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Piratas das Caraíbas, a frota dos EUA ao largo da Venezuela

Nas águas quentes das Venezuela, lançaram âncora navios de guerra norte-americanos. Prontos para desmantelar a rota de cocaína que sai deste país para os EUA, via ilhas caribenhas. Os piratas ou cowboys do século XXI, como lhes chamou Nicolás Maduro, cercam de mansinho o regime venezuelano. Distraído, confinado e monotemático, o mundo quase nem deu por isso. 

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O vírus veio, chegou, infetou, amedrontou e anestesiou-nos. No entanto, o globo continuou a girar. E os espertos sabem que “camarão que dorme, a onda leva”. Neste caso, levou-o para as costas do Caribe venezuelano onde, para lá do horizonte, em distância curta mas segura, a armada dos Estados Unidos aponta canhões para terra.

Depois de meses de esquecimento, em plena crise de coronavírus que arrasa os Estados Unido, Donald Trump voltou à carga com a Venezuela. O novo arrebate do presidente norte-americano contra a “revolução bolivariana” soltou-se em meados de março, quando o Departamento de Justiça dos EUA acusou o presidente Nicolás Maduro e outros dirigentes venezuelanos de facilitarem e lucrarem com o tráfico de drogas massivo para norte — em conluio com guerrilheiros dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). No final do mês passado, a decisão foi ratificada por um tribunal de Nova Iorque e a cabeça do Maduro passou a valer 15 milhões de dólares. “São cowboys racistas do século XXI”, reagiu o novo “Most Wanted” da justiça norte-americana, refutando todas as acusações.

Armada dos Estados Unidos a caminho da Venezuela (Infobae)Armada dos Estados Unidos a caminho da Venezuela (Infobae)Esta era apenas a primeira jogada dos EUA num velhinho tabuleiro geopolítico. Nem uma semana depois, a Casa Branca anunciou unilateralmente um plano pronto-a-vestir para a “transição democrática” na Venezuela. O esquema desenhado em Washington prevê um governo provisório com representantes de Maduro e do opositor Juan Guaidó, o político que os EUA e grande parte da União Europeia reconhecem como presidente de fato do país sul-americano.

Daí até ao envio de uma armada para as costas venezuelana foi questão de dias. A 1 de abril, Donald Trump anunciou que ia duplicar a presença militar dos EUA no Caribe e no Pacífico. Aviões, helicópteros e navios de combate rumaram então a sul para “tarefas de vigilância”. Missão: desmantelar os cartéis latino-americanos e bloquear a rota da cocaína colombiana, sobretudo, que termina nos narizes do Tio Sam.

A dar um toque de atualidade, tipo contexto sem grande sentido, Trump tirou da manga o omnipresente coronavírus. “Não vamos permitir que os cartéis de droga aproveitem a pandemia para ameaçar a vida dos norte-americanos”, disse então. Uma relação no mínimo estranha, a fazer lembrar uma fake new que por aqui circulou e que garantia que a coca matava o bicho.

Vietname e os mil sóis

O dito plano de vigilância é regional mas grita, a pulmão aberto, “Venezuela”. Quando a missão foi anunciada, alguns funcionários norte-americanos nem tentaram dissimular. Admitiram sem rodeios que a o único objetivo é restringir a liberdade de ação do presidente Maduro. Quem conhece a dinâmica do tráfico de droga na América do Sul diz que focar a luta contra os narcos na Venezuela nem sequer tem sentido. Algo como tentar tapar o sol tropical com uma peneira rota. Em documentos públicos, o próprio Departamento de Estado norte-americano estima que 70% do tráfico marítimo de cocaína se inicia entre a Colômbia e o Equador na costa do Pacífico, no lado diametralmente oposto às praias venezuelanas. As Nações Unidas confirmaram também, em relatórios recentes, que “a rota do mar Caribe se reativou”, que “é importante”, mas que, “no caso da Venezuela, é muito menos representativa do que a rota do Pacífico”.

As Forças Armadas venezuelanas reiteraram o apoio a Nicolás Maduro (AP)As Forças Armadas venezuelanas reiteraram o apoio a Nicolás Maduro (AP)

Maduro conhece as inconsistências de Trump e apela à emoção. Com pena em tom grave, demagógico e propagandístico, redigiu uma carta aberta ao povo norte-americano. “Peço com o coração na mão que não permitam que o vosso país seja arrastado mais uma vez para outro conflito interminável, outro Vietname ou outro Iraque, mas desta vez mais perto de casa”.

A dica do coração é fofa mas não esconde a responsabilidade de Maduro pela atual situação. Como se diz na América Latina, o presidente tiene cola que le pise. Algo como “tem cauda que pisar”, comprida e não muito reta, digamos. Há bastantes anos que jornalistas, organizações e investigadores mais ou menos desapaixonados têm vindo a evidenciar relações do regime chavista com o narcotráfico internacional. No limite, há quem rotule o país de narcoestado.

Uma das peças-chave da teoria é o chamado “Cartel de los Soles”. O nome até podia ser poético, não fosse a sua inspiração. Os “sóis” são na verdade uma referência às estrelas douradas que os generais da Guarda Nacional Bolivariana portam nos seus uniformes. A justiça norte-americana aproveitou a deixa. Para pôr o regime em xeque, só teve de encontrar a ponta do novelo, puxar e desenredar os nós. O que encontrou, garante, permite-lhe afirmar sem sombra de dúvida que o “Cartel de los Soles” e outras organizações criminosas venezuelanas operam com a conivência (e lucro) não só de Maduro, mas também de vários peixes-gordos do sistema venezuelano. A lista inclui, por exemplo, Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Constituinte e considerado o número dois do regime, ou o ex-vice-presidente Tareck El Aissami.

“É muito menos provável que todas estas pessoas do círculo de Maduro tenham agora acesso a algum tipo de aterrizagem suave, porque sabem que é muito possível que terminem numa prisão em Miami”, comentou à organização InSight Crime Geoff Ramsey, encarregado da Venezuela no Escritório de Assuntos Latino-americanos, nos EUA. Pelo andar da carruagem, os processos judiciais em Nova Iorque são um campo minado que afastará a atual cúpula de poder de uma possível transição política. A tal transição que os EUA querem promover e que, garantem, será “inclusiva”. 

Sal e limão na ferida aberta

No campo militar, o que significa a posição de força de Trump nas costas da Venezuela? Os pessimistas estão preocupados, temem uma invasão ou um passo em falso de uma das partes que termine em violência. Por outro lado, os que estão habituados aos bluffs presidenciais relativizam e garantem que é mais fogo-de-artifício que outra coisa. 

A Guarda Nacional Bolivariana vigia a fronteira da Venezuela com a Colômbia, ponto quente de tráfico de droga (AFP)A Guarda Nacional Bolivariana vigia a fronteira da Venezuela com a Colômbia, ponto quente de tráfico de droga (AFP)

E há também os que lhe chamam de “tática de distração”. Com duas leituras possíveis. A primeira, que os EUA aproveitam este momento em que todo o mundo está distraído com o coronavírus para tomar pela calada uma posição de força há muito desejada contra Maduro. A segunda análise vira esse cenário do avesso e defende que a situação serve para distrair os norte-americanos da estratégia desastrosa de Trump no combate à pandemia, da queda a pique da economia do país e da subida estratosférica do desemprego. Se esta foi a intenção, não terá tido grandes resultados. Em tempos de mortes em massa dentro de casa, os media norte-americanos parecem estar nem aí para o que se passa a sul do Rio Grande.

Ciente do atual calcanhar de Aquiles de Trump, Maduro explorou o desespero pandémico para se defender. Na carta aberta (que seguramente quase ninguém leu) aos norte-americanos, pôs sal e limão na ferida e acusou o governo dos EUA de usar a Venezuela para criar “uma cortina de fumo para ocultar a gestão improvisada e errática da pandemia no seu país”. E acrescentou outra variável importante. “[O presidente] instrumentalizou as instituições para alcançar os seus objetivos eleitorais”, disparou, em referência às presidenciais de novembro em que Trump se quer reeleger. Não é um argumento descabelado. A ação sobre a Venezuela, garantem vários analistas, poderá arrecadar muitos votos da comunidade latina, sobretudo na Flórida, um estado fundamental para qualquer candidato que quer chegar à Casa Branca.

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