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A produção cultural vive de relações humanas, entrevista a Irlando Ferreira

Saiu de Cabo Verde há uns anos para se formar em Lisboa em produção cultural. Estagiou no Teatro Nacional e trabalhou no Teatro Trindade como produtor (2009 – 2011) e fez acontecer muitos espectáculos. Encontra-se neste momento a fazer um estágio nos Estados Unidos de seis meses, pelo programa Inovartes, onde vive, nos seus 29 anos, a exigência de uma grande companhia de teatro. Mas foi com as associações em Cabo Verde que começou a ganhar gosto pela ideia de ajudar a materializar aspectos artísticos e pela dinâmica de equipa. Artistas e talentos há muitos, mas sem uma produção competente muitos deles não poderão aguentar o desafio. 

O que esperas aprender e viver culturalmente com este estágio?

O meu estágio em Los Angeles é no The Antaeus Company, uma companhia formada por profissionais de teatro, sobretudo actores, especializada na produção de teatro clássico e é reconhecida pelo seu alto grau de profissionalismo. O meu estágio é em Production Management, especificamente no Classic Fest 2001, festival de teatro clássico, produzido pela companhia, que terá uma duração de 3 meses, e, na produção do espectáculo “Peace In Our Time”, de Noël Coward que ocupará os restantes 3 meses. Espero aprender tudo aquilo que estiver ao meu alcance pois sinto-me na obrigação de aproveitar da melhor forma esta oportunidade única. Relativamente à vivência cultural, tendo em conta que Los Angeles é um dos grandes centros artísticos, quero desfrutar ao máximo da diversidade que a cidade me proporcionará. 

Depois desta oportunidade tencionas voltar para Cabo Verde?

O meu foco é Cabo Verde, mas não sei se voltarei logo depois de terminar o estágio nos Estados Unidos. Não tarda muito para dar ao meu país o meu contributo na área da cultura, na medida do possível, já que foi essa uma das grandes razões que me levaram a sair da minha terra.

Porque te interessa trabalhar nas áreas culturais?  

O meu interesse pela área cultural foi nascendo e crescendo de forma natural. Comecei logo em Cabo Verde num grupo de dança, o Geração Cretcheu, como bailarino e como um dos responsáveis pela parte organizativa e burocrática do grupo. Ao longo do meu percurso, fui-me apercebendo da importância da cultura e da arte na vida das pessoas em sociedade. Foi por essa razão que decidi que a minha luta como cidadão seria no sentido de promover a cultura e a arte, independentemente da sua proveniência, pois são bens universais. Interessa-me trabalhar na cultura porque não me revejo em nenhuma outra área de actividade e tenho a certeza de que não seria tão útil e me sentiria tão preenchido fora desta área.  

 

Em Cabo Verde, quais as experiências mais fundadoras? 

As que vivi no grupo Geração Cretcheu e na Associação Fou-naná Projectos. Foi aí que aprendi os princípios básicos do funcionamento em equipa. O facto de sermos um grupo jovem com muitos elementos, onde todas as decisões eram discutidas e tomadas em conjunto, fez-me perceber desde cedo que o respeito pela opinião do outro constitui uma das pedras basilares para qualquer relacionamento humano. Por outro lado, a Fou-naná Projectos fez-me ver além da “caverna”, ou seja, despertou-me para outras realidades e fez-me ambicionar outros voos, rumo à aquisição de novos conhecimentos.

 

Como foi a adaptação a Lisboa?

Graças à excelente recepção quando cheguei a Portugal, por parte dos meus professores (especialmente as professoras Eugénia Vasques, Conceição Mendes, Maria Mendes e os professores José Espada e Miguel Cruz), colegas e toda a equipa da Escola Superior de Teatro e Cinema e do Teatro Nacional D. Maria II e do Teatro da Garagem, a minha adaptação à cidade de Lisboa não poderia ser melhor.

O que achas do meio cultural português?  

É muito rico, e Lisboa em particular. Há um vasto leque de oferta e a qualidade artística é boa. Porém, noto que muitos Promotores Culturais preocupam-se demasiado com o facto de conseguirem encher os espaços, não pela qualidade e/ou rigor artístico, mas sim pela preocupação de se apresentar um balanço positivo (numérico e/ou comercial). No final de cada ano, ao Ministério da Cultura ou a outras entidades que financiam os projectos culturais. Penso que se deve ter em linha de conta a importância de cativar públicos e obter receitas (até porque quem financia também espera esse retorno) mas a qualidade de um evento deve ser sempre o primeiro fim a perseguir.

 

 

Há pontes suficientes a nível cultural entre Portugal e Cabo Verde? Que ideias tens para desenvolver quanto a estas ligações?

Tendo em conta o factor histórico que envolve Cabo Verde e Portugal acho que, a nível cultural, não há pontes suficientes entre si. Na minha opinião, deveria haver uma maior mobilidade artística e cultural, possibilitando um maior cruzamento de conhecimentos e circulação de projectos artísticos e culturais. Porque não começar a criar protocolos entre os dois países, que tenham como fundamento uma maior mobilidade dos artistas, dos agentes culturais, dos estudantes das artes e dos projectos artísticos e culturais entre Cabo Verde e Portugal e vice-versa. Por exemplo, quando pedi visto de estudo para Portugal, tive várias dificuldades que poderiam ter sido evitadas ou mais facilmente resolvidas caso houvesse um protocolo. Referindo Cabo Verde em particular, na minha modesta opinião, deveria haver um maior apoio por parte das entidades competentes, aos jovens e não só, que saem do país em busca daquilo que os preenche. Como foi o meu caso, por exemplo.

Qual a importância desse lado mais invisível… do lado técnico e da produção dos espectáculos

Ambos têm a mesma importância que as rodas para um carro ou uma hélice para um barco…Na sua ausência, não há acção.

 

O que pensas fazer quando regressares a Cabo Verde com a tua experiência?

Tenho um projecto com âncora em Cabo Verde que, por estar ainda numa fase de desenvolvimento, não pode ser revelado. Quero primeiro criar raízes fortes e só depois o anunciarei.

 

Como foi trabalhar em Produção no Jus Soli do Tony Tavares?

Não é por ser meu amigo, mas devo dizer que foi uma honra produzir um espectáculo do Tony Tavares. O Tony tem uma característica humana e uma visão artística invulgares. A produção do Jus Soli não poderia ser melhor pois correu tudo como planeado. Porém, o sucesso da referida produção não teria sido alcançado sem o profissionalismo (factor que eu preso muito) dos vários intervenientes. Como costumamos dizer em Cabo Verde, “o Tony tem uma boa costa”, que significa fortúnio. Esta é uma das razões que me deixa muito feliz e orgulhoso por ter iniciado o projecto, OI – ART Produções, com o Jus Soli.

Quais os objectivos e método de trabalho da OI-Art Produções?

Produzir e apostar em projectos de excelência artística e profissional. É também objectivo da produtora a internacionalização de artistas e projectos artísticos e culturais (de Cabo Verde para o mundo e do mundo para Cabo Verde), apostando na Produção de diferentes linguagens artísticas. O método de trabalho baseia-se, sobretudo, no maior profissionalismo possível, pois entendo que é muito importante cuidar de todos pormenores referentes a uma produção com a mesma exigência e rigor e dando a maior atenção às relações humanas. Cada Produção deve munir-se de pessoas tecnicamente competentes e de bom relacionamento, para que o resultado final possa ser excelente.
 
Que pessoas e como te influenciaram ao longo do teu percurso?

Vou-me focar naquelas que mais me moldaram como profissional. O primeiro de todos foi o meu amigo Maky Lima, que me iniciou na produção de espectáculos. Mais uma vez, refiro o Tony Tavares, que me tem prestado apoio como amigo e profissional: inspiro-me muito no percurso dele, e, temos em comum o facto de termos saído do nosso país à procura daquilo que nos preenche – o mundo das artes. A Conceição Cabrita, com quem estagiei no Teatro Nacional D. Maria II e que me ensinou que a produção de espectáculos é, acima de tudo, uma profissão de relações humanas e que, por mais complexa que uma tarefa se possa mostrar, há sempre uma solução para a resolver, desde que haja conhecimento para o efeito, trabalho e boa interacção entre as equipas. E uma grande referência para mim é o Michael Kaiser, Presidente do Kennedy Center for the Performing Arts, pela sua visão artística.

Como foi a tua formação e experiências de trabalho em Portugal, nomeadamente no Teatro Nacional e no Teatro da Trindade?

Formei-me na Escola de Teatro e Cinema em Lisboa e tive a oportunidade de estagiar no Teatro Nacional D. Maria II, no Departamento de Produção, e, enquanto estudante, trabalhei como técnico de palco e de luz no mesmo teatro em diversos espectáculos. Este último aspecto foi fulcral para a minha inserção no meio teatral de Lisboa/Portugal. Após o meu estágio no Teatro Nacional D. Maria II. em 2009, fui convidado pela actriz e encenadora Cucha Carvalheiro, Directora Artística do Teatro da Trindade, para fazer parte da equipa de Produção do referido Teatro. Além dos espaços mencionados, também exerci actividades noutros projectos, nomeadamente no Festival de Teatro de Almada, produzido pela Companhia de Teatro de Almada. 

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