechar em fundamentalismos, que ousa ideias, produz conhecimento e ironiza com os factos da História.

Conheci-o na rua António Barroso, Maianga, numa Luanda que vivia a excitação da paz, em 2005. O Filipe Calvão e eu, amigos do seu filho Luhuna, fomos lá buscá-lo para o levar a almoçar à ilha, a mesma dos pescadores caluandas que Ruy conhecia a fundo. A partir daí estabeleceu-se aquela cumplicidade indizível: um reconhecimento. As ligações e paixões por Angola vão-se repetindo em ciclos com novas curiosidades que aí nos trazem, e novos dados nos revelam, nos dão trabalho e tanto que pensar. Ele sentiu isso em nós, jovens curiosos, pesquisadores de dinâmicas angolanas, desejosos de compreender as equações dos tempos, poderes, figuras, culturas, dificuldades e desafios do país, pessoas que realmente querem conhecer e viver Angola. Confiou e entregou-se, concedendo o privilégio de nos passar tanto do seu conhecimento e companhia inspiradores.

A partir daí seguiram-se visitas ao fim da tarde na casa da Maianga e sempre longas conversas que me deixavam num estado de exaltação mental e espiritual, continuadas pelas leituras dos seus livros. Quando vendeu a casa e se mudou para a Namíbia, nas passagens esporádicas por Luanda, ficava hospedado no castiço hotel Globo, Mutamba, próprio para o imaginário de um escritor desprendido do mundo material, apesar de tão ligado à matéria do mundo. Ali ficava a fumar e a pensar, a sentir as vibrações da cidade. Pressentia o que implicam as transformações desta nova Luanda, nem sempre familiar e afável para ele, mas empenhado em perceber os seus comos e porquês.

Tivemos novos encontros em Lisboa até que, na conferência da Gulbenkian, onde apresentou a proposta neo-animista, decidimos pôr mãos à tentativa de criar um movimento, que fizesse convergir várias procuras, de académicos, artistas e viajantes, cada um com os seus contributos para uma linha (do) comum. Mas isso são outros quinhentos, que serão falados a seu tempo.

kalahari, SA 2009kalahari, SA 2009

 

Entretanto o Ruy pediu-me para o ajudar a organizar as suas actividades, livros, filmes, viagens e projectos. Mantivemos acesa comunicação, cuidando-nos. Fui viver para Moçambique em 2009 para preparar, com o Pedro Pimenta, o ciclo “E agora… vamos fazer mais como?” de filmes e debates no Festival Dockanema. Foi o reencontro do Ruy com o mundo do cinema e festivais, além do regresso à cidade de Maputo onde trabalhara, 40 anos antes, na fábrica da cerveja Laurentina. E por ali andava radiante a bater muito papo, fumar cigarros, relembrar os tempos em que palmilhou Angola para filmar e mostrar quem são afinal os angolanos, na sua tão rica diversidade. Dali partimos, o Ruy e quatro jovens marinheiros, na nossa grande viagem pela África do Sul, um país com tantas questões em articulação com a sua obra (leia-se A Terceira Metade). Já viajara com o antropólogo Filipe Calvão (o amigo que nos apresentou) pelos Estados Unidos e Namíbia, e agora preparávamos novas incursões: depois da sua recente estadia na ilha de Santa Helena, a ‘comitiva’ iria à Argentina e a pontos do globo que configuram cartografias de antigos impérios, deslocações, reincidências e utopias. Novas transumâncias o obcecavam.

É claro que nos restam os livros e essa obra magnânime que, plena de perguntas, tanto deixa por descodificar – de uma originalidade e talento que tornam claro que Ruy Duarte de Carvalho é um dos melhores escritores de língua portuguesa e, portanto, permanecerá firme no cânone da literatura angolana e lusófona. É uma obra que aponta caminhos, retira da invisibilidade povos, modos de vida, comunidades, autores, pessoas que se cruzaram com ele algures num percurso exploratório, e até palavras e expressões – erudição e coloquialidade juntas numa expressividade única! Uma obra que impele para determinadas direcções, os tais caminhos que só podiam ser aqueles, como o nosso destino também só poderia ter sido o que nós fizemos dele.

Mas, que raio, sempre que abro um livro seu ouço aquela voz assertiva e questionadora ao mesmo tempo, a mostrar-nos evidências e subtilezas, a fazer ver as imbecilidades do mundo e de como a ambição dos homens, suas aventuras, saques e explorações loucas, acabaram por suscitar tão crueis destinos mas também interessantes desafios à humanidade, e à compreensão da mesma.

E os poemas que a natureza escreve por si, ainda lá estão à espera que o Ruy os descubra para nos revelá-los.

Acredito que esteja já nesse encontro com os mais-velhos a falar disso tudo e muito mais. Fazer mais como?

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