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Caro Amigo Branco (da negação)

Caro amigo branco,

Quando me queixo de racismo, não o faço para ser visto, mas é a minha alma que eu dispo, portanto é errado achares que és o alvo de tudo o que eu reclamo, porque tu és um bacano, meu mano, tu és tão fixe e tão brando, que se matares uma mosca é porque a gaja fez uma coisa tosca.

Caro amigo, tu sentes-te aflito quando eu falo de racismo, e dizes com afinco que o racismo é um mito, blá blá blá isto, blá blá blá aquilo, que somos todos filhos da mesma raça… Pois, mas és tu quem passa, mesmo numa discoteca africana, e eu é que sou barrado à entrada.

Se achas desconfortável para ti eu falar do racismo, imagina como me sinto, eu que vivo à sombra disso.

Tu dizes que não vês cor, e eu digo, por favor, vai consultar um doutor, vá, um oftalmologista, porque há algo de errado com a tua retina.

Caro amigo branco, quando eu falo que Portugal é racista, não estou a dizer que tu és racista, nem que todos os portugueses são racistas, mas estou a dizer que o sistema é racista e está construído sobre princípios racistas e de supremacia divisionista.

Vou dar-te um exemplo: o grande templo da história de Portugal é chamado de Descobrimentos, fala de um tempo de homens valentes que dobraram o mar heroicamente e saíram do continente para levar civilização para outras gentes, foram para outros mundos, através do mar profundo para levar a glória de Portugal para limpar povos imundos. Aliás, o hino nacional de Portugal diz: Heróis do mar, nobre povo, nação valente e imortal. Entendes agora? Quando a postura oficial de Portugal é agigantar os assaltos do passado e tomá-los ainda hoje, apesar dos factos, não como atos feios, mas em grandes devaneios como feitos perfeitos de um povo eleito, então… PORTUGAL É RACISTA.

Quando te ensinavam na escola que pertences a um povo superior, que levou civilização a povos de cor, que os educou e os tirou do estado selvagem e os levou para outras paragens e os vendeu em outras paisagens, e que os trouxe para este lado do oceano como escravos, diz-me: o que te vinha ao caco quando tiravas os olhos do quadro e olhavas para o bacano preto sentado ao teu lado? Não achavas que a tua categoria não podia ser vista na mesma linha com a categoria de um limpa-pias cuja família foi um dia mera mercadoria?

Tu foste doutrinado para te sentires superior a ele, tu foste doutrinado para sentires que este país te pertence, porque no passado não havia cá pretos. Mas, caro amigo branco, é aí que está o engano, porque mouros ou muçulmanos também já dominaram este pedaço de terra. Percebes agora a fraqueza do delírio do orgulho da tua herança genética que tu chamas de perfeita, só porque não tens uma pele preta?

Caro amigo branco, sabes o que acontece quando brancos privilegiados agitam os canos e gritam por todos os lados, enfiando o crânio no próprio rabo, dizendo-se ativistas: “os pretos são mais racistas”, ou quando se junta na mesma gruta políticos racistas, direita extremista, jornalistas racistas, cientistas racistas, brancos com problemas de vista que acham que movimentos antirracistas promovem cultura marxista (sei lá que merda é isso), ou quando dizem que a cor não existe ou que o racismo não existe? Quando se mistura tudo isto na mesma lista, abre-se a temporada de caça aos pretos, como que aconteceu há pouco tempo e como o que se incentiva neste momento nos comentários ignaros de gente demente na Internet.

E é disso que eu tenho medo. E também tenho medo de ti, meu caro amigo branco, cujo negacionismo promove o racismo, e que usas uma peneira de maneira a tapar a vista com vista a não ver como Portugal é racista.

Caro branco, se não fodes, então sai de cima.

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