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O etnógrafo perante o colonialismo

1Este esboço reproduz – numa versão bastante reformulada, mas marcada, contudo, pelas suas circunstâncias de origem – uma exposição, seguida de discussão, realizada a 7 de Março de 1950 na Associação dos Trabalhadores Científicos (secção das ciências humanas) perante um auditório composto, sobretudo, de estudantes, investigadores e membros do corpo docente.

 

A etnografia pode ser definida sumariamente como o estudo das sociedades encaradas do ponto de vista da sua cultura e estas constituirão o objecto da nossa observação para delas extrair os respectivos caracteres distintivos. Historicamente, a etnografia desenvolveu-se ao mesmo tempo que se efectuava a expansão colonial dos povos europeus e se estendia a uma porção cada vez mais vasta das terras habitadas por esse sistema que se reduz essencialmente à subjugação de um povo por um outro povo dotado de utensílios mais eficazes, ao mesmo tempo que se lançava um véu vagamente humanitário sobre o objectivo final da operação: assegurar o lucro a uma minoria de privilegiados. Difusão da cultura ocidental concebida como a mais perfeita, a despeito de invenções tais como a iperita (utilizada por Mussolini contra os abissínios) e, actualmente, a bomba atómica (com que o mundo antigo é ameaçado pelo governo americano), valorização de territórios que, de outra forma, se teriam mantido improdutivos, avanço do cristianismo e da higiene, eis as mais invocadas entre as razões, boas ou más, que o colonialismo moderno pode encontrar para dominar países e explorar os seus habitantes, alienando-os de si mesmos. É preciso não esquecer que foi também uma missão de ordem humanitária que a Alemanha pretendia atribuir-se, quando mascarava os seus actos de banditismo por detrás da ideia de uma regeneração da Europa e justificava os seus extermínios através de uma determinada eugenia.

Se bem que todas as sociedades possam ser estudadas deste ponto de vista, a etnografia tomou como domínio de eleição o estudo das sociedades “não-mecanizadas” ou, dito de outra forma, aquelas que não desenvolveram uma grande indústria e ignoram o capitalismo ou, de algum modo, apenas o conhecem a partir do exterior sob a forma do imperialismo a que estão sujeitas. Assim, neste sentido, a etnografia surge estreitamente ligada ao facto colonial, independentemente da vontade dos etnógrafos. Na sua maioria, estes trabalham em territórios coloniais ou semi-coloniais dependentes do seu país de origem e, mesmo quando não recebem apoio directo dos representantes locais do seu governo, são por eles tolerados, e mais ou menos associados, pelas pessoas que estudam, a agentes da administração. Em tais condições, será, de imediato, difícil para o etnógrafo, mesmo para o mais apaixonado pela ciência pura, ignorar o problema colonial, pois encontra-se, quer queira ou não, integrado nesse jogo, tratando-se de um problema, nem mais nem menos, vital para as sociedades assim subjugadas de que ele se ocupa.

Se é indiscutível que a etnografia – sob pena de deixar de ser uma ciência – deve tender para o máximo da imparcialidade, não é, por isso, menos indiscutível que, sendo uma ciência humana, não possa deixar de pretender um distanciamento menor do que aquele que caracteriza uma ciência física ou uma ciência natural. Apesar das diferenças de cor e de cultura, quando fazemos uma investigação etnográfica, são sempre os nossos semelhantes que observamos e não podemos adoptar em relação a eles a indiferença, por exemplo, do entomólogo que observa com curiosidade insectos a lutar ou a devorar-se entre si. Além disso, a impossibilidade de subtrair totalmente uma observação à influência do observador é, para a etnografia, ainda menos negligenciável do que para as outras ciências, pois ela vai muito mais longe. Mesmo se considerássemos – em nome da ciência pura – que devemos limitar as nossas investigações e não intervir, nada podemos contra o facto de a mera presença do investigador no seio da sociedade sobre a qual trabalha ser já uma intervenção: as suas perguntas, os seus propósitos, mesmo o simples contacto suscitam naquele que é entrevistado problemas que nunca se haviam colocado antes; isto leva-o a ver os seus próprios costumes a uma nova luz, abre-lhe novos horizontes. Para além do seu trabalho de investigadores, os etnógrafos adquirem, também, objectos destinados a ser estudados e conservados em museus. No caso, pelo menos, dos objectos religiosos ou dos objectos de arte transportados para um museu metropolitano, independentemente do modo como são indemnizados os anteriores detentores, é uma parte do património cultural de todo um grupo social que assim é retirado aos que sobre ele têm verdadeiramente direito, e é claro que esta parte do trabalho, que consiste em reunir colecções – se é que nisso pode ver-se algo mais do que uma pura e simples espoliação (dado o interesse científico que ela apresenta e o facto de, nos museus, os objectos terem a oportunidade de se conservar melhor do que se permanecessem no seu lugar de origem) –, faz parte, pelo menos, das acções do etnógrafo que cria deveres próprios perante a sociedade estudada: a aquisição de um objecto que não é normalmente destinado a ser vendido constitui, com efeito, um desvio dos usos e representa assim, de tal forma uma intrusão, que aquele que por ela foi responsável não pode, também ele, considerar-se totalmente estranho à sociedade cujos hábitos foram assim afectados.

Se, para a etnografia, mais ainda do que para outras disciplinas, é óbvio que a ciência pura é um mito, há que admitir, além disso, que a vontade de serem cientistas puros não pesa em nada, na ocasião, contra esta verdade: ao trabalharmos em países colonizados, nós, etnógrafos, que somos não só metropolitanos mas mandatários da metrópole – pois é do Estado que recebemos as nossas missões – temos menos fundamento do que quaisquer outros para lavar as mãos da política seguida pelo Estado e pelos seus representantes relativamente às sociedades que escolhemos como objecto de estudo e, perante as quais – nem que seja por astúcia profissional –, não deixámos de testemunhar, quando as abordámos, essa simpatia e abertura de espírito que a experiência mostra serem indispensáveis ao bom andamento das investigações.

Cientificamente, é já certo que não podemos, a não ser que as nossas perspectivas sobre elas sejam falseadas, negligenciar o facto de que as sociedades em questão estão submetidas ao regime colonial e que, por consequência, sofreram – mesmo no caso das menos tocadas, das menos “aculturadas” – um determinado número de perturbações. Se quisermos ser objectivos, devemos considerar estas sociedades no seu estado real – ou seja, no seu estado actual de sociedades sofrendo em qualquer grau o empreendimento económico, político e cultural europeu –, e não nos referir à ideia de uma integridade qualquer, pois é evidente que as sociedades sob o nosso domínio nunca a conheceram, nem mesmo antes de serem colonizadas, visto que não é verosímil que exista uma só sociedade que tenha vivido sempre em isolamento completo, sem qualquer espécie de relações com outras sociedades e, consequentemente, sem receber um mínimo de influências do exterior.

Humanamente, pela razão acima referida (a nossa pertença a uma nação colonizadora e o nosso carácter de funcionários ou encarregados de uma missão do seu governo), não nos é possível desinteressar-nos dos actos de administração colonial, actos pelos quais somos, necessariamente (enquanto cidadãos e enviados), parcialmente responsáveis e, em relação aos quais, não bastará, se com eles não concordarmos, deles nos dessolidarizarmos de um modo simplesmente platónico. Nós, cuja especialidade é compreender as sociedades colonizadas a que nos ligámos por motivos frequentemente alheios à estrita curiosidade científica, temos o dever de ser como que os seus advogados naturais face à nação colonizadora a que pertencemos: na medida em que existe alguma hipótese de sermos ouvidos, devemos estar constantemente preparados para assumir o papel de defensores dessas sociedades e das suas aspirações, mesmo que tais aspirações choquem com os interesses apresentados como nacionais e sejam motivo de escândalo.

 

(…)

 

pode continuar a ler em 

MALHAS QUE OS IMPÉRIOS TECEM. TEXTOS ANTI-COLONIAIS, CONTEXTOS PÓS-COLONIAIS 2

Índice

Manuela Ribeiro Sanches, Viagens da teoria antes do pós-colonial

Agradecimentos

I – Viagens transnacionais, afiliações múltiplas

W. E. B. Du Bois, Do nosso esforço espiritual

Alain Locke, O novo Negro

Léopold Sédar Senghor, O contributo do homem negro

George Lamming, A presença africana

C. L. R. James, De Toussaint L’Ouverture a Fidel Castro

Mário de (Pinto) Andrade, Prefácio a Antologia Temática de Poesia Africana

II – Poder, colonialismo, resistência trans-nacional

Michel Leiris, O etnógrafo perante o colonialismo

Georges Balandier , A situação colonial: uma abordagem teórica

Aimé Césaire, Cultura e colonização

Richard Wright, Tradição e industrialização

Frantz Fanon, Racismo e cultura

Kwame Nkruhmah, O neo-colonialismo em África

Eduardo Mondlane, A estrutura social – mitos e factos

Eduardo Mondlane,  Resistência – A procura de um movimento nacional

Amílcar Cabral, Libertação nacional e cultura

 

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  • 1. “L’éthnographe devant le colonialisme”, Cinq Études d’Ethnologie, Pays, Denoël Gonthier, 1983 [1950], pp. 83-112. Tradução de Manuela Ribeiro Sanches. Revisão de Maria José Rodrigues.

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