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Compreender a tradição oral no contexto angolano

O cerne do problema da Tradição Oral, nas lides académicas angolanas, reside na indiligência conceptual com a Literatura Oral, o folclore e a História Oral, cujo objecto é tido, em menor escala, ao nível dos cursos do ensino de História, no ISCED – Instituto Superior de Ciências de Educação. Discentes apreendem da grande parte de docentes que acreditam que o método da pesquisa histórica em África bantu passa por esta abordagens, bastando elencar um certo número de informadores-chave para deles se recolher opinião sobre determinado conhecimento.

Partindo de princípio que a historiografia bantu é obra colonial, o método da Tradição Oral em pesquisa correctiva pode ter consistência, no âmbito da Antropologia Cultural em auxílio. A pesquisa histórica, strictu sênsu, particulariza-se das demais ciências humanas por limitar-se das fontes arquivísticas em análise e síntese enquanto instrumentos-padrão obedecendo às críticas interna e externa, heurística e hermenêutica. A alegação ocidental, reprovada em África, da dependência historiográfica às fontes escritas, neste aspecto, torna-se consistente clarificando fronteiras entre a História e as demais ciências humanas.

Enquanto status de arte, a oralidade não teria sido exclusivo património cultural bantu se não fosse o atraso pestilento da África no alcance do índice do desenvolvimento humano ao nível dos demais continentes. A literatura anterior ao século XV convencionou-se para ser recitado em haste público e o manuscrito era apenas um instrumento acessório da Tradição Oral em que a pintura era como forma de linguagem não-verbal, analógica representativa de certa realidade. 

Trazemos por exemplos a poética Homeriana em Odisseia, do século VIII a. C., sequência da Ilíada e parte mais antiga da Bíblia remontada de 1100 a. C. Em ambos, a fala foi tida como técnica de comunicação, concebida como instrumento. A declamação e a retórica eram métodos assessores, usando a oralidade de forma mais eficaz em conversas, discussões, debates, tertúlia, polémicas, simpósios, colóquios, tal como acontece nos espaços bantu; onjangoocotoekwenjeevambamukandacivembaekulaocilacotaekanga.

A barafunda histórica desta matéria, no caso angolano, data de meados do século XIX e referindo-se ao futuro da literatura de Tradição Oral bantu, no I Encontro de Escritores, de 1963, ocorrido no Lubango, Estermann (1983:280 [II vol.]) dizia que,

“tal perspectiva não é muito animadora para a literatura oral nativa e isto não só na região de que nos ocupamos, mas em toda a África Negra. Num futuro mais ou menos próximo os povos deste continente vão ser privados do instrumento tradicional da sua expressão”.

O seu contributo (ESTERMANN, 1960b:207), no estudo e na divulgação da literatura de Tradição Oral dos ovambo, vanyaneka, vankhumbi e vahelelo demarca a História de Angola ao classificar e distribuir o género literário oral entre contos, tratando-se de trechos prosados; provérbios e adivinhas que constituem um género intermediário entre a prosa e a poesia; poemetos quando melodiados; cantos, sendo poemetos cantáveis.

Estermann (1983:287-289 [II vol.]), também, colectou textos em diminuta quantidade de amostras pré-bantu, os ovatwa. No entanto, a mais recente classificação compulsada pertence a António Fonseca (1984:47) que, dos bakhongo angolanos, repartiu a tipologia em narrativas genealógicas, narrativas mítico-históricas, lendas, histórias, fábulas, provérbios, adivinhas, comunicados, recados, notícias, jogos, poesia, canção. Distribuiu a Literatura de Tradição Oral por nove classes: os provérbios, normas de conduta social ingana; as estórias e fábulas, extrapolantes da socio-moral, além de recreativas, insinsinsonsainsamunasavu; as histórias, ki mona mesu, que ultrapassam as leis da natureza atingindo o artístico. Nelas são patentes as conexões de energia da força vital entre bantu vivos e não-vivos. Iniciadas, introdutoriamente, com uma fórmula especial, o objectivo das adivinhas, ingunga, é a diversão e o exercício de desenvolvimento intelectual infanto-juvenil.

As canções, nkungambembu; textos noticiosos, recados, convites, em certas circunstâncias, assumem a forma de curta fábula cantável. Os jogos e brinquedos infanto-juvenis, kimpanga; as narrativas genealógicas, nvila, feitas pelos arautos mais-velhos, aos que Pepetela chamou de griots1, nunca na presença de estranhos; os textos constituídos por uma amálgama de diversos géneros, mambu, o mesmo que resolução de problema, acto nupcial ou rito qualquer. 

Antropólogos são quase unânimes em anunciarem a inexistência da Tradição Oral pré-bantu angolana, mas ao nível de Estermann, Viegas Guerreiro (1968:327) embaraça este diagnóstico com a descrição de narrativas em Os bochimanes (khu!) de Angola. Com base aos makonde moçambicanos (VIEGAS, 1966:39-67), dividiu a Literatura de Tradição Oral em contos, adivinhas e ditos sentenciosos. O jogo, brinquedo e demais diversões, situou-os à parte (cfr. op. cit. 69-103) e com rugidos (Íd., 303-311) constituiu a XVII divisão dos contos, inseridos nos mesmos, sendo diálogo narrativo. Tal aconteceu com os cantos sem existência fora dos contos. Em edição seguinte, dividiu os géneros literário entre primitivo e civilizados (VIEGAS, 1981:177), géneros que considera idênticos em mitos e lendas, relatos de acontecimentos, contos e fábulas, provérbios, adivinhas, poesias.

Entrevistado por E. M. de Melo Castro, Pepetela admitiu que:

“em relação à literatura oral, as recolhas realizadas até agora são muito poucas e, no caso de Angola, essa tradição está-se esboroando por causa dessa guerra prolongada. As populações saem do interior, perdem os laços tradicionais e a figura daquele mais velho contador de histórias, o griot, desapareceu praticamente. […] Encontramos apenas alguns griots suburbanos, mas é uma coisa que está desaparecendo”2.

Além da concordância ao Estermann, 30 anos depois, Pepetela, clarifica o conceito de “Literatura Tradicional de Transmissão Oral”, descoincidente da “Literatura de Tradição Oral” de Estermann e “Literatura Oral”, enquanto subtema da Tradição Oral, compreendida em memória colectiva, não revestida que abarca o folclore, consubstanciado em cancioneiros, coreografias, encenação.

De volta à entrevista em epígrafe (cfr. op. cit.), Héli Chatelain (1964:9) já se tinha interrogado, em 1894, quanto à envergadura da literatura de Tradição Oral angolana por:

“terem europeus inteligentes vividos, durante quatrocentos anos, com a população nativa e nunca terem registado um único exemplo de literatura oral nativa não será isso prova bastante da inexistência desta? Assim parece. No entanto, logo que inteligente e persistentemente a procuramos, essa literatura revela-se-nos de uma forma exuberante”.

A esta data, publicava-se a sua primeira grande obra de Literatura Tradicional Oral, em Kimbundu e Inglês (CHATELAIN, 1964:101-103), intitulada “Contos Populares de Angola”. Em 1964, foi traduzida em língua portuguesa, com a tipologia, caracterizada pelas estórias, mantida inalterável até então. Óscar Ribas chamou-as de misoso, em língua bantu, variante kimbundu, histórias de veracidade reputada, o mesmo que anedotas equivalentes a maka; narrativas históricas, crónicas etno-nacionais, o mesmo que malundamisendu; provérbios referentes a jisabu; poesia e música com miyimbu, canções; jinongonongo, adivinhas. 

Foi de Mário Milheiros (1967:79-104) que a primeira classificação da Tradição Oral angolana se conhece e que a denominou de folclore referindo-se ao conjunto de textos colectados: contos, fábulas, adivinhas; danças festivas; música, canções, instrumentos; contagens; jogos, entreténs; tempo; fenómenos atmosféricos. Entretanto, José Redinha (1975b:286-287) parece ter sido mais aturado, apesar de reconhecer a inexistência de inventário do folclore angolano e consequente dificuldade da respectiva categorização.

Na perspectiva de Jean Vansina (1982:160 [vol. I]), consta um elenco mais elaborado da Tradição Oral comportando formas de poemas (VANSINA, 1966 [?]:156) de conteúdo fixo, fórmula livre e fixa, epopeia livre, narrativa livre. Para exemplos escolhemos a poesia pastoril kwanyama de Ruy Duarte de Carvalho (1982)3. Por seu turno, Honorat Aguessy (1985:44-45) distribuiu a Tradição Oral em toponímia e antroponímia, arte e artesanato, mitos e elementos culturais veiculados pelos relatos e rituais religiosos, fitoterapia e psicoterapia e farmacopeia.

De Shorter (1974:117, apud ALTUNA, 1985:37-38), o elenco de conteúdos da Literatura Oral limita-se entre fórmulas rituais, conjunto compreendido entre orações, invocações, juramentos, bênçãos, maldições, fórmulas mágicas, títulos, divisas; textos didácticos: tratando-se de provérbios, adivinhas, fórmulas didácticas, cantos e poesias infanto-juvenis; histórias etiológicas caracterizadas por explicações populares, evolução do remoto ao estado actual; contos populares que consistem em estórias; mitos sendo fórmulas literárias simbolizadas. 

Os mitos referem-se a histórias emissíveis de tradições arcaicas, tipo religioso ou cosmológico, relacionadas com divindade; as récitas são textos épicos, didácticos, estéticos, particulares, alegóricos, etiológicos, memórias pessoais, migracionais; a poesia com temas variados desde romance, compaixão, caça, trabalho, prosperidade, à oração; a poesia oficial, sendo épica, privada tratando-se de religiosa, individual, comemorativa por ser panegírica; poesia culta, ligada às laias aristocráticas; poesia sagrada, cantada em ritos de iniciação mágico-religiosa de cerimónias das sociedades secretas, em ritos fúnebres, poesia que interpreta a filosofia e os mistérios da vida e da morte; poesia popular, cantada nos jogos à volta da fogueira, emissora de ensinamentos morais e históricos; narrações históricas sendo elenco de pessoas e lugares, genealogias, histórias comentários jurídicos, explicativos, esporádicos e ocasionais. 

Qualitativamente, Chatelain (1888-89:XVIII-XIX), concorreu com demais autores julgando-se classificador primário da Literatura Oral, strictu sênsu, de provérbios ou adágios e contos ou apólogos. Acresceu o ajuntamento das tradições históricas e mitológicas, os ditos populares, ora satíricos ou alusivos, ora alegóricos ou figurados; enigmas ou cantigas. Na sua perspectiva (cfr. op. cit), os enigmas não contêm uma lição moral ou prática como os provérbios e, muitas vezes, os contos são meros passatempos. Porém, sãos valorizados por apresentarem particularidades sintácticas e lexicológicas em forma genuinamente espontânea.

Uma peculiaridade conheceu-se do reportório colectado em kiyombe, por José Martins Vaz, relativo ao texto filosófico expresso sobre panelas, interpretado em provérbios, adivinhas e fábulas. Decifrou os estampos com valência comunicacional e os classificou de “cartas”, “bilhetes esculpidos”, de mensagens proverbiais segundo o prefácio de Estermann (VAZ, 1969:12), pois “para tirar um sentido das figuras esculpidas nos ‘textos falantes’, é necessário proceder com muita arte e grande sabedoria, e conhecer a relação existente entre as figuras e os provérbios, dos quais o povo Bantu possui um tesouro muito variado”.

Na perspectiva da Tradição Oral, ao texto entalhado sobre a superfície da panela, adicionamos a propriedade de leitura psico-didáctica aos de cabaça e demais utensílios domésticos, mobiliários, vestimentas, escarificação, excisão, incisão e tatuagem, como também, das peças de artesanato e pinturas em tela. 

Autores de referência engajaram-se ao estudo da Tradição Oral angolana, há seculos, mas é de Óscar Ribas o mérito que se conhece, embora menos citado que a monumental obra de Carlos Estermann. A sua virtude consiste em debruçar-se sobre a sociocultura mbundu de Luanda colonial, distribuindo e categorizando o acervo kimbundu em: Misoso I [1979 (1961, 1ª ed.)], colectânea de contos e provérbios; Misoso II (1962), etno-psicologia onomástica, os desdéns, isemu,diversões infanto-juvenis, bramidos e epistolárias incluindo o reordenamento e a categorização da culinária mbundu; Misoso III (1964a), conjunto de canções, adivinhas, súplicas, exorcismos, prantos, instantâneos vitais.

Os destacados colectores da Tradição Oral foram prosélitos da Etnografia colonial tuga, mas Héli Chatelain, norteara-se pelos ideários defensivos da identidade angolana, da luta por valores nativos e autonomistas virados à criação do texto literário endógeno. Por seu turno, Cordeiro da Matta, em torno da sua contemporaneidade, alinhara no renascimento africano de Angola que, antes de mais, exigia a legitimação linguística bantu. 

A Literatura de Tradição Oral acompanha de perto, embora com algum atraso, as diferentes colheitas bantu, desde 1864, data da impressão inaugural de 20 provérbios, de Saturnino de Oliveira e Manuel Francina, intitulados de “Elementos Gramaticais de Língua Mbundu, mas a esta data, Bessa Victor referenciava oito publicações folclóricas e consideradas como primeira publicação ao que chamou de Études sur la Langue Séchuane, de 1841. 

Não obstante às qualificações, classificações, categorizações e desconstruções até aqui descritas, metodologicamente, a Tradição Oral subtende a perspectiva comunicacional geracional de adultos aos jovens ou do informador-chave ao agente externo, o pesquisador. O conjunto de textos orais de autores anónimos, transmissível de emissor-artista com acumulação de memória, excelente retórica e domínio estilístico a outrem incompetente, assumido como mero receptor-activo, em actos com objectivos predefinidos, de momentos cerimoniais ou de lazeres e locais apropriados é ao que se designa de Literatura Oral, Literatura Tradicional Oral, Literatura Tradicional de Transmissão Oral e condiz com a matéria áudio da Tradição Oral porque ao exercício de encenação musicável atribui-se a denominação de folclore por caracterizar o lado lúdico, independentemente das circunstâncias.

A Literatura Oral, colectânea de textos audiovisuais, com valores e estrutura estético-literários, emissíveis através da oralidade geracional, é Tradição Oral, diferente da História Oral, colectânea de técnicas e procedimentos recolectores audiovisuais de informações da pessoa privada, úteis à pesquisa em Ciências Humanas, cujo repertório criticado pode acudir a História, strictus sênsu

A História Oral é indispensável no estudo de História, quando está em causa a documentação com valor arquivístico. A batalha do Kwitu Kwanavale cuida o exemplo. No caso, servem as conexões entre as histórias privadas dos protagonistas abordados por meio de entrevistas individualizadas das esferas quer antropológicas, como sociológicas. 

Fotografia da batalha do Kwitu Kwanavale.Fotografia da batalha do Kwitu Kwanavale.

A Literatura Oral é imprescindível no estudo de História, quando está em causa a desconstrução epistemológica afim. A destituição de Ekwikwi V auxilia o exemplo. No caso, serve a crítica de provérbios, genealogias, ancestralidades, epopeias, sátiras, estórias, cânticos, etnonímias, antroponímias, zoonímias, toponímias extrapolando as esferas tanto antropológicas, como sociológicas. 

O folclore, por sua vez, diferente de Literatura Oral e História Oral, é Tradição Oral, por delimitar os espaços lúdicos, atrativos e de lazer a esta inerentes. Torna-se insubstimável ao estudo de História, pela capitalização das dinâmicas institucionais bantu. O exemplo das batalhas dos bayaka, dos séculos XVII/XIX, é consistente. No caso, serve a desconstrução de instituições iniciáticas mágico-religiosas e de passagens de classes. por imperativo da pesquisa bantu, ao historiador reserva-se a invasão ou solicitação de auxílio da esfera metodológica da Antropologia e, não raras vezes, da Sociologia, Filosofia, Linguística e Direito.

Há uma parte considerável da Tradição Oral, elencada por muitos antropólogos, mas incabimentável à História Oral, Literatura Oral e ao folclore. Trata-se de matérias relativas à onomástica, etnonímia, zoonímia, antroponímia, fitologia, farmacopeia e terapias, exorcismo, etiologia, cosmologia, etimologia, ancestralogia, magia, estruturas e sistemas de parentesco, propriedade e Estado. Inevitáveis ao estudo de História, elencam a esfera metodológica da Antropologia. O reordenamento político-administrativo de Angola exemplifica a evidência desta necessidade.

Em todas perspectivas, a Tradição Oral, comporta-se em instrumento comunicacional audiovisual de índole didáctico-pedagógica com simbolismo de pendor artístico, subcarregada de subjectividades emocionais e caracteriza as civilizações de menor índole, devido à economia de subsistência natural e baixa densidade demográfica. Interliga a cultura dinâmica à tradição estática, a cultura estática à tradição dinâmica (cfr. GOMES, 2016), através da energia da força vital, (cfr. ALTUNA, 1985), o que compreende a pedra angolar dos órgãos vitais da personalidade “ntu” de muntu; – tradição, cultura e oralidade, delimitadas pelas condições de subsistência humana. A presença do fogo “perpétuo”, no desenrolar da Tradição Oral, é o indicador deste exemplo.

O objectuário ritualístico como pintura rupestre, tatuagem, artesanato, escarificação, circuncisão, excisão, incisão e todo ritual de sacrifícios, é meio de comunicação geracional, entre vivos e não-vivos, relativos à tradição visual, incontempláveis no conjunto da Literatura Tradicional Oral e do folclore embora artisticamente expressivas, mas são parte da Tradição Oral. Produzem significados que exigem interpretação do emissor ao receptor como são os proto-meios de comunicação massiva, codificados, mas não estoqueiam as mensagens precisas pois, prendem-se ao simples facto de transmissão; – comunicação sonora, por fumaça ou fluído humano. 

Sendo o processo didáctico-pedagógico da Literatura Tradicional Oral exercido por audição e artifícios narrativos, o folclore necessita de observação, memórias musicais e sensoriomotoras. Há entre ambas a faceta experimental. Assim, a Tradição Oral confina os principais métodos entre a audição, observação, experimentação como, também, o sacrifício. Este engloba a dramatização, personificação. O aprendizado do manuseio de instrumentos industriais a exemplo de sonoros, agropecuários, fúnebres, mágico-religiosos, indumentários, utensílios domésticos, bélicos, soberanos, veiculado em on job, enquadra-se na Tradição Oral extra-literária e extra-folclórica.

À medida que o método delimita a Literatura Oral da Tradição Oral, a História Oral assume a sua função deixando espaço para a Antropologia Cultural e Sociologia auxiliarem a História. A História Oral (cfr. MEIHY, 2007) é competente na colheita de relatos personalizantes retrospectivos e o conjunto permite descrever o passado de uma certa realidade histórica. Por exemplo, são comunitárias, as instituições educacionais, recreativas, funerárias, políticas, económicas, religiosas, culturais, administrativas, mas o método por recolher a experiência quando colectiva, pode residir na vivência da realidade observada e sendo individual (cfr. MILLER, 1995), a entrevista é a saída eficaz e ambos são antropológicos ou sociológicos porque a pesquisa histórica fora de arquivos é impraticável.

A Tradição Oral subsiste no método de pesquisa da disciplina curricular, na tipologia comunicacional por tratar-se do testemunho que transmite o conhecimento tradicional, estático, de uma geração à seguinte. Consta do conhecer, saber e fazer, perpetuados por procedimentos auditivos, observativos, imitativos, repetitivos, reiterativos, cujo limite temporal assiste-se em ciclos, não em acontecimentos sucessivos, em função da capacidade da histórica memória colectiva, tratando-se de um sistema organizado de lembranças geracionais. A sua sustentação suporta-se na base socio-grupal diacrónico e sincronicamente localizado através da coesão e da solidariedade dando relevância aos momentos de crise e pressão comunitária. Por conseguinte, historiadores africanos e africanistas ousados neste método interferem, essencialmente, na esfera antropológica, sobremaneira, ou sociológica, filosófica, jurídica e linguística.

Na sua relação ao único recurso da cultura industrial menos elaborada, no caso da África bantu, a Tradição Oral torna-se instrumento de acumulação e emissão do conhecimento domiciliado em sustentáculos auxiliares da memória semântica, função mnemotécnica, base para evocar associações e lembranças (cfr. MILLER, 1995), condição sine qua non de perpectuação de culturas orais. As formas características de memórias tradicionais orais são monumentais,tratando-se de memória oficial celebrativa, feita para durar e significar; documentais, ficando malgrada em si mesmo, sem sintaxe esclarecida; temporal, construída quando se atribui algum sentido documental de índole histórico. 

Originalmente latino de traditio, tradição, significa entregar, passar adiante. Transmissão, transição de hábitos, costumes, comportamentos, memórias, religiosidade, lendas de geração a geração da mesma realidade sociocultural, sendo que os elementos transmitidos, transitados, tornam-se estrato cultural endógeno, no caso bantu. 

A oralidade, resume-se na emissão vocal do conhecimento arrecadado na estrutura da memória humana encenável através de prosódia, gestos, expressão facial, movimentos corporais. Neste caso, a inteligência relaciona-se com a memória e o emissor é detentor legítimo da sabedoria e arte. Entre alguns bantu, não necessariamente angolanos, a identidade do grupo está sob guarda de griots (cfr. VANSINA, op. cit), cognome histórico ao nível da África Central dado aos estoriadores, cantores e demais arautos, publicistas da memória tradicional comunitária. 

A junção conceptual de “Tradição” e “Oral”, “Tradição Oral”, caracteriza a emissão de um conhecimento anónimo, por legítimos arautos, enquanto património colectivo transitável entre gerações interdependentes. Abarca no seu apêndice, a História Oral, dedicada à colheita de dados sobre o passado pessoal, enquanto memória privada; a Literatura Oral (cfr. MEIHY, op. cit.), abnegada à recolha de textos de ficção literária e o folclore delimitado ao ambiente lúdico. A dubialidade dos três factores responde o facto de tratar-se de métodos abrangendo técnicas e procedimentos padronizados e disciplinas curriculares havendo nas suas estruturas e sistemas de conteúdos objectos, princípios, métodos e normas gerais predefinidas. Ao mesmo tempo que aparecem no contexto de Tradição Oral, enquanto ciência, são beneficiários de autonomia própria.

Em suma, “Tradição Oral” refere-se à transmissão do património cultural, através da emissão combinada entre a vocal e a mímica tendo considerado um descritor-chave do folclore. Do ponto de vista académico refere-se ao conjunto de objectos de estudo e seus métodos (cfr. VANSINA, op. cit.), pelo qual é estudada ao que se convencionou chamar de “teoria da tradição oral” ou “teoria da composição oral-fórmula”, distinta, por definição da expressão do pensamento verbal, enquanto instrumento veicular de complexos socioculturais onde as tecnologias de alfabetização, especialmente, escrita e impressão, são limitadas e infamiliares.

No esforço do estabelecimento dos limites do seu conteúdo, antropólogos dispersam-se, mas sintetiza-se (cfr. ALTUNA, 1985) em fórmulas rituais, conjunto de orações, invocações, juramentos, bênçãos, maldições, fórmulas mágicas, títulos, divisas; textos didácticos, entre provérbios, adivinhas, fórmulas, contos, poesia infanto-juvenil; histórias etiológicas, tratando-se de explicações populares sobre a evolução existencial; contos populares, sendo estórias; mitos, definidos entre fórmulas literárias utilizadas de formas simbólicas, de tradição arcaica, religiosa; récitas, sendo épicas, didácticas, estéticas, pessoais; poesia de tipo romântico, compaixão, caça-trabalho, oração; onomástica na relação ancestral, ascendêncial, descendental. 

Como se pode perceber na relação entre cultura, tradição e oralidade bantu há intrínseca dialectica funcionando como placa giratória em torno da mesma orbita, a energia da força vital, ritmada por instituições estruturantes de parentesco multifuncional, imbuídos no sistema de ritos de iniciação de maternidade, infanto-juvenil, núpcias, senilidade, fúnebre; do poder político, consubstanciado na gestão de terras comunitárias, onjangoetamboocotoekwenjecotaevambamukandaekula e demais sociedades secretas; económicas traduzidas em lavras, caça, pastorícia, onjulukakixikila; socioeducacionais do fogo perpétuo comportando a lavra, cozinha efikoefekookufekãlaevambaocilombo, fontenário; recreativas a exemplo de ocilaolomundo; religiosas, no caso de cemitério, akokoto, terapêuticas.

Esforços oficiais na abordagem do tema aconteceram com a criação do ILN – Instituto de Línguas Nacionais, e arquivou-se um acervo bibliográfico patrimonial, de 1864 a 2005, calculado em 13000 provérbios, 1300 adivinhas, 1200 canções, 1000 narrativas tradicionais, 450 gracejos, passatempos infantis; rugidos animalescos, orações e “makas4”. Além de autores que demandaram nos séculos XV e XX, dos que concorrem na recolha e sistematização do texto tradicional oral recente, são muitos e poucos a publicar. 

A lista prolongar-se-á, a contar com os trabalhos de fim de cursos, mas proclamado o Estado angolano, desde 1975, os resultados produtivos do texto tradicional oral são, deveras, desoladores por conta da individualização, do desincentivo, da partidarização de processos académicos e editoriais com políticas impraticáveis em pesquisa e publicação científica. Para colmatar o défice, instituições insustentadas emergiram, a exemplo de projectos ao nível da UEA – União de Escritores Angolanos e da RNA – Rádio Nacional de Angola com destaque ao programa “Antologia” de António Fonseca, BJLA – Brigada Jovem de Literatura de Angola, com o projecto efémero “ohandanji”, NNARP – Núcleo Nacional de Recolhas e Pesquisa das Tradições Orais, sem fôlego devido à intromissão político-partidária, AASA – Associação de Antropólogos, Sociólogos de Angola, CESD – Centro de Estudos Sociais e Desenvolvimento, CERTO – Centro de Estudos e Recolha das Tradições Orais.

O ponto de partida ao estudo e à divulgação da Tradição Oral de épocas anteriores residiu na importância que o sistema colonial atribuíra, investindo em instituições autónomas orçamentadas, apesar da finalidade política, das quais citamos o CITA – Centro de Informação e Turismo de Angola, FTPA – Fundo de Turismo e Publicidade de Angola, IICA. – Instituto de Investigação Científica de Angola, JIU – Junta de Investigação do Ultramar, BC – Boletim Cultural, AU – Agência do Ultramar, Revista “Garcia da Horta”, MA – Mensário Administrativo.

Sem visibilidade, em 1983, com objectivo assegurar a recolha, preservação, estudo, pesquisa e promoção de valores civilizacionais bantu, foi criado em Libreville, o CICIBA – Centro Internacional das Civilizações Bantu, com Angola entre os fundadores nas pessoas de Vatumeni Kukanda e Simão Souindoula, até 1991, em paralelo aos especialistas de Camarões, Comores, Congo Brazzaville, Gabão, Guiné Equatorial, República Centro-africana, República Democrática do Congo, Ruanda, São Tomé e Príncipe, Zâmbia.

O tema em dissertação é, deveras, vasto quanto complexo, que passa por vicissitudes linguísticas de tal sorte que o plano decenal da UNESCO, de 1972, para o estudo da Tradição Oral e a promoção das variantes línguas bantu, indicava entre as várias prioridades, a uniformização de normas de transcrição. ortografia e leitura. 

No decurso do consulado de António Jacinto, o Ministério da Cultura da RPA – República Popular de Angolaorganizou um estudo da composição do alfabeto fonológico bantu, sob coordenação de Maria Celeste Pereira Albakaye Kountá e terminou em 1980 com a chegada de Boubakar Diarrá, perito da UNESCO/PNUD em auxílio. Tratou de caracterizar a fase seguinte orientada na formalização do alfabeto fonológico de seis variantes linguísticas bantu, escolhidas por experimentação; mbunda com 25 alfabetos, cokwe com 24, umbundu e kimbundu, com 23 a cada, ocivambo com 22 e kikhongo com 20. 

Da conclusão, Angola enveredaria pelo alfabeto morfológico anglo-saxónico praticado pelos cristãos Protestantes, por conta das de estudos anteriores das estruturas etno-linguísticas bantu com características adstritas ao grupo linguístico das aglutinantes, assexuais, prefixais, inflexivas. 

Factores coactivos, desde ao passivo da Administração colonial do tipo direct rule, a nacionalização da língua portuguesa, enquanto instrumento estratégico de unidade nacional, contribuinte à convivência pacífica com a língua bantu (cfr. GOMES, 2013), oneraram no fracasso do projecto beneficiando os cristãos. Razões não menos relevantes, como socioculturais e político-ideológicas, conduziram o Estado angolano a decisões pragmáticas, atribuindo à língua portuguesa o estatuto Constitucional. 

Da consequência imediata harmonizou-se o uniforme da abertura dos sons da língua portuguesa falada em Angola, adaptada às estruturas bantu o que justificou a tese cristã, de meado da década de 1940, pelo que a língua falada em Angola passou à pronúncia de mescla luso-bantu, escrita em português e lida em bantu, ao ponto de afectar a estrutura mental, com toda asfixia científica da Tradição Oral.

Bibliografia recomendada

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  • 1. Além da transmissão de informações úteis e pedagógicas, esta figura tinha relevância no marketing comercial e a sua fala obedecia o uso de melodioso de instrumentos musicais para tornar mais atrativo o seu papel. Mesmo sendo milenar entre os bantu, no seu todo é desconhecida em Angola.
  • 2. Jornal “O Público”, de 19 de Outubro de 1993
  • 3. in Ondula, savana branca
  • 4. Discussões, debates, polémicas, tertúlias, colóquios,

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