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10 anos África Festival. Conhecer a vitalidade da criação africana, entrevista a Paula Nascimento

Paula Nascimento programou as três edições do África Festival (em 2005, 2006 e 2007), evento que trouxe outra postura e visão da música produzida em África ou com ligações ao continente. Pertenceu à equipa do Africa.cont e, desde 2016, volta a colaborar com a EGEAC, atualmente na realização de exposições de artes visuais. Tem trabalhado nas artes performativas. Paula vive intensamente a sua Lisboa e as mudanças da vida cultural reconhecendo as marcas do tempo nas ruas e nas mentalidades. Angola e Cabo Verde são histórias vivas da sua família. Paula persiste na luta pela compreensão do mundo e por mudar a visão estreita sobre um continente culturalmente complexo.

O que mudou na perceção do público e na oferta da música africana no contexto português com o África Festival?

Penso que a mudança foi acompanhar e contribuir para a passagem da lusofonia ao multiculturalismo, que depois se transformou em interculturalismo. Introduziu uma dimensão aberta de África enquanto continente, com países e culturas diversificados, apelou a uma ideia e a um imaginário diferente sobre África.

O África Festival deu a conhecer o melhor da criação artística nas músicas de África e das diásporas africanas – proporcionou espetáculos de grande qualidade e valor artístico a um público alargado, já que o evento era de entrada livre – mas também, com a ambição de um projecto cultural completo, em outras áreas como a literatura, o cinema, o teatro ou as artes plásticas e visuais. O Jornal/programa desempenhou um papel fundamental para a compreensão dos tópicos abordados pelo festival, com as contribuições do João Bonifácio e do António Pires, respectivamente, em 2006 e 2007. Criou novos públicos, abriu portas para um universo pouco conhecido, interessou às comunidades africanas, mas também a pessoas fora dessas comunidades. Contribuiu para a profissionalização dos artistas e para uma maior abertura e tomada de consciência pelas estruturas culturais para a vitalidade da criação africana, com imediato reconhecimento internacional. 

Ali farka Touré, 22 julho 2005, Keil do Amaral, Monsanto 

A maioria da imigração em Portugal era proveniente de países africanos de expressão portuguesa. As iniciativas sobre África eram concebidas para o público das comunidades africanas do espaço da lusofonia e inclusivamente circunscritas a cada uma das comunidades. As visões aludiam quase exclusivamente a abordagens tradicionais das culturas africanas, sobretudo com carácter étnico, antropológico ou exótico.

As artes contemporâneas que entretanto emergiam no continente africano e nas diásporas não tinham espaço nem visibilidade em Portugal, e pouca representação no conjunto da oferta cultural do país.

Eram também poucos os agentes nacionais com trabalho na “música africana” (a designação que existia e penso que ainda hoje existe) e poucos músicos africanos ou afrodescendentes do espaço da lusofonia agenciados profissionalmente.
Para a programação do festival também foi necessário contactar directamente os artistas ou recorrer a agentes internacionais, fazendo depois a ponte com agentes nacionais.

Depois do África Festival esses espectáculos e eventos apresentam-se na Gulbenkian, no CCB, na Casa da Música, em Serralves, e transversalmente em vários programas e actividades, em espaços de referência. Existe o Buala, o Lisboa Africana e a Rádio AfroLis. Isso é óptimo!

Foi bem recebido, em termos de público e de crítica?

 O África Festival foi um acontecimento piloto e revelou-se uma novidade, foi muito bem recebido pelo público que demonstrou grande interesse, com uma resposta imediata massiva à altura dos objectivos, logo desde a primeira edição, e cresceu nas edições seguintes em 2006 e 2007.

Nos espectáculos em Monsanto e depois na Torre de Bélém, de entrada livre, não havia controlo de bilheteira, os cálculos foram feitos com base na área ocupada pelo público, confirmando-se nos registos em vídeo. No cinema São Jorge, na última edição em 2007, a entrada era gratuita mas com levantamento de bilhete e registou-se aproximadamente 6 mil presenças numa semana.

O África Festival foi igualmente bem recebido pela crítica nacional e internacional, com a importante colaboração com o Jornal Público, através do Vasco Câmara, que acolheu o festival e apoiou a ideia desde o primeiro momento, assim como o interesse de media internacionais como o El País, Les Inrockuptibles, BBC Radio 3, TAZ, Jornal de Angola, Voz di Povo e outros.

Que momentos altos do Festival destacas?

A abertura, com o inesquecível Ali Farka Touré, que trouxe como convidado Toumani Diabaté, apresentando em Portugal a música do Mali, seguido nas edições seguintes por Oumou Sangaré ou por Bassekou Kouyaté & N’Goni Ba, com Segu Blue, na sua primeira apresentação na Europa e no mundo. Baaba Maal pela primeira e única vez em Portugal; o reencontro com o trabalho de Bonga com a reprodução dos álbuns Angola 72 e Angola 74; também o Ondjaki e o desafio do projecto de teatro radiofónico que promove o encontro entre actores de origem africana a trabalhar em Portugal e dá origem ao livroOs Vivos, O morto e o Peixe Frito (Editorial Caminho, 2014); ou o Ecos da Banda, desafio lançado ao Kalaf que apresenta MCK, Conjunto Ngonguenha, Nástio Mosquito (com imagens de Kiluanji Kia Henda), no Cinema São Jorge. Destaco ainda o encontro em torno do livro Lisboa na Cidade Negra, com o Jean-Yves Loude, e também a exposiçãoTravel, na primeira edição em 2005, em colaboração com a Plataforma Revólver e o Victor Pinto da Fonseca, com os artistas Ana Silva, Gustavo Sumpta, Luisa Low Pew, Paulo Kussy, Silvia Moreira, Osvaldo da Fonseca, Francisco Vidal e Verónica Leite de Castro.

Bassekou Kouyaté & Ngoni Ba, 29 junho 2007, Jardim da Torre de Belém

À distância de 10 anos, como avalias a dinâmica atual dos artistas africanos (artes visuais, performativas e música) na cidade?

Neste momento em todo o mundo é reconhecida a vitalidade da criação artística africana. África é o continente onde a criação artística é mais dinâmica e inovadora, ocupando um lugar importante na criação contemporânea. Em Lisboa também se sente o crescimento e o interesse. Naturalmente há mais espaço. 

E a situação atual dos negros em Portugal?

A principal questão a ultrapassar é a condição de “negro” e o racismo, assunto pivot na agenda política actual. A Lei da nacionalidade é um assunto importantíssimo. A repressão e a agressão policial com base no ódio racial já são notícia na televisão! Penso que é mais importante falar-se de escravatura (o comércio de escravos) do que de escravidão (o estado ou a condição de escravo), embora sejam sinónimos, e escravidão seja a terminologia utilizada no Brasil.

Há uma grande percentagem de negros e mestiços em bairros sociais e nas periferias com situações sociais desprivilegiadas. A antiga Curraleira, o antigo Casal Ventoso, Bairro Padre Cruz, Chelas, Flamenga, Cacém, Rio de Mouro, Barcarena, Monte Abraão, Queluz, Pendão, Mira-Sintra, Massamá, Amadora, Buraca, Cova da Moura, Reboleira, Loures, Quinta do Mocho, Oeiras, Outorela, Porto-Salvo, Algés, Miraflores, Paço d’Arcos, Seixal, Arrentela, Almada, Barreiro, Vale da Amoreira, Vila Franca de Xira, Alverca, Forte da Casa, Póvoa de Santa Iría… e a Pedreira dos Húngaros, as Fontainhas ou o 6 de Maio… Continua a haver racismo, infelizmente, como sempre houve, mesmo face à importância que África representa, constituindo-se como a esperança de tantos sonhos. Um racismo envergonhado e dissimulado no paternalismo autoritário, uma forma muito própria de o expressar, um olhar subtil de soslaio, talvez um pouco menos exótico, mas suficientemente exagerado para não ser ou parecer “normal”. Persistem os complexos, as mágoas e os traumas dessa história, e um património usurpado.

A sociedade portuguesa continua conservadora, embora um pouco mais hype, ela própria está mais na moda.

As políticas públicas na área cultural têm contribuído para se passar uma relação mais interessada com a produção africana?

Em Portugal admira-se o que se faz no estrangeiro; para entrar nos circuitos (da arte ou em qualquer outro) continua a ser indispensável o reconhecimento internacional, para portugueses, africanos, ou outros criadores em Portugal.

Por parte de alguns agentes e também a nível político fazem-se tentativas, mas ainda vigora uma enorme rigidez quanto à forma como as temáticas são abordadas, perpetuando um discurso político instituído que não contempla as perspetivas de todos os envolvidos, as dos ex-colonizadores, as dos ex-colonizados e as dos novos descobridores. Os constrangimentos e os medos que estes assuntos levantam ainda não foram ultrapassados e criou-se um discurso estático que omite ou dissimula aspetos importantes para a compreensão e para o possível apaziguamento desta história. A linguagem e o léxico utilizados são importantes, estão desatualizados e precisam reinventar-se, continua a existir a ideia de descobrimentos… É difícil falar de escravatura, de colonialismo, de guerras pela independência, de descolonização, de racismo ou de outros temas desta natureza. As políticas públicas ainda estão muito centradas no pós-colonialismo e no neo-colonialismo. É necessário um discurso mais próximo, os artistas e os grupos de ativistas caminham nessa direção.

Recentemente o livro Papá em África, de Anton Kannemeyer foi retirado de venda na Gulbenkian. O Faustin Linyekula foi Artista na Cidade 2016. O Felwine Sarr veio este ano a Lisboa para apresentar o seu livro Afrotopia, falou de muitos aspectos importantes para a reflexão actual de todas estas questões e deixou também uma mensagem: “Il y a une différence entre envelopper et développer”.

Continua a fazer sentido criar programas específicos como “música africana” ou arte do Sul, África e América Latina?

“música africana” ou “arte do sul” são apenas conceitos. Falta encontrar nova designação. Alguns desses programas são às vezes determinados por financiamentos nacionais ou internacionais, em determinadas áreas de actuação política, mas a vitalidade artística desses lugares é incontornável na programação cultural actual.

No entanto, penso que continua a faltar um espaço que transcende o espaço físico. Um espaço sobretudo de respeito, de igualdade e de dignidade, de reconhecimento e de justiça. A presença e a representação do “corpo negro” na esfera de decisão política, institucional, mediática, como também na academia! Seria relevante introduzir nos manuais escolares a perspectiva da história pelos africanos, como por exemplo os livros de Elikia M’Bokolo, África Negra, História e Civilizações, Tomo I – até ao século XVIII (Editora Vulgata, 2000) e África Negra, História e Civilizações, Tomo II – Do século XIX aos nossos dias (Colibri, 2007), e outros. Editar estes conteúdos na língua portuguesa. O dilema é encontrar o equilíbrio entre a importância da criação de espaços específicos de libertação e a eventual “guetização” que daí pode decorrer.

Como surgiu a possibilidade de conceber e produzir o África Festival no teu contexto profissional? 

Foi através do Manuel Falcão, na altura na administração da EGEAC. Eu trabalhava no Teatro Maria Matos onde realizei o ciclo África Cá, em 2002, com o Miguel Abreu. Com o fecho do Teatro em 2004, para intervenções e obras na integração na EGEAC, convidaram-me para desenvolver um programa de música centrado em África para o Lisboa em Festa 2005 e que depois continuou nas Festas de Lisboa em 2006 e 2007.

 

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