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Desta nossa-de-todos Lisboa, sobre os espectáculos de Outras Lisboas

Outras Lisboas foi um ciclo organizado pelo Teatro Municipal S. Luiz em 2008, em articulação com o simultâneo Ano Europeu do Diálogo Intercultural (e o ACIDI). Por ideia do director José Salavisa, foi encomendada a construção de três espectáculos-reflexão sobre as comunidades de imigrantes existentes na cidade de Lisboa: ao Teatro Meridional foi atribuída a africana, ao Teatro Praga a de leste e a’O Bando a brasileira, tendo-se desdobrado em actividades complementares (debate, festa, música).

Reivindicando-se na continuação de iniciativas de “diálogo e cumplicidade com outras culturas” de que é exemplo o projecto Dançar Cabo Verde na Lisboa 94, Outras Lisboas ecoa uma motivação análoga à do filme Lisboetas, de Sérgio Tréfaut. Lê-se no programa, “volvida mais uma década de ter sido Capital da Cultura, [Lisboa] está diferente, cheia de outros e novos lisboetas, de novos cheiros e novos sons” e é construída por “muitas Lisboas, outras gentes, outros públicos”, razão de ser do desconto de 50 por cento nos bilhetes com comprovativo de que se é imigrante (mas, e quem não tem papéis?).  

'Turbofolk' do Teatro Praga‘Turbofolk’ do Teatro PragaOutras Lisboas divide um “nós” de uns “outros”, ainda que ambos “lisboetas”, mais ou menos ‘alfacinhas’, sendo esta divisão estratégica (porque em cada proposta se pôde – ou não – questionar estes limites)1

Um “Outro” que, não se querendo omitir, se aceita, se tolera e se festeja (vertente “politicamente correcta”) ou se rejeita (vertente xenófoba). É que o lugar discursivo em que debatemos estas questões tem tendência a prolongar o mito luso-tropicalista do modo português de receber o “Outro”: brando, amistoso, com tendência para a miscisgenação. “Um “Outro” que – dentro da lógica-pós-política-de-recuperação-tolerância-em-todas-as-direcções em que vivemos – aparece como cultural, enquanto identidade apolítica a afirmar (não referidas que são as condições sociais e económicas que o marcam).

Uma das referências no espectáculo do Teatro Praga, Slavoj Zizek, critica esta lógica que “reduz as reclamações (queixas) de um grupo particular a simples reclamações de teor particular”2, integrando-as como “escolhas” e, por conseguinte, as esvazia de “qualquer capacidade de modificação da trama que determina como as coisas funcionam”, incentivando o florescimento de grupos que têm a sua razão de ser no consumo (o mesmo consumo que os causa- e pense-se nos motivos das emigrações). Lógica esta que reproduz em cada novo grupo outro lógicas identitárias mesmas, numa construção de fronteiras e “kits” identitários ad infinitum, sem deixar, porém, de aparecer como a única resposta tolerante e bem intencionada ao assustador “choque de civilizações” de Hunttington, isto é, à deriva fundamentalista das teorias ultra-conservadoras cujo resultado óbvio foi a invasão do Iraque.

Do modelo multiculturalista passámos à interculturalidade, tentativa de quebrar o círculo fechado das várias culturas no interesse de ‘promover um diálogo’ que pressupõe dois ou mais sujeitos comunicativos sem que nenhum se anule. Interculturalidade que não deixa grande escolha, contudo. Que se opõe a racismos e fundamentalismos – e nisto (já não é pouco) é fundamental, mas que o faz ainda a partir de uma “posição eurocêntrica, um ponto vazio de universalidade privilegiado a partir do qual é possível apreciar”, constituindo-se como um “racismo denegado” (id:72) a que as várias populações acedem, construindo-se auto-reflexivamente num resgate de identidades/“culturas” (síndrome senhora ucraniana faz serviços de limpeza) cujas contradições e armadilhas se tornaram evidentes nestes trabalhos.

'Lisboa Invisível', Meridional. Foto José Frade.‘Lisboa Invisível’, Meridional. Foto José Frade.

Lisboas: as várias cidades.

Na abordagem dos grupos de teatro às diferentes comunidades foram territorializados ‘bairros’ metafóricos, como zonas de protecção e ausências dentro da Lisboa “dominante”, insistindo-se nas categorias hóspede/hospedeiro (clássicas da retórica emigração/imigração), a que a noção de interculturalidade procura escapar. É que todos terão “passado a habitar nas fronteiras emocionais e culturais de dois mundos”.

Africanos querem sair da invisibilidade.

A proposta do Meridional partiu das estórias trazidas pelos novos actores negros e mestiços (nascidos cá e noutros países lusófonos). Num processo interessante e arriscado que confluiu para uma Lisboa invisível, de vivências que pendulam entre a periferia-onde-há-laços-afectivos e o centro-cidade-estrangeira, foi usado um andaime como suporte cénico para as várias cenas, culminando na montagem de um bairro precário onde a ver a bola se canta o hino português e se dança kuduro.

A construção de quadros de cariz sociológico sobre a vida destes cabo-verdianos, angolanos e moçambicanos em Portugal (como país racista mas pacífico) ao não conferir densidade subjectiva às personagens, planifica e tipifica tanto os africanos da Lisboa Invisível como o “Portugal racista/Lisboa visível(?)”. São imigrantes (e não pessoas numa condição específica) aqueles que vemos, e disso versam as saudades (recorrentes telefonemas para casa), as humilhações e burocracias nas idas ao SEF (Serviço de Emigração e Fronteiras), a dificuldade de integração e revolta, o racismo, a exploração e os maus-tratos do patronato, a ignorância e o preconceito, o desemprego e a delinquência, as rusgas policiais e as profissões invisíveis que são o sustentáculo da vida urbana – limpezas, obras, cozinha. Neste quadro difícil irradiam o calor das festas, a dança, o estilo e beleza, o convívio, a vida familiar em redes de solidariedade que os africanos inteligentemente cultivam, salvaguarda nos momentos difíceis, o riso e a boa disposição desarmantes que todos os problemas faz menores, a capacidade de auto-ironia, de pôr a ridículo a sociedade que os exclui. 

A ideia do africano excluído (na peça diz-se que 90 por cento dos PALOP nunca foram convidados a ir a casa de um português’), auto-excluído (a vida de gueto que os miúdos repavam) e a criação de sub-grupos (a indiferença perante o vendedor senegalês) é sintoma de uma construção de identidades à qual é retirada complexidade. É que Lisboa Invisível, ainda que manifeste uma vontade de sair da cidade invisível, de a dar a ver, não abdica dos estereótipos (numa espectacularização mimética à qual o português já está familiarizado) representando a “comunidade africana” de acordo com as expectativas e imagens que lhe estão associadas, sem esforço de transformação ou desconstrução.

No entanto, um apurado trabalho de actores (a quem a dramaturgia em grande parte se deve) e um espectáculo bem ritmado, problematizando questões económicas, objectivaram as dificuldades da não-integração.

'Lisboa Invisível', Teatro Meridional. Foto José Frade.‘Lisboa Invisível’, Teatro Meridional. Foto José Frade.

O Leste não existe mas existe.

As pessoas vindas dos ex-chamados países “de leste” não se vêem como sendo de Leste, no entanto, existe uma ideia de Leste que influencia a própria forma de o “Leste” hoje procurar narrar a sua história (que ainda está por fazer). Mas, e como é que pode ser uma Lisboa dos imigrantes de um Leste que não existe? Quem é essa gente do leste? Como é que se desenha um território?

'Turbofolk' do Teatro Praga‘Turbofolk’ do Teatro PragaApós alguns equívocos, o Teatro Praga, que descobriu que a história das diversas imigrações “de leste” para aqui já teve várias fases e se encontra agora num período de refluxo (passa-se por Portugal a caminho de), chegou ao termo Turbofolk. Turbofolk, estilo muito popular de música de dança surgido na Sérvia, fusão de ritmos tradicionais com electrónica, com correspondentes na Roménia (Manele), Angola (Kuduro), Brasil (Funk da favela); energia poderosíssima de mistura entre o tradicional reinventado pela cultura de massas e a técnica reapropriada pelo tradicional. Turbofolk pessoas, música, palco de re-apropriações, conflitos e negociações infinitas, símbolo conservador e energia disruptiva. Turbofolk metáfora de que os “costumes” na base das construções identitárias são mais vivos do que as mesmas, e de que isso é o mais interessante a pensar.

Turbofolk entendido pelos Praga como estado de espírito e não de território, maneira transversal de se estar com, festa para a qual só se convidam os amigos (com características dos “guetos” das subculturas urbanas e artísticas), modo de reflexão sobre os mecanismos dos grupos (e esta, talvez, a grande proposta do espectáculo): é que afinal posso ter mais a ver com um actor sérvio com os dentes tortos (que é meu amigo) do que com um português de Trás-os-Montes (que não conheço), sendo que isso depende de, and the question is, lê-se no programa, – How do YOU prefer your english?

É-nos proposta inicialmente uma viagem pelos lugares comuns do Leste (em palco um Kremlin insuflável, filiações culturais, muitos símbolos e quinquilharia) que apenas prova, decaída a aura simbólica de outrora, como as construções identitárias são realmente estranhas. Espectáculo de excesso, de hiper bulimia pop a deixar perpassar uma certa angústia do agora, Turbofolk reúne amigos daqui e do que antes era o leste numa mesma incerteza comum, nem multicultural nem intercultural – “todos colonizados por esta ordem global” (Zizek). São viagens partilhadas, territórios já não nacionais mas nem por isso mais afáveis. E, terminada a primeira parte em que o cenário do leste é desligado, nada resta a não ser o palco vazio, uma bateria, uma assembleia que se faz para dentro (em que se discutem os termos de existência de uma comunidade), e a cortina de ferro que, caso o teatro S. Luiz a tivesse, deveria cair.

'Em Brasa', O Bando‘Em Brasa’, O Bando'Em Brasa', O Bando‘Em Brasa’, O Bando

O Brasil é já aqui!

“Mas que povo complicado! A gente pede uma torrada, vem duas. Pede duas, vem quatro!” É a descoberta da língua igual mas estrangeira que nos aparece na Lisboa abrasileirada de Em Brasa, de O Bando. É uma cidade de cruzamentos, da intersecção de caminhos que as personagens recorrentemente desenrolam no chão compondo um tapete urbano de pluralidade e aleatoriedade. Lisboa, metáfora de uma crioulidade que se quer festiva com ritmo de samba e bossanova, onde se vende cocada e se faz capoeira mas também onde um pernambucano vê o mar pela primeira vez e um homem sofridamente caminha com uma porta às costas na tentativa de entrar (fixar-se?). O Brasil reinventado num jogo especular, relação de atracção (‘o Atlântico é só uma desculpa!’) de Portugal com o irmão – que se tornou gigante – e a quem simultaneamente custa a perda de uma autoridade rendida às evidências (a figura de amargura do polícia português que vai desaparecendo no chão), visível por exemplo nas vozes conservadoras contra a unificação da ortografia.

Em Brasa dramatiza fragmentos de textos de autores brasileiros (Carlos Drummond, Clarice Lispector…), sendo a palavra uma espécie de resistência romântica à mercantilização caricaturizada (‘coisa clandestina’) que remete para a presença maciça de brasileiros na cidade (a maior comunidade, 100 mil pessoas). No entanto, muito embora a heterogeneidade do seu elenco profissional e não profissional, sobressai o pendor alegórico marcado por estereótipos não apenas da “portugalidade” e “brasileiralidade” tradicionais, como da tipificação da sua miscigenação.

 

Queria que a minha cidade fosse a tua.

As estratégias identitárias são agenciadas conforme o contexto lhes é mais favorável. É por meio delas que os imigrantes, como nós (nos vários grupos a que vamos pertencendo), construímos esta nossa-de-todos-Lisboa para viver, em formas de adaptação não estanques. A cidade, como horizonte de acção, testemunha os percursos de indivíduos e grupos e é de quem nela vive. E é multicultural, pense-se na Lisboa do séc. XVII com 10 por cento de população africana ou nas misturas (celtas, árabes, africanos) que a foram compondo.

Sendo as migrações constantemente reivindicadas como parte da narrativa fundadora portuguesa e Portugal um país de emigrantes, só agora, que as entendemos como transversais (pelo menos) a toda a UE, numa altura em que as fronteiras nacionais mostram as suas fragilidades num mundo global, é que a questão parece ‘andar no ar’ em moldes mais alargados, nas escolas, nos media, no incentivo à abertura ao outro e respeito à diversidade (ainda que muitas vezes seja abordada tão simplificadamente que, como foi dito, caricaturiza).

Na realidade, nenhum dos grupos interpelados acredita abstractamente num diálogo intercultural “celebratório” mas, ainda assim, o que neste ciclo se pôde observar foram menos as vidas concretas das pessoas – isto é, uma resposta-travão à retórica das comunidades-identidades3 que qualquer cidade cosmopolita alberga enquanto ‘mais-valias’ culturais e económicas4 – do que uma continuação disso mesmo.

A ressalvar a imensa generosidade, trabalho, espírito de festa e de abertura com que os três grupos de teatro foram procurar (encontrar?), ouvir e trazer a ouvir.

 

Artigo originalmente publicado no Le Monde Diplomatique, 2008.

  • 1. Como se disse num dos debates, estas separação tem um sentido provisoriamente, até ao dia em que não for preciso utilizá-la.É disto sintomática a importância dada pelas directrizes europeias à ‘identificação’ e balizamento das ‘outras’ culturas, com o antecedente da suposição de que a sua falta de reconhecimento poderá ter contribuído para o eclodir dos acontecimentos de França em 2005.
  • 2. Slavoj Zizek, O Elogio da Intolerância, Lisboa, Relógio d’Água, 2006 p.51.
  • 3. A este respeito parece-nos que, como Paul Gilroy propõe, mais do que demonstrar o pluralismo cultural no Ano Europeu do Diálogo Intercultural (também ano mundial da batata) interessará “tentar construir contra-histórias da interacção convivial que é praticada normal e rotineiramente na vida quotidiana das cidades pós-coloniais”. A Urgência da Teoria, Lisboa, FCG, 2007. p.176.
  • 4. ‘Tanto idoso que anda por aí’, disse um brasileiro no debate, sugerindo que, com o seu trabalho, ajudavam a pagar as reformas dos portugueses.

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