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Dias rotos

da série “o meu confinamento é melhor qu’ó teu! / o meu confinamento não é pior qu’ó teu!” que não é série nenhuma

Anteontem trabalhei até às 4 da manhã, para acabar uma cena que tinha de partilhar para outra coisa poder avançar. Não se fazem transcrições, traduções ou textos com caos sonoro e movimentos repetitivos. Também nada disso se faz com interrupções constantes. É uma merda não ter a capacidade de trabalhar com barulho, adoro o silêncio da noite e a solidão. É quando oiço melhor o que vai cá dentro. Durante o dia, pai é uma palavra que por estes tempos parece que passou a ser uma interjeição, pai pa pá pá pá pá.

Às nove da manhã estou a pé de novo, é hora da mais velha comer e preparar-se para a aula síncrona, o novo modelo em que a professora tenta passar meia dúzia de ideias em 45 min, embaraçadas pelo som do interior das casas de cada um dos 25 meninos e meninas, que se esquecem de desligar o microfone. Nenhum som é claro, o choro de um irmão ou irmã mistura-se com a voz de um pai ou uma mãe a tentar encontrar a mãozinha virtual para levantar. “ó p’sôra isto não está a dar”, “ó p’sôra não vejo mão” “ó p’sôra eu tenho a mãozinha”, enquanto as outras crianças tentam em vão o sistema antigo, acenar insistentemente face ao ecrã à espera de poder falar. “Meninos, eu estou sempre a cortar os microfones [quer dizer, o pio], têm de tirar o som”. Depois vêm os problemas técnicos de um, outro e outro. Uns estão na cozinha, outros em quartos cor-de-rosa, outros em quartos “de rapazes”, uns falam de puzzles que fazem com os pais, de mil peças, logo outros dizem que fizeram de duas mil de três mil, e rapidamente estamos num pissing contest. Mas são as desigualdades sociais que podiam ser retratadas a partir deste novo modelo de tele-escola que me vêm à cabeça. Estamos hoje todos a olhar para dentro das casas dos “coleguinhas” dos nossos filhos, mas uns nem aí conseguem chegar. Consciente dessas merdas, escolho um lugar neutro, onde ninguém precisa de passar por trás e onde não se vê nem riqueza nem pobreza. Neutralidade aqui means “ausência de muita informação”.  Alguém já pensou em fazer um manual (de etiqueta)  para os pais na escolha do lugar das videoconferências dos seus filhos? 45 minutos passam relativamente rápido. Segue-se a tele-escola e mais uma rodada de dúvidas. 

A mais pequena, no pré-escolar, também precisa de atenção, mas já está farta de atividades demasiado simples e já entrou numa rejeição das mesmas, tornando mais complicada a articulação entre o 3º ano e o pré-escolar, em simultâneo e com um facilitador de empréstimo (professores são os que têm as competências, a dedicação e o tempo para preparar atividades e aprendizagens, not me!). Mas este facilitador antes mesmo do tempo dedicado a este novo caos acabar já tem mais coisas para fazer, tais como: dar algum tempo de respiração à mulher que toma conta da bebé; e cozinhar; keep it simple. Entre a faca que desliza nos legumes, as panelas que ressoam com azeite quente, a dança que é a cozinha, onde felizmente a prática traz consigo a agilidade – como tanta coisa na vida – é preciso balançar uma bebé ao ritmo que lhe convém, na posição que lhe convém, com os passos que lhe convêm, fazer caretas e sons interessantes, altos baixos, suaves e fortes, falar com ela, apontar cinquenta vezes para as coisas mais imediatas e dar-lhes nomes: nariz, olhos, bochechas, espelhos, caras com nomes caras com parentescos caras com pelos e caras sem pelos com óculos e sem óculos, na esperança de ver desenvolver uma pequena articulação quando ainda tudo é reflexo. O tangível impera na vida de um bebé, haja ao menos alguém com capacidade de viver o imediato, o “logo ali”, e não uma mente viciada no passado e no futuro.

A mesa de refeição é mais uma ocaião para a interjeição pai-pá ser sempre seguida de uma pergunta. Pode ser um rótulo que desperta a atenção, os números no rótulo, os ml e os l soltos, as letrinhas, ou as imagens, pode ser a forma de uma fruta, ou pode ser o tamanho e origem do universo, a distância de um país ou as palavras e os seus equivalentes em várias líguas, tudo ao mesmo tempo, todas as perguntas têm de ter uma resposta, já!, de preferência, antes da próxima garfada. Nada se move sem alimento, material e intelectual. Em certos dias parece um bombardeio. Paipaipaipai! Paipaipaipai! Que nem uma metralhadora. De resposta paciente em resposta paciente cresce a falta de paciência e entra o outro tom no cenário, autoritário, mas de frustração e cansaço, o do “come!”. O almoço acaba e às 15 ainda há umas tarefas da escola para terminar. 

Sento-me para trabalhar. Consigo fazer isso até às 17:30, duas horas, e mais uns minutos. Reparo que os sacos do lixo precisam de sair de casa, ultimamente saem sempre aos pares, já sairam em trio ou completando um quadrado, até nisso há gestão. A campainha soa, é uma encomenda, tenho de descer nove andares para assinar. Levo a mais pequena comigo, porque precisa de apanhar ar. Vou dar a primeira volta com ela em mais de um mês, começou a dizer que já está farta de estar em casa nos últimos dias. Resistiu até agora. Aqui não houve “passeios higiénicos” porque existe uma bebé nascida no início deste Grande Confinamento. 

Não tenho um roteiro definido, vou pensando enquanto faço toda uma nova ginástica – sacos do lixo, criança, homem da DHL, atravessar a estrada, abrir portas, fechar portas, desinfetar mãos. Primeiro penso que a volta tem de ser a pé, depois decido que preciso de ligar o carro, antes que apodreça. Penso no caminho conforme me deixo ir, saindo da zona, cruzando primeiro os ocupantes das novas ciclovias do concelho de Sintra, toda a gente que passou a fazer passeios e desporto. Há quem se queixe disso no grupo dos habitantes da localidade, que deviam ir todos para casa. Mas as pessoas que vejo são ordeiras, estão na sua cena, como eu, a cuidar da sua saúde mental e da saúde mental dos seus. O carro leva-me instintivamente a uma das casas onde os meus avós constituíram família, vindos do interior do país, numa aldeia que parece parada no início do século XX e onde passei muitos verões e onde vivia o meu tio que em 1965 estava em Catió, que agonizou nos seus últimos anos de vida, quando vivia das memórias das viagens que fez por terra até à Guiné, passando pelo Senegal. As nossas últimas conversas foram sempre sobre essas viagens, em que capitães e soldados foram chorar as lágrimas que retiveram dentro de si, e pedir perdão, em seu nome próprio. Não contei nada disto à miúda, disse-lhe só que foi uma das primeiras casas da avó. Fui contornando o perímetro descrito em torno de casa, à distância de uns 5 ou 6 kms de raio, num geometria instintiva. Fui parar a um parque urbano, paredes meias com o palácio de Queluz, e foi aí que demos a pequena caminhada. Vento frio na cara, dia chuvoso, cuidados redobrados, de todos quantos se cruzam e evitam.

Volto a casa. Vejo que a pastelaria, que por estes dias vende pouco mais do que pão. não tem público. Aproveito. São 19h. Os novos rituais obrigam a um banho assim que se chega da rua. Lavar mãos, desinfetar tudo o que possa ter estado em contacto com a rua – até o pão! – entrar na casa de banho e sair pronto a voltar a respirar. A chegada a casa passou a ser como suster a respiração. Só depois do banho é que se retoma a vida. Não sei o que se lava quando da rua nos metemos diretos no banho, a ideia de contágio talvez. 

Penso em ir trabalhar mais uma vez, mas ainda há muito movimento. É só às 22h quando a casa silencia, depois de jantar (sem ter de cozinhar), depois da bebé já estar pronta para dormir, depois das crianças ficarem silenciosas, que a casa começa a ganhar os contornos de um espaço que permite trabalhar. O dia todo é uma luta para encontrar o espaço que permite pensar, um espaço de vitalidade e sem zonas demasiado baças. Trabalho das 22 às 2 da manhã, não consigo mais, arranjo um ponto de paragem no trabalho que me permite recomeçar a partir dali sem ter de reentrar no que estava a fazer. Hoje ainda não voltei a esse trabalho, estou a escrever este texto. São 16 horas. A bebé dorme aqui ao lado.

Há uma nova normalidade, tudo o que fazíamos antes já parece parte de uma vida passada. Ainda não parei. Não vi nenhuma série, não pensei na vida, não me sentei a contemplar nada, não li um livro, não bebi um copo de vinho às 19, não pus música a tocar e fui descontrair. Não aproveitei o que queria do tempo em família. Também não dormi, não cochilei, não adormeci no sofá. O meu maior luxo neste tempo foi escrever este texto e ontem à uma da manhã sentar-me durante meia hora, a revisitar as gravações que fiz no pátio interior do hotel Barbas, a 80 Kms da fronteira com a Mauritânia, no Sahara Ocidental, enquanto uma televisão fazia o relato do jogo da bola em árabe, sempre tão enfáticos nos seus relatos, e um grupo de senegaleses chegava em caravana para comer um thiebou djenne feito pelo cozinheiro do hotel, ele também senegalês. 

Rikmow 20200422

(fotografia do autor)

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