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Futuro e Tradição em Djam Neguin

O Single “Ka bu skeci tradison” magnificamente dirigido e interpretado por Djam Neguin convoca-nos à ação, num quadro de inexorável erosão dos nossos traços identitários como povo, nação e individuo.

Este jovem artista, com um currículo soberbo nas áreas performativas em Cabo Verde, traz-nos uma preciosa reflexão sobre o tema tradição vs modernidade. Djam é um artista inventivo, irreverente, definitivamente irrequieto e com uma criatividade e sensibilidade muito profundas. Tendo sorte de dialogar com este magnifico ser humano, revela-se um interlocutor perspicaz e agradável, porém de posições e convicções fortes. Sendo muito jovem ainda, será adequado, mas nada profético dizer, que apesar do já grande espólio cultural, vislumbra-se uma carreira de enorme relevância para a renovação cultural do país. De gente revolucionária como Djam, este país precisa. Bem-haja!

Ka Bu Skeci Tradison

No seu single “Ka bu skeci tradison”, Djam Neguin fala de um futuro que aparenta ser distante, mas que nossas mentes já habitam…em que estaremos numa espécie de “camisa de forças” e hipnotizados pelo ecrã. Um futuro em que aquilo que nos é intrínseco, como seres providos de relações como marca ontológica (sociais, culturais, afetivas, …), poderá estar em pose de finado, tal qual nos conhecemos.

Implicitamente no vídeo subentende-se alguma ligação às ansiedades que uma vida “no futuro-presente” nos proporciona. Porque sim, vivemos e consumimos o futuro antecipadamente. Na ansia de vencermos a finitude, esse inimigo que nos enrijece, nos faz deuses inconfessos, domadores da natureza, senhores da lua, do espaço e do universo infinito, mas que sub-repticiamente nos amedronta e, a qualquer momento, nos vencerá inapelavelmente. Ao menos fosse no fim quando não mais nos restarem forças!

Todavia das ansiedades que falava, Djam fica pela parte sublime e fascinante dela. Djam fala de uma certa urgência, de um lugar de fala que põe a tónica nas raízes da civilização “berdiana”. Evoca e insta ao aprofundar de uma construção civilizatória do herói ilhéu [É ó mocinho la di Santiago / Leba na bu petu raiz di bu povo]. Essa construção é a saga que persegue o homem cabo-verdiano desde que os nossos ancestrais atravessaram o atlântico, numa simbiose com os cascos dos navios negreiros. Assim equiparados a dejetos humanos, das cinzas, nus, bateram no peito e surgiram labaredas que anunciavam a descoberta de um elemento de percussão: Nasciam assim “Batuko e Tchabeta largadu na txada”, para o desespero dos seus algozes.

Decorridos meio milénio de edificação cultural e social, concordemos com Djam. Uma das pérolas da contemporaneidade é a lei do consumo, do mercado e paradoxalmente aliada a uma liberdade elitizada. Se por um lado viver no passado gera ressentimentos e saudosismos exasperados, a nossa atual vivência no “futuro-presente” é geradora de novas causas e dilemas. A questão cultural é uma delas. Qual será o deslocamento necessário para que a cultura não seja engolida pela tecnologia, a religião hegemónica do séc. XXI? Quais serão os caminhos para que essas duas vertentes indissociáveis do mundo atual se desenvolvam de forma harmoniosa? Quais os níveis de adaptação serão suportáveis para que não se desvirtue a nossa essência cultural?

Perguntas possíveis num emaranhar de implicações que o “futuro-presente” nos arreganha à frente dos olhos, qual destempero de um louco nos convidando a testar/soltar a nossa própria loucura.

Ka Bu Skeci Tradison

A música fala de uma hipotética viagem, que pode ser interpretado como um vislumbrar dos tempos, [ou do tempo] por esta contemporaneidade fora, do futuro que vivemos e consumimos todos os dias [o medo do futuro nos convida a “comê-lo”, antes que a morte nos coma]. Após “benson di bai djes dan”, porém com a advertência de “ka skeci tradison”, apela a um ente superior “spritu di luz”, não obstante as luzes simbolizarem o intelecto, a dimensão metafísica nos é intrinsecamente constitutiva como seres plurais. “Bentu di mar”, faz apelo de facto ao imenso acervo ontológico do herói “berdiano”, a uma construção e valorização que se quer crescente, sólido e constante – a nossa marca identitária.

Djam Neguin, sendo um artista multifacetado e universal (Musica, Teatro, Dança, etc.) subentende também essa especificidade do cabo-verdiano como cidadão do mundo. A globalização que começa com as caravelas, começou em paralelo a formação do herói “berdiano”. É sintomático essa valência de se atribuir a varias pertenças (Africa, Europa, América…) não só pelos traços biológicos e aculturação, mas também pela emigração.

A globalização aliada ao fenómeno de desenvolvimento tecnológico desenfreado tem gerado ansiedades e instabilidade a todos os níveis nas sociedades contemporâneas, onde imperam a impermanência, a ambiguidade e a capilaridade dos intercâmbios humanos. O setor cultural parece estar na linha da frente desta batalha em terreno movediço onde reina a desculturação, alienação e a canibalização dos aspetos primordiais tradicionais através da estilização ou “mercantilização” exacerbada da cultura, em nome de um tal de “progresso” [a propósito, lembro-me agora da expressão “p’ra frente é que está o progresso!”. Será?].

Dizia, a heteronomia de um certo medo instrumental, recurso fundacional de retoricas totalitárias que o progresso nos proporciona, como no dizer de Bauman o “dilema da liberdade sem segurança ou segurança sem liberdade”, nos remete a uma terceira via que amiúde se vai configurando como uma ética ecológica. Acreditar que irá vencer o medo, faz parte dos que acreditam no novo messias. Esta obra artística de Djam nos faz acreditar sim, que um desenrolar harmonioso entre o “moderno” e o “tradicional”, telúrico e os traços culturais de um povo devem ser simbioticamente atrelados ao seu próprio processo de desenvolvimento, de forma que sobreviva ao tempo, esse carrasco do qual nenhum dos nossos corpos escapa, mas que sim a memória coletiva pode fintar. Até ver!

Ao viajar pelo futuro, se esquecermos as nossas tradições, estaremos condenados a uma morte extra que é o da memória coletiva, do homem e do herói “berdiano”. Ao sairmos do espaço físico das ilhas, nunca deixamos de ser quem somos, mas ao abandonarmos a nossa herança cultural seremos órfãos e defuntos ao mesmo tempo. Se serve de consolação, seremos uns “Zômbis”, vagantes sem alma.

Djam nos alerta de forma contundente sobre os riscos que corremos como seres sociais por excelência, e portadores de cultura. Uma cultura genuína e com traços próprios que urge serem melhor preservados e valorizados. O alerta parece estender a uma certa visão que poderá estar obstruída por uma “realidade aparente”, uma “Matrix” que nem suspeitamos de que para além de espetadores somos atores principais.

Labaredas [no vídeo] nos insinuam [evocam] raios de lucidez sobre os caminhos de um hipotético herói do futuro. Quiçá, manter-se fiel às tradições, à cultura e a uma essência primeva seja a marca revolucionária nestes sinuosos caminhos da contemporaneidade. O poder transformador do futuro, [se porventura não o terá sido diferente noutras dimensões temporais], advirá do esforço que se fizer na saga pelos valores e símbolos fundadores da nossa identidade, como indivíduos e como parte de uma coletividade que se fortalece da energia da terra, do sangue dos nossos ancestrais e do suor e das lágrimas (de dor & euforia) dos partos das nossas mães.

Urge acatar este apelo sensato e igualmente firme de Djam Neguin, e pleitearmos internamente com os nossos equívocos e monísticas crenças de um progresso meramente tecnológico.

Um arrepiar de caminhos na nossa mis-globalização cultural nas ilhas, nas comunidades, nos indivíduos. Porém também das elites e sua apatia pós-abraço [e beijos de judas] ao poder. Definhamentos ideológicos, demagogias de conveniência e estádios de ataraxia emocionais de dimensões epidémicas.

Ka Nu Skeci Tradison

Boa Vista, 29 de Janeiro 2022

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