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A ‘periferia’ a dar música ao ‘centro’ da cidade

É uma realidade que, em grande medida, continua por revelar. No quarto lá de casa, jovens dos bairros que circundam Lisboa estão a fazer alguma da música artesanal mais estimulante feita em Portugal neste momento, para ser dançada no coração da Lisboa boémia e culta. Esta é a história de Nigga Fox, de Marfox, de Maboku, da editora Príncipe, e do encontro suado e festivo entre a ‘periferia’ e o ‘centro’ na pista de dança.

Uma massa de corpos move-se freneticamente e sempre que um novo tema é lançado pelo DJ ouvem-se gritos de júbilo. São quase três da manhã, noite de fim-de-semana, num dos espaços mais conhecidos de Lisboa, o MusicBox, ao Cais do Sodré, e dança-se com uma tenacidade que não vê muito por aí, mistura de satisfação e sensualidade. Vislumbram-se rostos conhecidos da boémia lisboeta, mas há também caras que não são muito habituais por ali, numa salutar mescla de pessoas de cores, idades, roupas e carteiras diferentes entre si, unidas pela música. É um cliché. Mas ali essa utopia parece mesmo realidade. A música que se ouve pode ser serpenteante, mas por vezes torna-se mais ondulante e sensorial. Pode ser kuduro, batida, afro-house, funaná, tarraxinha, ou qualquer outra designação que apenas ouvidos experimentados conseguirão distinguir. Música física feita nos quartos por jovens músicos-produtores portugueses, oriundos dos bairros da periferia de Lisboa, que ali têm hipótese de se expressar na plenitude. São as noites mensais Príncipe, organizadas pela editora e promotora do mesmo nome, há mais de um ano, que têm ajudado a revelar a música de Marfox, Nigga Fox, Maboku, Firmeza, Kolt ou Dadifox. Para a maior parte serão desconhecidos. Para os amigos dos bairros constituem uma referência. Para nós estão a fazer alguma da mais estimulante música artesanal produzida em Portugal. E não somos únicos a pensar o mesmo.

Nos últimos tempos, os elogios têm surgido de todos os lados. Ainda há pouco tempo o conhecido jornalista Philip Sherburne na revista americana Spin falava da magnífica mixtape de Nigga Fox (“Meu estilo”) num tom elogioso, tecendo paralelismos de aproximação com nomes grandes da electrónica de dança como Ricardo Villalobos. E o mesmo sucedeu com a influente publicação americana The Fader, a propósito da incursão de Marfox pela tarraxinha, o género mais lento e carnal de todos os que aborda. Há música nova, e toda uma nova forma de a experimentar, a ser feita por aí, longe dos ouvidos do grande público. Por exemplo, no bairro da Quinta do Mocho, perto de Sacavém.

Chega-se ao lugar e constata-se que as frentes dos prédios são quase todas iguais, mas por vezes matizadas de roupa colorida nos estendais. São 16h, está um calor sufocante e à entrada de alguns edifícios, pela sombra, há pessoas em amena cavaqueira. Mas quase não se vislumbra vivalma. Às tantas um miúdo grita da rua pela mãe e ela surge à janela do prédio, gerando-se uma troca de palavras que todos ouvem. “Aqui temos o hábito de chamarmos uns pelos outros gritando da rua” ri-se DJ Firmeza, ou seja Cílio Manuel, 18 anos, um dos integrantes do colectivo Piquenos DJs do Ghetto, do qual fazem parte Liofox (Lione Bastos), Maboku (Waldemar Almeida), Dadifox (Valdemiro) ou Liocox (Ricardo Vieira).

MarfoxMarfox

Uma das grandes referências para todos eles é DJ Marfox, ou seja Marlon Silva, de 25 anos. Não é por acaso que a designação Piquenos DJs do Ghetto foi inspirada em DJs do Ghetto, nome do colectivo ao qual pertencia Marfox. Ele não é da Quinta do Mocho, mas sim da Portela, mas ali está também em casa. É conhecido e respeitado. E nas ruas todos o cumprimentam. Em 2006, ele, na companhia de Nervoso, N.K., Fofuxo, Pausas e Jesse, foram autores de “DJ’s do Guetto Vol. 1”, uma compilação que se disseminou rapidamente pela internet, sendo hoje vista como um marco para as gerações mais novas que abordam linguagens como o kuduro. Até ao momento lançou três EPs, para a editora londrina Pollinate Records, para a Enchufada dos Buraka Som Sistema e, o ano passado, para a Príncipe. Como DJ tem actuado um pouco por todo o lado. No estrangeiro também. “Sim, comecei a viajar com o meu colectivo em 2007, devido ao efeito da compilação ‘DJs do Ghetto’. Fomos os primeiros a fazer isso, com hotel, tudo pago”, afirma. Inicialmente apresentavam-se para as comunidades africanas de países europeus. Depois começaram a surgir os convites de clubes e festivais. E hoje já tem cartel na Alemanha, França, Dinamarca, Espanha, Inglaterra, Itália, Polónia, Sérvia ou República Checa. Dito assim, pode parecer que é uma estrela. Nada disso. “Consigo pagar as minhas contas e ajudar com o que posso em casa. Sei de onde vim e continuo a dar-me com as mesmas pessoas. Se algum dia alcançar sucesso a sério será um motivo de orgulho, pelo reconhecimento do meu trabalho, nada mais. Ando de transportes públicos, não tenho carro. Continuo a viver na mesma barraca. O que gosto é de música. É por ela que vivo.” Para ele a música não é apenas questão estética. É também ética. O dinheiro, claro, é bem-vindo, mas não é tudo. “No Japão, onde há faixas minhas a circular, pagam-me cordialmente direitos de autor, mas em Portugal a maior parte das rádios não o faz e o que me vale são as festas e não ter muitas despesas”, afirma, para logo de seguida lembrar: “o que fazemos, mesmo que seja indirectamente, acaba por ter também uma função social.” O bairro da Quinta do Mocho é um dos mais estigmatizados da grande Lisboa. Alguns dos moradores quando vão a repartições públicas ou procuram emprego, ocultam a morada. Não espanta. Quando surge na imprensa, o bairro é associado a lutas entre grupos rivais, criminalidade ou a conflitos com a polícia. Quem lá vive não nega que existem conflitos. Mas sentem-se injustiçados pelo olhar simplista. A começar por essa ideia de que é maioritariamente habitado por naturais de países africanos. Não é verdade. A maior parte é portuguesa. Por acaso, de cor negra. “A importância da noite Príncipe é também essa”, justifica Marfox, “é mostrar ao mundo o melhor que existe nestes bairros. É mostrar a música feita na periferia há muitos anos. É música boa, feita em Lisboa, com consistência.” Ele move-se com à vontade na periferia, mas também nos meandros cosmopolitas da cidade, percebendo que os eventuais desencontros começam, quase sempre, no desconhecimento. No medo do que não se conhece.

“Os de fora dos bairros acham que aqui são todos criminosos e os daqui acham que os de fora são todos hostis” diz ele. “É importante mostrar às pessoas daqui que também existe um outro lado em Lisboa e que nem todos têm preconceitos. As pessoas não saem muito do bairro, não vão muito a Lisboa. Então, é necessário tirar as pessoas daqui que fazem música incrível, para servirem de exemplo aos mais novos. Os miúdos que agora estão à janela a olhar para nós vão perceber que está aqui um jornalista e não foi por causa de criminalidade. Foi por causa da arte. E isso é importante, porque amanhã verão um traficante ser preso e verão o Firmeza ir ao Optimus Alive e quererão é ser como ele. E isso é um enorme estímulo social. ” Quem vive no centro da cidade tende a conotar negativamente os que habitam na periferia. O que muitos dos que o fazem não sabem, é que o cumprimento é devolvido. Ou seja, quem reside na periferia tende a achar que o centro urbano é muito confuso, conflituoso e também perigoso. Ali valoriza-se mais a proximidade dos familiares e amigos. Há um modo de vida mais localizado, menos móvel, mais concentrado no lugar onde se habita. Por outro lado, o facto de serem espaços híbridos, onde pessoas de origens diferentes coabitam, pode originar tensões. Mas isso leva-nos a esquecer a outra face: a verdade é que também pode potenciar a criatividade, precisamente pela pluralidade. “Aqui toda a gente se conhece, independentemente de onde é, e gosta do nosso som” diz-nos Lione Bastos, ou seja Liofox, 20 anos. “E até ficam surpreendidos quando chegam ao MusicBox e vêem aquele ambiente. É como se tivessem que ver para acreditar.” Qualquer coisa de semelhante é dito pelos membros do colectivo Blacksea Não Maya, residentes na margem sul do Tejo, na zona do Fogueteiro, Seixal. Vamos encontrá-los reunidos no bairro da Jamaica e Joker, ou seja Lito Noronha, também nos devolve que os amigos ficam sempre surpresos quando entram no MusicBox. Intriga-os o facto de no centro da Lisboa culta se fazerem noites assim, que eles nem no circuito da chamada ‘noite africana’ encontram. Para eles é como um sonho: “é como alguém que faz bolo de milho e encontra uma casa onde é possível partilhá-lo”, diz Joker. “Sentimo-nos bem ali. Sabemos que ali podemos mostrar o nosso som. Ao início não foi fácil, mas fomos percebendo que ali expandimos o som e podemos proporcionar felicidade e a cada ritmo ir deixando de lado os problemas.” Kolt, ou seja Adjalme Noronha, 20 anos, vai mais longe: “aquilo é a casa onde toda a gente gosta do nosso estilo e é isso que a gente quer também. Se formos pôr aquele tipo de som na discoteca Terrace, na Amora, não vai ser a mesma coisa.” Como acontece com a Quinta do Mocho, também o bairro da Jamaica é conotado com a marginalidade. Ali vive quase um milhar de pessoas a quem, quase todos os anos, é prometido realojamento. Ao que parece o problema subsiste há quase vinte anos. A maior parte dos edifícios tem os tijolos e o cimento à mostra, envoltos por instalações eléctricas precárias, rodeadas de poças de esgotos, e o abastecimento de água é clandestino. No topo de uma das torres ouve-se música. No café central, numa esplanada improvisada, joga-se às cartas e discute-se descontraidamente assuntos do bairro. De dentro do café ouve-se o ribombar de linhas de baixo gordas e ritmos disjuntos electrónicos. O colectivo dá a conhecer a Pedro Gomes, conhecido agitador da realidade musical portuguesa através da produtora Filho Único, a André Ferreira (músico dos Aquaparque e Tropa Macaca) e a Márcio Matos, todos eles ligados à aventura Príncipe, os novos temas, feitos ao longo das últimas semanas. Tem sido um processo gradual de conhecimento entre todos. A Príncipe fê-los perceber que podem aspirar a viver do que gostam de fazer, não tendo que ficar confinados às fronteiras artificiais dos bairros onde residem. E eles retribuem com música que tem tanto de físico como de fantasia, com uma poética própria, que cada vez mais gente quer ouvir e experienciar. Discute-se cada tema e escolhem-se os favoritos. Joker, o mais velho, é o mais falador. Mas depois existe também DJ Noronha (Fábio Noronha), Kolt (Adjalme Noronha), Perigoso (Ivan Varela), Wayne (Paulo Reis) e Locks (Miguel Ângelo). Todos portugueses, filhos de pais que vieram há muitos anos para Portugal oriundos de alguns dos países africanos de expressão portuguesa. “Sou DJ e em termos de produção faço um pouco a gestão da equipa e estou atento a novos sons, porque aqui funcionamos como família” diz-nos Joker. O colectivo formou-se há cerca de quatro anos. Uns dedicam-se à feitura da música. Outros estão mais direccionados para a passar nas noites.

Todos almejam um dia poder viver exclusivamente da sua actividade, embora exista a noção que vai ser difícil e nem todos o conseguirão. “Isso é um sonho que tenho desde pequeno”, diz Wayne, ou seja Paulo Reis, 17 anos, enquanto Perigoso, ou seja Ivan Varela, recorda que desde que começou, aos 13 anos, essa possibilidade está sempre presente no seu espírito: “se me esforçar, é possível”, diz. Começaram a fazer música cedo com o Fruity Loops Studio, um aplicativo conhecido entre profissionais ou para quem a criação de composição áudio é passatempo. É um programa de acesso simples, através do qual é feita parte da música. “Comecei por ver na internet como se fazia”, diz Perigoso, “depois fui desenvolvendo e aprendendo mais.” Apesar de electrónica, a sua música tem qualquer coisa de artesanal. Não é apenas a forma quase rudimentar como é criada, em casa, sem grande equipamento, é também a maneira como a sua exposição acaba por acontecer, directamente da casa para a pista de dança, sem mediação. Nada de novo, diga-se. A história dos blues, do samba, do fado ou do rock não é muito diferente. Inicialmente era artesanato. Música feita sem veleidades artísticas ou comerciais, para usufruto próprio, ou entre amigos. “Poder passar a minha música no MusicBox e ver as pessoas a reagir a ela já é muito bom, mas é claro que um dia gostaria de poder viver da minha actividade”, diz-nos DJ Noronha. Todos eles alinham por esta ideia. Curiosamente para a maioria, a cultura hip-hop é-lhes distante, tendo começado muito cedo a interessar-se e a fazer música diferente, do kuduro ao afro-house. “Ouvia hip-hop americano, mas chegou uma altura em que parei, porque comecei a entender que aquele imaginário e o estilo de vida de grandes carros não tinha nada a ver com a minha vida”, diz-nos Marfox. O estilo de todos eles é diferenciado. Marfox está mais próximo do kuduro, música de impetuosidade rítmica e de impacto sonoro imediato, que incorpora tudo o que tem à frente, sejam vozes cortadas ou sirenes de alarmes. “Estou sempre a produzir e numa semana posso fazer dez ‘beats’ para passar na pista, dependendo da dedicação e inspiração”, assegura, recordando que as suas sessões são diferentes, consoante o espaço. “Quando não me conhecem não arrisco tanto. Mas quando isso acontece opto por temas mais sombrios e profundos. No MusicBox acontece isso e nas Hard Ass Sessions no Lux também. São sessões mais personalizadas. Mas também sou capaz de fazer sessões mais acessíveis e passar coisas que toda a gente conhece, para sentir que a pista está comigo.” Para Liofox o seu estilo é mais “tradicional, mais fundo, mais ritmo africanizado”, enquanto Maboku define-se como DJ de afro-house, “porque o kuduro é muito rápido e eu prefiro o house.” Ou seja, dá ideia que o frenesim rítmico do kuduro é cada vez mais substituído por sonoridades menos velozes, sejam afro-house ou tarraxinha, e com uma construção harmónica mais progressiva. E regressamos ao MusicBox. Na cabine está agora Nigga Fox, ou seja Rogério Brandão, 22 anos, estudante de informática, a residir no Lumiar. Não pertence a nenhum colectivo, mas conheceu Marfox na escola em Marvila e foi ele que o introduziu no universo da música. Às tantas passa alguns temas criados em casa nas últimas semanas. Há dinamismo rítmico, mas inúmeros elementos a rodeá-lo. Existe envolvência, atmosfera, temperatura sensorial. Ele gosta de kuduro, mas isto já é outra coisa. Na pista todos olham na sua direcção e balançam-se ao som da música. À frente lá estão alguns amigos vindos do bairro da Quinta do Mocho. Vieram ver com os próprios olhos, porque contado por Firmeza ou Liofox eles não acreditariam. E entram mais pessoas no espaço. Algumas delas caras conhecidas da noite lisboeta. Ajeitam-se junto ao bar, para sentir o ambiente. Mas não é possível. Ali dança-se. Não é exequível estar, apenas. Há suor para partilhar e, portanto, o melhor é deixar-se os casacos no bengaleiro. Agora, atenção, Nigga Fox, quebra um pouco o ritmo, vai lançar nova bomba, ouve-se a introdução, trata-se de “Só nós 2”, tema incluído no EP “O meu estilo” mesmo agora editado, e levantam-se os braços, grita-se, o som irrompe, e há uma felicidade transbordante no ar e lembramo-nos das palavras de Kolt, no bairro da Jamaica, dias antes: “aquilo não é só curtir, é mesmo amor.”

 

Música para pular portuguesa

Mas, afinal, como classificar esta música e os seus praticantes? Simples: portugueses a fazer óptima música popular portuguesa. Vítor Belanciano Portugal vai-se descobrindo lentamente. Já existe a percepção que é habitado por pessoas de cores e proveniências diferentes entre si. Mas entre esse entendimento e a aceitação espontânea de coisas simples, como haver cada vez mais portugueses com tons de pele distintos, com histórias familiares e práticas diferentes da auto-imagem que ainda temos de nós, ainda vai alguma distância.

Caso sintomático são os Buraka Som Sistema. Mesmo com uma história de sucesso, iniciada em 2006, é raro não haver artigo na imprensa, portuguesa e internacional, que não hesite na forma como os nomear: portugueses, angolanos, africanos, luso-angolanos, lisboetas, lusófonos? E a música que praticam conduz ao mesmo: lisboeta, portuguesa, luso-angolana, afro-portuguesa? A verdade é que a partir do momento que utilizamos expressões, por delicadas que sejam, como “lusófonos”, “segunda geração de emigrantes” ou música “afro-portuguesa”, já estamos a instituir diferença, mesmo que a ideia seja tentar legitimar a diversidade. Talvez isso justifique porque é que, apesar do triunfo dos Buraka Som Sistema, e da emergência de novos e estimulantes nomes que se inspiram também em expressões urbanas, sejam o kuduro, o afro-house ou outras quaisquer (Batida, Throes & Shine, Octa Push), ainda existe um deserto de noites dedicadas a estes sons.

 

Para além da noite Príncipe, existem também as sessões Hard Ass, lideradas pela editora Enchufada dos Buraka, no Lux, em Lisboa, embora numa linha muito diferente. Depois, o quase deserto. Nem no chamado circuito da ‘noite africana’, diz-nos Marfox. “Nas discotecas africanas há kizomba, semba e, de vez em quando, um pouco de kuduro. Mas uma noite só com afro-house ou kuduro não existe”, reflecte ele. “Nem em Angola, que eu saiba. Aliás, quando digo aos meus amigos angolanos que existe uma noite no centro de Lisboa onde se pode ouvir kuduro cinco horas, com todas as pessoas a dançar sem parar, eles ficam espantados.” Entre portugueses e angolanos não existe rivalidade. Pelo contrário. “Os angolanos inspiram-se em nós, e nós neles, porque é isso que faz as coisas avançar” diz Marfox. “Eles querem ter a mesma qualidade de ‘beat’ que nós temos, e a nós interessa-nos atingir o mesmo escalão ao nível da percussão. É uma coisa fantástica, essa troca de informação, porque mesmo quando se tenta fazer semelhante, inevitavelmente cada um fará diferente.” Joker aponta também diferenças: “estamos atentos aos ritmos angolanos, mas aquilo que fazemos tem apenas alguns pontos de contacto, porque aqui é a nossa vida, são as nossas experiências, as nossas influências, as pessoas com quem nos damos, então, tudo isso acaba por estar também na música, que é algo só nosso.”

Às vezes a arte antecipa, ou contribui para acelerar, transformações sociais. Um dia, quase sem darmos por isso, integramos uma realidade como sendo nossa e nem nos aperceberemos que antes existiu um processo de assimilação que demorou o seu tempo. O que acontece nas noites da Príncipe acaba por ter uma carga de intervenção social maior do que muitos comícios. Mas vai ainda demorar algum tempo até encontramos as palavras correctas que se ajustem à realidade. Quer dizer, elas já existem. E são acessíveis: Os portugueses Buraka Som Sistema, Marfox ou Nigga Fox fazem excelente música popular portuguesa. Exactamente como Mariza. B Fachada. Carlos do Carmo. Ou os Real Combo Lisbonense. Simples. Mas é verdade que as palavras podem baralhar. É para isso que existem noites como a da Príncipe, para mostrar de forma inequívoca e sem margem para dúvidas, através da música, dos corpos, do suor, da sedução, da malícia saudável, tudo aquilo que existe de semelhante entre todos, para lá das palavras.

 

publicado no jornal Público, 26/7/2013

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