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“Alzira está morta” – PRÉ-PUBLICAÇÃO

A antropóloga e escritora brasileira Goli Guerreiro volta a Lisboa, a convite do BUALA com o apoio da Secretaria de Cultura do Governo da Bahia, para lançar seu romance Alzira está morta – ficção histórica no mundo negro do Atlântico, no Hangar, a14 de abril às 18 horas. O livro será apresentado pela professora Cristiana Bastos, da Universidade de Lisboa e conta com a presença da autora que discorrerá sobre os temas do romance através da mostra da sua iconografia. Ambientado no século XX, Alzira está morta é um romance histórico em forma de biografia de uma personagem inventada – a baiana Alzira Rocha (1911-1988).

ATO 1 

Do cais da Bahia  

1930. O trânsito entre Salvador e Lagos, na Nigéria, foi muito intenso durante o tráfico de africanos. A linha de vapores e veleiros que fazia a rota perdeu força no pós-abolição. Mas as trocas comerciais e simbólicas entre as duas cidades ainda sobreviviam em navios, ideias e mercadorias.  

Pintura sob vidro combinada com fotografia, 1940-1950. Pintor anônimo, fotógrafo desconhecido. Coleção MRAC Tervuren. Africa Museum, BélgicaPintura sob vidro combinada com fotografia, 1940-1950. Pintor anônimo, fotógrafo desconhecido. Coleção MRAC Tervuren. Africa Museum, BélgicaEra um abril chuvoso. A estiva agitada no cais de Salvador. Não era um bom dia para partir. Alzira estava lá, pronta. Bagagem bem ajeitada em malas de couro e ferro feitas no Taboão. Resistiriam bem àquela rota mítica tantas vezes navegada. Lagos era a meca dos negros da Bahia. Ao menos para aquela intelligentsia que conhece sua história e sua civilização. Ela envaidecida. Tal como outros distintos, conheceria Lagos, Alzira mesma, com todos os seus sentidos. Também ela desfrutaria daquela aura. 

Fotografia de Mama Casset, Senegal, 1930. Coleção Éditions Revue Noire, ParisFotografia de Mama Casset, Senegal, 1930. Coleção Éditions Revue Noire, ParisSeu padrinho Martiniano estava a seu lado, orgulhoso. Dava conselhos e falava iorubá. Enedina estava feliz e tão bem arrumada que parecia uma passageira prestes a embarcar na primeira classe. Vicente estava calado. Não via com bons olhos a ida de sua única filha para uma terra distante. Temia que ela casasse por lá e talvez nunca viesse a conhecer seus netos.  

Longo adeus. Lenços e lágrimas. Os pais de Alzira voltam em silêncio para a península de Itapagipe. No coreto da Vila Operária da Empório do Norte, a filarmônica anima as famílias da Boa Viagem, como todos os domingos. 

Na rotina do navio, Alzira lembrava os casos da juventude do padrinho em terras iorubanas, imaginava, lia, rascunhava modelos de vestidos, fazia e desfazia as malas. Olhava com carinho as blusas de renda, as camisolas bordadas preparadas por sua mãe, com tanto esmero. Às vezes acordava assustada sem saber onde estava ou para onde ia. 

Dias e noites na solidão do Atlântico. Enfim, África. No porto de Lagos havia muita gente e os acenos eram tantos que Alzira sentiu uma estranha sensação de familiaridade. Ao mesmo tempo a paisagem nigeriana remetia a um mundo distante. Havia muitos brancos vestidos de um modo que ela conhecia pouco. Um navio vindo da Inglaterra acabara de atracar (…)


Caracteres de escritas africanas. Exposição L’Afrique et la lettre. Lagos/ Paris, 1986Caracteres de escritas africanas. Exposição L’Afrique et la lettre. Lagos/ Paris, 1986

 

Patchwork daomeano. Benin, 1977. Coleção particularPatchwork daomeano. Benin, 1977. Coleção particular

 

Alzira está Morta, de Goli Guerreiro, será lançado a 14 de abril (quinta-feira), às 18 horas no Hangar com a apresentação da antropóloga Cristiana Bastos. 

(Rua Damasceno Monteiro, 12, no bairro da Graça, Lisboa)

Contactos: Goli Guerreiro goliguerreiro@gmail.com e Marta Lança martalanca@buala.org Facebook: Alzira está morta 

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