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Eu, Tituba, Bruxa… Negra de Salem

Sobre o livro Eu Tituba, Bruxa… Negra de Salem, de Maryse CondéTradução de Diogo Paiva, Maldoror 2022

Nascida a 11 de fevereiro de 1937 em Pointe- a- Pitre, Guadalupe Maryse Condé é uma reconhecida escritora, ativista e feminista com obras publicadas em francês e traduzidas em várias línguas. Ficção, história, contos, novelas, poesia fixaram o seu nome na literatura do mundo e ligam o seu trabalho ao tráfico de pessoas escravizadas, à situação da mulher e à história do continente africano. Cumpre aqui destacar o seu trabalho como professora na Guiné, Gana, Senegal e em Universidades os estados Unidos (Columbia e Berkeley) e França (Nanterre e Sorbonne).

As suas obras foram distinguidas com numerosos prémios internacionais. Os seus livros e o texto What is Africa to me revelam uma longa reflexão, na tradição de outros autores caribenhos, sobre as suas particulares relações com o continente. Questões de identidade antes e pós colonialidade, interrogações sobre o pan-africanismo revelam uma mulher atenta ao seu longo tempo e indicam os caminhos de reflexão desta autora que com uma voz segura de mulher e negra relata as suas relações com as terras ancestrais, os caminhos da modernidade.

Ségou, publicado em 1984, com o subtítulo de As muralhas da terra, é o seu livro sobre as antigas civilizações africanas e o impacto que sobre elas tiveram a chegada dos europeus, as mudanças das rotas do comércio. Recupera da tradição oral o tecido de antigas sociedades e assume-se griot ao relatar a sua importância entre Bamako e Tombouctou.

O texto que nos reúne aqui hoje – Eu, Tituba: Bruxa…. Negra de Salém – recupera um episódio da história que reside no imaginário popular, no cinema, no teatro e da literatura e narra, segundo o olhar de Tituba, a única negra ligada a este acontecimento e uma das poucas sobreviventes do Julgamento que, em 1692, teve lugar em Salem, Massachussets. O acontecimento, muitas vezes abreviado para As bruxas de Salém, tem sido objeto de tratamento literário por escritores como Arthur Miller, Jean Paul Sartre e o cinema não ficou indiferente ao tratamento das guerras entre puritanos ingleses e índios na Nova Inglaterra. O fanatismo religioso, as rivalidades entre familiares, os envenenamentos por fungos da farinha, as lutas por posse da terra, têm no cinema e literatura lugar de destaque em tentativas de inscrever na memória coletiva este julgamento que envolveu mais de 150 pessoas e a condenação à morte de mais de vinte e cinco.

Quer no cinema, quer na televisão (série televisiva Salem, de 2013) e ainda na história da formação dos Estados Unidos da América, a personagem Tituba é várias vezes referida para logo de seguida ser remetida a uma condição de invisibilidade como acontece a todas e cada uma das mulheres inscritas na condição de escrava e sobrevivente ao julgamento.

No livro de Maryse Condé é Tituba que tece os fios da história desde logo pela atribuição de um lugar de nascimento – Barbados, onde passa a sua infância marcada pela morte violenta da mãe. Cresce livre e é iniciada nos processos da cura e das ligações complexas entre o universo dos vivos e dos mortos. Ganha ainda nesta infância de liberdade e aprendizado a “dupla consciência” (Du Bois) de pertença a vários mundos e é nessa redescoberta de uma identidade que investe para segurar o seu lugar entre zonas de contato e da força do conhecimento capaz de destruir as convenções da sociedade patriarcal e violentamente escravocrata. Torna-se escrava por amor e assim é transferida para nova Inglaterra ao serviço de um pastor conservador e símbolo da sociedade patriarcal.

Ao oferecer a Tituba a condução da história, Maryse Conde faz mais do que criar uma protagonista escrava: analisa as questões do capitalismo e colonialismo em formação, os diferentes trânsitos entre mundos, tráfico das pessoas escravizadas, as rebeliões (os quilombola estão presentes no romance), dá voz a uma mulher e ao seu corpo sujeito à violência da dominação do homem e do sistema.

A constante desumanização das pessoas escravizadas é aqui desconstruída à medida que pela voz de Tituba (Eu, Tituba, Bruxa ….Negra  de Salém) a história do mundo e das zonas de contacto (Mary Louise Pratt) no século XVII se tornam percetíveis.

Há neste livro de Maryse Condé a instalação de um processo de rutura que subverte a tradição literária dominante e instaura uma nova identidade e uma capacidade de negociação entre margens e centros. Tituba, mulher de múltiplas iniciações, acrescenta à história a voz dos que não costumam falar, dos que não constam da história a não ser como estatísticas.

Tributária do sistema de pensamento e cura Obeah (Obi) usa os seus poderes para curar, proteger e amar. Confessa-se Bruxa e servidora porque não há outra maneira de  ser entendida pelos juízes que a julgam. Sabe que o espaço do meio que conhece não pode ser percebido pela cultura dominante e pela histeria coletiva que dominou a terra onde vivia.

Disso e muito mais nos dá conta Maryse Condé ao oferecer a Tituba um destino que a salva do esquecimento. Lugar de nascimento, consciência dos seus poderes, vida em trânsitos contribuem para nos devolver a mulher para que a memória perdure e sobreviva para lá da violência e do racismo que ainda ensombram os nossos dias.

Livro disponível aqui.

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