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Claire Fontaine: em vista de uma prática ready-made

26 de Janeiro // 21h // Espaço Alkantara [Entrada livre]
Lançamento do livro Claire Fontaine: em vista de uma prática ready-made + Conversa + Performance
O título do livro dá nome a este encontro que parte do conceito de “greve humana” do coletivo Claire Fontaine para pensar a intervenção estética como prática política de um “artista ready-made”.

 

21h // Conversa com Leonardo Araujo, Pedro Bismarck e Miguel Cardoso
Apresentação: Mariana Pinho

Leonardo Araujo
Do que o Artista Contemporâneo Mundial no Império corre?

Se a Greve Humana não é a experiência mas a evidência da miséria social, da falta de experiência no Deserto – a vida no Império -, o que o artista estaria a fazer hoje senão a denunciar as mazelas e negligências das instituições de poder? Há, dentro do espectro de produção da arte contemporânea de cunho político e, algumas vezes militante, uma certa dificuldade em imaginar outros lugares, ideias e organizações que corroborem para a simples possibilidade de imaginar. O artista, neste caso, não é outro qualquer – singularidade quaisquer -, que ao tornar pública a sua obra, evidencia a nossa própria ausência afectiva, crítica e de comunhão? 

Pedro Bismarck

Uma língua de saltimbancos
Os Claire Fontaine fizeram da sua prática-de-artista um exercício de reflexão permanente sobre a relação entre a arte e a vida. E, no entanto, o tempo que atravessam (o tempo que atravessamos) é o da absoluta dissolução dessa ligação: “grandes barricadas colocadas entre a arte e a vida, entre o saber e o viver”. Talvez seja por isso que os seus objectos pareçam sempre ruínas e fragmentos de uma guerra em curso. Mas não. Mais do que despojos de um tempo passado, eles parecem ser os vestígios de um tempo por vir. Objectos desinventados (para usar um termo de Manoel de Barros) à procura de um novo idioma, uma nova linguagem (uma “língua de saltimbancos”?) que, enfim, “materialize a possibilidade de dançar numa corda bamba e de combater”.

Miguel Cardoso

Deste hábito de participar no desastre: uma dialéctica da degradação
A noção de ‘degradação’ (do que degrada, do degradado, do degradante) surge apenas de passagem nos escritos de Claire Fontaine. Contudo, vou testá-la aqui como ponto de entrada para algumas das tensões inscritas num conjunto amplo de termos que servem a Claire Fontaine para descrever o ‘estado das coisas’ (das subjectividades, das relações sociais), desde as mais conceptualmente carregadas– reificação, despossessão, equivalência – às de uso mais corrente – empobrecimento, indigência, miséria. O que pode surgir a partir do que é/está/foi ‘degradado’? Podemos articular, a partir desta noção, e deixando de lado os usos mais moralistas do termo, uma poética, ou mesmo uma política


a decorrer
// Performance com Sílvia
«O [omniadversus. self-actualizing the subject]»
‘O’ consiste numa experiência heteronímica imersiva num único corpo. Explora a identidade múltipla criando processos de subjetivação – linhas de fuga que transgridem as condicionantes do sujeito oficializado – através de uma prática imanente e impessoal, fora da dualidade caracteíristca do sujeito. ‘O’ promove uma intensa nomadologia que se prende com a vida. Integrados em circuitos sociais específicos, os heterónimos existem como persona viva em constate devir, assumindo a intermitência da autoria. 
‘O’ pretende desconstruir a medula da produção do sujeito e do autor. fomentando imprevisíveis atos de imanência do sujeito ou de objetos artísticos. Indagadora da funcionalidade do Eu, a plataforma ‘O’ prolifera como base para exercer a vacuidade do ser, incentivando o ser zero como mediação social e artística, expresso num presente multiplicável. 

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Claire Fontaine é um colectivo artístico sediado em Paris, fundado em 2004. Roubando o seu nome a uma marca popular de cadernos escolares, Claire Fontaine declarou-se um “Artista Readymade” e começou a elaborar uma arte Neo-Conceptual que frequentemente se assemelha ao trabalho de outros. Utilizando materiais como néon, vídeo, escultura, pintura e texto, a sua prática pode ser descrita como uma contínua interrogação sobre a impotência política e a crise da singularidade que parecem hoje definir a arte contemporânea. Mas se o artista hoje é o equivalente subjectivo de um urinol ou de uma caixa Brillo – tão descolocado, tão privado de valor-de-uso e tão trocável quanto os produtos que produz – há sempre a possibilidade a que Claire Fontaine chama “Greve Humana.” Claire Fontaine utiliza a sua frescura e juventude para fazer de si próprio uma singularidade-qualquer e um terrorista existencial em busca de emancipação subjectiva.

Claire Fontaine: em vista de uma prática ready-made é um livro de autoria do coletivo francês, produzido pela GLAC Edições, editado por Alex Flynn e Leonardo Araujo, com traduções de Aurore Zachayus, Fabio Morais, Lucas Parente, Noara Quinta, Luhuna de Carvalho, Mariana Pinho e Nuno Rodrigues. 

A GLAC edições surge da união entre Leonardo Araujo e Gustavo Colombini. Desde 2011 os dois produzem publicações independentes das ideias e textos dos seus trabalhos conjuntos. A GLAC tenciona tornar público trabalhos que tenham o texto como objeto específico de produção, que lidem de modo experimental com a linguagem e que articulem o livro como objecto, criando projectos gráficos que atendam as demandas inclusas nas experimentações linguísticas dos textos. Actualmente a GLAC segue com três frentes de trabalhos: os livros gráfico-textuais produzidos pelos seus editores e convidados; edição, tradução e adaptação de textos anónimos e de artistas estrangeiros de carácter político; e o exercício de editar textos literários e dramatúrgicos de novos escritores no formato códex.

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Biografias:

Leonardo Araujo (São Paulo). Vive e trabalha em São Paulo. É escritor, crítico de arte e editor independente. Cursou parcialmente Filosofia na Unifesp e graduou-se em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes. Realizou a curadoria da exposição ‘Noves_Fora’ no espaço independente Beco da Arte, no qual trabalhou por 3 anos. Foi assistente no Núcleo de Pesquisa e Crítica em História da Arte na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Desenvolveu o projeto expositivo ‘Estruturas Possíveis: um diálogo crítico-criativo com o artista Bruno Baptistelli’, na Oficina Cultural Oswald de Andrade. Atualmente participa do Grupo de Estudos Práticos em Linguagem Experimental em que desenvolve o projeto ‘Gramatologia’ na mesma instituição. Também, realizou o projeto ‘Gravidade [espécies de espaços]’, junto ao artista Daniel de Paula Mendes, na Colónia da Cratera, Parelheiros e a exposição ‘próprio-impróprio’, dos artistas Frederico Filippi e Raphael Escobar na Galeria Leme. Através da Glac Edições, organizou o debate entre editores de língua portuguesa de Tiqqun e Comité Invisível, ‘Cidadãos, Voltem pra Casa!’ e lançou recentemente o livro ‘Claire Fontaine: em vista de uma prática ready-made’ e outros títulos de filosofia política e linguagem experimental. 

Pedro Levi Bismarck (Porto). É editor da Revista Punkto, Bolseiro da FCT e investigador do CEAU (Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo), actualmente a desenvolver tese de doutoramento na FAUP onde é Assistente Convidado.

Miguel Cardoso (Lisboa). Passou alguns anos fora e voltou. Para além de vários textos dispersos em periódicos e antologias, tem seis livros de poesia publicados: Que se diga que vi como a faca corta (Mariposa Azul, 2010), Pleno Emprego (Douda Correria, 2013), Os engenhos necessários (&etc, 2014), Fruta Feia (Douda Correria, 2014), À Barbárie seguem-se os estendais (&etc, 2015) e Víveres (Tinta-da-China, 2016). Vive, escreve e ensina em Lisboa.

Mariana Pinho (Lisboa). Mestre em ciências da comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e Universidade Federal do Rio de Janeiro. Especializou-se na área da filosofia contemporânea e ao longo do seu percurso pessoal/académico tem procurado articular o pensamento político com as artes plásticas e o cinema. 

Sílvia (Lisboa). Licenciada em Comportamentos Escultóricos pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Barcelona, desenvolve ‘O’ – uma prática e pesquisa artística auto-etnográfica. Através da performance imanente e de comportamentos escultóricos ativos, pratica a heteronímia como subjetivação múltipla e fragmentação da identidade. ‘O’ é proposta pós-representacional do objeto artístico: intervenções teóricas, visuais, performativas e como imagem-em-movimento. Sílvia expôs na Alemanha, Islândia, Espanha, França, Itália, Austrália e Japão sob várias autorias, tendo exibido filmes em vários festivais, tais como, Festival International du Court Métrage, Clermont-Ferrand em França, In-Sonora em Madrid, FILE Festival Internacional de Linguagem Electrónica em São Paulo, Festival MOFO, MONA FOMA, Austrália, entre outros.

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