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Anozero’ 21-22 | Bienal de Coimbra Meia-Noite

MEIA-NOITE. PARTE 1

27.11.2021 – 15.01.2022 

Este é um início, uma aproximação. Um arranque que abre vários caminhos para o Anozero’21-22. Aqui, são apresentadas algumas das bases que sustentam a proposta para a Bienal. Apresentadas, conversadas e discutidas, porque estes são alguns dos seus princípios-fundadores: a discussão, a abertura, a participação. 

A Meia-Noite chega com uma exposição-conversa. Numa instalação concebida especificamente para a Sala da Cidade por Carlos Bunga, serão apresentados quatro filmes: La cabeza mató a todos, de Beatriz Santiago Muñoz; Les mains negatives, de Marguerite Duras; A Bissau, le Carnaval, de Sarah Maldoror; e Shadow-Machine, de Elise Florenty & Marcel Türkowsky — todos indiciando temas centrais no pensamento e construção da Bienal. A instalação de Carlos Bunga irá transformar-se temporariamente numa sala de projeção e de conversas onde diferentes grupos da comunidade serão convidados a visionar os filmes e, a partir deles, iniciar conversas sobre a diversidade, igualdade, justiça social, produção de conhecimento, relações poéticas entre espécies, e sobre a noite como um espaço de resistência. Para cada filme, serão também convidados pensadores, artistas e diferentes membros da comunidade de Coimbra, que possam desafiar novas perspetivas para refletirmos em cada filme. Esta mesma estrutura de Carlos Bunga será posteriormente trabalhada pelo artista para integrar a exposição central da Bienal em abril de 2022.

O primeiro momento da Bienal pensa na arte como um lugar inclusivo, um bem comum, uma ferramenta de confronto com a realidade, um espaço onde se escreve uma história coletiva sob inúmeros pontos de vista. Esta exposição é, acima de tudo, uma chamada à participação. Um projeto de envolvimento, discussão e participação comunitária que questiona o formato tradicional de exposição e sugere novas formas de relacionar a arte com o seu público. E que propõe uma Bienal profundamente enraizada na sua comunidade, para a qual diferentes públicos e diferentes agentes serão envolvidos desde o início do seu pensamento e construção.

Meriç AlgunMeriç Algun

MEIA-NOITE. PARTE 2

09.04.2022 – 26.06.2022

Comecemos por um exemplo a partir do qual possamos extrapolar para uma dimensão mais alargada os objetivos e o projeto da quarta edição do Anozero. 

A Biblioteca Joanina, do século XVIII, é uma pérola do Barroco e um tesouro da Universidade de Coimbra. Este majestoso edifício, no centro da universidade, foi edificado como um gesto imperialista que almejava encapsular o conhecimento europeu e ostentar a glória colonial. Esta fortaleza do conhecimento (e do poder) é também o refúgio de uma pequena colónia de habitantes notívagos: morcegos, que encontraram nas condições ambientais da biblioteca o lugar ideal para a sua casa. Os insetos e as lagartas presentes nos 55 mil livros da biblioteca alimentam os morcegos, e o silêncio noturno oferece-lhes uma liberdade quase ilimitada. 

A noite é assim o momento em que os morcegos saem do seu esconderijo e começam a trabalhar na conservação daquele espólio, e do conhecimento. A noite encarada como um espaço de resistência e de liberdade. Um lugar político, metafísico e vivencial; um lugar que desde há um ano se encontra interdito. Esta é uma ecologia de pensamento que será central na reflexão da Bienal. 

Na conceção crítica da Bienal, a noite é considerada como espaço de fluidez, de quebra de normas, lugar aberto a outras possibilidades de visão, de conhecimento, de interação, aberto a outros corpos. A noite é historicamente um espaço que foi muito contestado, e ultimamente altamente politizado. 

Como território onde ocorrem as relações simbióticas de codependência e coevolução entre humanos e não-humanos, a noite fascina-nos. Interessamo-nos por este pluralismo que «transvalora» as categorias normativas universais. A existência dos morcegos na Biblioteca Joanina serve de centelha ativadora dos nossos pensamentos e, assim esperamos, dos que visitarão a Bienal. 

A universidade é, por excelência, um lugar de produção de conhecimento e de estabelecimento do poder. Se as bibliotecas são o epítome de (um determinado tipo protegido) conhecimento e os morcegos o epítome da escuridão (e do mal ¾ ainda mais na era pós-Covid), ambos só sobrevivem em mútua dependência. Assim, tanto a biblioteca como o morcego se transformam em sujeitos políticos. Uma questão central à nossa pesquisa para o Anozero é como questionar a produção de conhecimento corporizada pela Biblioteca Joanina? Como propor epistemologias alternativas? E como aprender com a inteligência dos morcegos? E como é que esta relação entre livros e morcegos pode servir de lugar para imaginar outras formas de interação e conexão?

Pretendemos libertar-nos das narrativas e do dualismo normativo do pensamento modernos que fraturam a sociedade contemporânea e geram uma imbricação de discriminações, como o racismo, a discriminação de classes, o sexismo ou a discriminação contra os deficientes, para referir apenas algumas, através da utilização de metodologias que nos ajudarão a experimentar formas criativas, inesperadas e marginais de produção de conhecimento. Vamos colocar os nossos óculos de morcego de Coimbra por cima dos nossos óculos feministas e desafiar um grupo de artistas a partilhar as suas ferramentas artísticas e críticas. Ferramentas que multiplicam e desconstroem mundos. Ferramentas que consideram a inclusividade e a invisibilidade, a empatia e a generosidade. 

Inspiradas na noite, iremos trabalhar com outros territórios, ou metodologias, que ajudam a pensar neste conceito de fluidez de pensamento que tenta desfazer e encontrar outras possibilidades para as dicotomias impostas pela cultura ocidental. Convocaremos metodologias que são simultaneamente territórios de investigação, como as relações interpoéticas, depois do patriarcado (a qual engloba uma visão feminista interseccional, mas também uma visão crioula), e formas de produção de conhecimento alternativas. 

Esta proposta para a Bienal é uma tentativa de abrir um interstício especulativo, que não propõe qualquer resposta, mas gera muitas questões. Uma tentativa de inventar outros modos de existência, de relações, de ser e de vivermos juntos. 

Elfi Turpin (França, 1976) é curadora e Diretora de Arte do Centre Rhénan d’Art Contemporain – CRAC Alsace desde dezembro de 2012. Por meio de escritos, práticas discursivas e curatoriais, colabora com artistas em projetos específicos, que envolvem pesquisa e intercâmbio de longo prazo. As exposições que organiza no CRAC Alsace são concebidas como um processo coletivo. Como tal, cada exposição estrutura e transforma o espaço.

Filipa Oliveira (Portugal, 1974) é curadora e, desde 2018, Curadora e Programadora de Artes Visuais da Câmara Municipal de Almada, tendo a seu cargo a direção artística da Casa da Cerca, da Galeria Municipal de Arte de Almada e do Convento dos Capuchos. Na sua programação, tem desenvolvido um projeto que assenta numa procura pelas invisibilidades e assimetrias, tornando evidente a necessidade de serem questionadas e discutidas no seio do tecido institucional cultural português, nomeadamente no que respeita às questões de género e ao pós-colonial. 

Elfi Turpin e Filipa Oliveira colaboraram na exposição Der Leone Have Sept Cabeças, patente no CRAC Alsace entre 19 de junho e 21 de setembro de 2014. A mostra contou com trabalhos de Pedro Barateiro, Lothar Baumgarten, Mariana Castillo Deball, Henri Chopin, Natalie Czech, Dora García, Jean-Pierre Gorin, Runo Lagomarsino, Quinn Latimer & Megan Rooney, Matt Mullican, Musa paradisíaca, Clemens von Wedemeyer, Katarina Zdjelar e ainda com uma seleção de obras da coleção Marc & Josée Gensollen.

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