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“Manifesto” pela representatividade da arte e dos artistas em Cabo Verde

Tendo em consideração que em Cabo Verde algumas opiniões são interpretadas como a favor ou contra o poder político, entidades culturais ou qualquer setor público e privado com responsabilidades culturais, alerto que não é essa a minha posição. Na verdade, as minhas opiniões são meros exercícios de cidadania ativa de um caboverdiano que está há muitos anos fora de Cabo Verde, na diáspora. No entanto, são muitas as vezes em que exercito a mente perante as adversidades e desafios políticos, sociais e principalmente culturais que o país enfrenta em tempos difíceis, os quais produzem um grande impacto na nossa afirmação como uma grande nação. Uma vez que a mão obedece à mente, extrapolando todas a vicissitudes, não pude deixar de redigir este texto com o objetivo de partilhar convosco as minhas inquietações sobre o atual estado da arte e dos artistas das ilhas da morabeza. Decidi que darei ênfase à cultura que é para mim, o néctar de um povo.

Dentro da cultura quero dissecar as díspares manifestações culturais (artes) e os artistas. Na minha opinião, as manifestações culturais são: a música, a dança, a pintura, a escultura, a arquitetura, a moda, o cinema, a literatura, a poesia, a cerâmica, a tecelagem, o artesanato, o teatro, etc., enfim todas as formas de representação de um povo. As representatividades de um determinado grupo social na esfera internacional manifestam-se através dos comportamentos, tradições e conhecimentos que são transportados para as manifestações culturais mencionadas, sendo estas o espelho e o elo de comunicação na linguagem universal que é a arte.

Contudo, nem todas as demonstrações culturais beneficiam do mesmo tratamento, investimento, publicidade e financiamento. De facto, isto não faz sentido, pois não deveria existir o favorecimento de uns em detrimento de outros, como muitas vezes deixa transparecer a gestão dos recursos pelos órgãos competentes da gestão cultural em Cabo Verde. Nos últimos anos, tem-se assistido a um certo favorecimento na promoção da música em prol das outras áreas culturais, situação esta que tem prejudicado bastante a produção e a expansão por parte de outros setores da cultura, incluindo a produção artística.

A falta de uma estratégia assertiva por parte das entidades que gerem o setor da cultura é gritante e assustadora. Quando se trata de selecionar artistas para representarem o país nas grandes mostras internacionais, temos que definir criteriosamente os parâmetros de seleção daqueles que queremos que nos representem. Representar uma nação é carregar nos ombros o peso da responsabilidade, dos sonhos e da resiliência de um povo. Não há maior carga simbólica para um artista do que estar num grande evento a representar milhares de pessoas com a sua música, pintura, dança, teatro, escultura, cinema, literatura, etc. E, acima de tudo, temos de proporcionar condições àqueles que nos vão representar, mais especificamente, estadia, transporte das matérias, alimentação, deslocação e custear as viagens.

Quando os artistas se deslocam para outras paragens para representar o Estado em Feiras Internacionais, Expos, e Bienais que são eventos onde muitas vezes são convidados países que, por sua vez, escolhem os artistas para os representarem, temos que ser sérios nas escolhas, a não ser que seja um evento internacional só de música que penso não ter sido o caso da Expo Dubai 2020, realizado devido à pandemia em 2022, onde Cabo Verde teve uma representação no mínimo duvidosa.

Na verdade, faltou nesse evento aquilo que de melhor e de grande qualidade temos no país, que é a nossa diversidade cultural. Recapitulando a lista dos artistas nacionais presentes na Expo Dubai 2020, nos dias 3 e 4 de fevereiro, tivemos Elida Almeida, Nelson Freitas, Djodje, Neusa de Pina, Cremilda Medina, Dynamo, Ferro Gaita, Sónia Lopes, Khaly Angel, Jennifer Solidade e Fatú Djakité, cantores de segmentos e musicalidades muito idênticas. Nada contra estes artistas mencionados, aliás, são todos muito talentosos e eu, como amante da boa música, pagava para assistir a um espetáculo de qualquer um deles. No entanto, sejamos honestos ao afirmar que não há muita diversidade musical neste conjunto de músicos e que as músicas de Cabo Verde são muito mais do que isso. Os artistas compareceram ao evento, porque foram selecionados e estão isentos de culpa, não restando dúvidas de que deram o melhor deles em prol da nação cabo-verdiana.

Mas paira uma pergunta, que tem a ver com aqueles que os selecionaram e com base em que critério(s). Será que os cabo-verdianos não são dignos de uma explicação, como se diz no bom crioulo de Santiago “pa mas fedi qui seja diskulpa, é debi dado” ou será que “culpa ta morri solteru como sempri”? A ver vamos. A representação de uma nação é algo sério e não “cambalaxus” entre entidades com responsabilidades da promoção da cultura nacional e pseudos-promotores de artistas. Brincar com a representação de um país deveria ser considerado crime de lesa-pátria e os responsáveis deviam prestar contas ao povo cabo-verdiano.

Gostaria de saber se os custos inerentes à comitiva que acompanhou o Sr. Primeiro Ministro, entre outros governantes e empresários, foram suportados pelos mesmos ou foram financiados pelas receitas públicas em tempo de grande necessidade, algumas básicas, por parte de muitas famílias cabo-verdianas.

Passo a citar o excerto de uma entrevista do Ministro da Cultura de Cabo-verde Abraão Vicente, alguém de quem esperava um pouco mais de bom senso nestas questões, “Abraão Vicente lembrou, esta semana, que somos 500 mil cabo-verdianos, todos com aquela “onda de vontade” em estar em tudo quanto é Expo, não podendo o MCIC infelizmente agradar a todos na hora do “passa sabi”, bem sei que “desdi qui katchor podu nome rispetu, rispetu kaba na terra”. Sr. Ministro da Cultura o respeito é bonito e os milhares de cabo-verdianos merecem e exigem-no, principalmente por parte daqueles que o povo escolheu através do sufrágio universal para nos representarem e ocuparem cargos de grande responsabilidade para a Nação, afinal, não somos uma nação de “bananas” como em tempos alguém disse.

Moussa Traorè – Sans Titre, 2019Moussa Traorè – Sans Titre, 2019

Os artistas plásticos, os bailarinos, as companhias de dança, os grupos de Batuku, a Tabanka, os grupos de teatro, os cineastas, etc., não são cidadãos de 2.º. As instituições e os responsáveis pelas mesmas têm que tratar de forma igualitária todos os artistas e todas as expressões artísticas existentes no país. Devemos todos zelar pela meritocracia em vez do nepotismo bacoco que paira sobre as Instituições de grande responsabilidade em Cabo Verde.

Penso que mais do que um projeto, tem que ser uma certeza a iniciativa dos artistas plásticos que querem a introdução das artes no ensino nacional. Este projeto seria de grande vitalidade para a consolidação da arte e dos artistas em Cabo Verde, primeiro devido ao grande caráter educacional que a arte impõe aos seus aprendizes, que são pedras basilares de qualquer sociedade: o respeito pelo trabalho dos outros, sentido de crítica construtiva, estimula o pensamento e a criatividade, promove o sentimento de companheirismo, disciplina e, não menos importante, desenvolve um sentimento de humanismo que é o que faz muita falta à humanidade neste tempos que correm.

Países ditos do primeiro mundo que abandonaram o ensino artístico e as ciências humanas como a história, filosofia, literatura, etc., em prol das ciências tecnológicas “não menos importantes do que as outras” já estão a fazer um caminho de retorno. É preciso implementar o ensino artístico com a mesma responsabilidade e profissionalismo que as ciências Sociais/Humanas, Economia e as ciências Tecnológicas, até como forma de educarmos a mentalidade de alguns governantes e da nossa própria nação.

Para terminar, peço-vos permissão para citar uma frase de um grande pintor Joan Miró “Mais importante do que a obra de arte propriamente dita é o que ela vai gerar. A arte pode morrer; um quadro desaparecer. O que conta é a semente”. Urge, neste sentido, começar a deixar sementes.

Espero não ser vítima de nenhuma censura política nem ter nenhum processo civil, uma vez que nos dias que correm, já é moda em Cabo Verde, onde parece termos voltado novamente à época do colonialismo.

Aguardemos pelos próximos episódios.

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