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El baile de los que sobran

As ruas das principais cidades colombianas têm visto algumas das maiores manifestações das últimas décadas, desencadeadas pelo Paro Nacional de dia 21 de novembro convocado por uma ampla base de organizações e movimentos sociais, sindicatos e indígenas. A sua força é desencadeada por um descontentamento generalizado, sendo que, neste caso, a crise da gestão neoliberal (ou da democracia liberal como um todo) ganha contornos particulares dada a tensão e a violência que descrevem o território colombiano.

Importa escavar a superfície dos acontecimentos, não tanto com o monge espeleólogo de lanterna na mão, mas como o canário dos mineiros que se adentra nas galerias escuras, na melhor das hipóteses como o tempo entre o gemido do morcego e o seu retorno que dá ao animal um desenho sonoro do espaço que ocupa. O sol é abrasador e precisamos de sombras para nos abrigar, dizia alguém por cá, trata-se de descrever um relance condicional da desordem, um certo desenho frágil e contingente das opacidades que formam a situação.

Viva el Paro Nacional 

As demandas do paro são múltiplas e transversais, vão desde a anulação de medidas anunciadas por este governo, como a reforma laboral que entre outras coisas reduz o salário mínimo para menores de 25, a reforma tributária que reduz os impostos a grandes empresas e multinacionais, a privatização do sistema de pensões e de várias empresas estatais, o aumento das tarifas de electricidade; as questões de regime, como o assassinato de lideranças sociais, 700 desde a assinatura dos acordos de paz em 2016, os deslocamentos militarizados (venda de territórios em reservas indígenas para a exploração por multinacionais, plano de ordenamento territorial que facilita estas situações), o genocídio indígena (56 desde o início do ano) e o incumprimento dos acordos de paz. A isto soma-se a dificuldade no acesso à educação superior e a precarização que enfrentam xs jovens colombianxs, boa parte da multidão que ocupa as ruas.

Que lo vengan a ver

Que lo vengan a ver

Esto no es un gobierno, son los paracos en el poder

Os acordos de paz foram assinados em Havana pelo presidente Juan Manuel Santos e pelas FARC-EP em setembro de 2016, sendo apresentados como uma saída para o conflito armado. Tiveram como principais demandas a reforma agrária e a autonomia política das comunidades camponesas na gestão das suas terras, o reestruturar da economia rural baseada na produção de coca, legalizando os usos ancestrais, descriminalizando o consumo e apoiando alternativas, a reintegração política dos desmobilizados, o apoio às vítimas do conflito e a criação de comissões para a memória histórica. Foram sujeitos a um plebiscito onde o não aos acordos saiu vitorioso (por uma margem pequena), sendo que a principal oposição vinha dos sectores conservadores fiéis ao antigo presidente Álvaro Uribe (de quem Santos foi ministro da Defesa). Ainda assim foram aprovados pelo Governo, sendo que o seu cumprimento se tem vindo a deteriorar.

A estratégia do governo durante as últimas décadas apoiou-se no conflito armado, servindo-se do antagonismo interno como encobrimento para centenas de assassinatos políticos e uma intimidade entre grupos paramilitares, exército e governo que os tornam quase indistintos. Este dissimular de assassinatos como confrontos com a guerrilha tornou-se comum, grupos militares tiravam proveito de uma lei que recompensava financeiramente informações sobre posições da guerrilha, expandindo o número de vítimas para além dos campos políticos antagónicos (estratagema designado pelas organizações de direitos humanos como “falsos positivos”). A guerrilha convivia então com a sua simulação, o território preenchido com enfrentamentos inexistentes e ainda assim sangrentos, que não eram senão uma forma do exército se afirmar violentamente. Parte desta estratégia passa pelos “auto-atentados” a alvos civis e militares. Enquanto presidente (e candidato presidencial) Álvaro Uribe foi várias vezes alvo de explosões em carros armadilhados, sempre sem sucesso, muitas vezes negados pela guerrilha. A opacidade é um fundamento do campo político colombiano. Que contraste há o opaco-abrigo e o simulacro da estratégia de terror?

Sin violencia

O grito de sin-violência que toma conta das ruas não pode deixar de ganhar vários sentidos, desde a luta indígena pela paz nos seus territórios à classe média que se junta aos protestos e recusa a destruição de propriedade. Serve para enfrentar os ataques policiais, as declarações da “primeira linha” (defesa organizada pelos manifestantes contra as forças do Estado) são contundentes na afirmação da sua natureza defensiva, nos bloqueios das principais vias de acesso à cidade repete-se o grito ao lado de outro, no más ESMAD, pelo fim do esquadrão anti-distúrbios. Serviu também para impedir a invasão do Centro Administrativo Municipal em Cali e para impedir que a bandeira nacional lá hasteada fosse pintada de vermelho. Por mais de uma vez acompanhou a expulsão de supostos ladrões das manifestações. Nestes momentos é difícil de entender se serve para conter a multidão-turba e a sua vontade de punir violentamente o desvio se é dirigido a todos os outros, como um aviso, a contenção violenta da violência, uma polícia interna à manifestação. Participa da separação, a higiene democrática dos cidadãos de bem.

De quién tenemos miedo?

Este período de levantamento social apresenta-se como um reordenar destas camadas, como quotidianos tangenciais que agora se cruzam. Como com o vendedor de rua que se junta a pensar frases de cartazes com um grupo de estudantes, ou como as armas de assalto nas mãos de vizinhos que formam milícias para defender o bairro dos “vândalos”.

Parando aqui um pouco, foi uma reacção imediata mas que se fundou em semanas de discurso mediático sobre a ameaça da mobilização, o medo do levante latino. Ameaça exacerbada pelo simulacro, cedo surgiram imagens de camiões do exército a recrutarem jovens na periferia e a deixarem-nos em bairros habitacionais, multiplicam-se os relatos sobre as milícias de moradores e escasseiam os relatos de assaltos. Uma teia de vídeos de jovens ameaçadores ou de moradores assustados torna-se meme e caricatura, as carrinhas do exército começam a ser expulsas à chegada pelas mesmas milícias de moradores. Duas coisas sobrevivem à exposição do simulacro, a separação gerada na defesa da pequena propriedade e uma certa confusão, um inimigo que contamina o Estado mas que ainda é x periféricx, x indígena e x negrx. 

Planalto 

Não sendo uma situação insurrecional, foi-se armando o prolongar no tempo e dispersar na cidade de uma certa desordem, convocatórias diárias de cacerolazos, marchas, cortes de vias, concertos improvisados. Vários grupos de média articularam-se na plataforma #medioslibrescali1 para fazer circular pontos de vista das ruas, desmontar o discurso mediático e dar visibilidade aos abusos policiais. A Guardia Indígena juntou-se aos protestos tanto em Cali como em Bogotá, as assembleias do Comité del Paro são públicas e abertas. “O estado opressor é um macho violador” ecoa nas paredes da praça da governação regional.

O desafio que este movimento enfrenta é o da sua sobrevivência a longo prazo, seja pela sua exaustão, seja de uma forma mais literal, pela longa história de assassinatos. Trata-se nesse sobreviver de gestar um novo quotidiano, a questão que se põe é de quão transfigurado fica o presente, se o monstro se assume como um novo ponto de partida ou se ainda é possível um “regresso à normalidade”, cobrindo este período de excepção e fantasia. Na verdade a questão também é de que forma se dá esse regresso, quão profundamente se reconfiguram as instituições, conta onde inevitavelmente agem as forças paramilitares, para além do estado e das suas forças repressivas. Também o contraste entre dois discursos sobre o continente sul-americano, num deles o levante progressista é instrumentalizado para a desorganização do estado democrático em benefício das elites conservadoras e autoritárias, noutro o levante reaccionário não é senão o ritual da sua queda, uma espécie de último estertor do conservadorismo – a verdade, como o futuro, é um terreno em disputa.

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