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Hip hop: breve história e introdução ao mundo do rap crioulo

Da janela do meu quarto ouço Rapaz 100 Juíz na rua 5 de Julho com “CV de Oji en Dia” no dia da independência. A única música desses pop rappers da Assomada com alguma consciência político-social, sem ser no entanto corrosivo. 

Olhando para trás, para a história do hip hop, iniciada nos States nos anos sessenta, da herança dos griots – os contadores de histórias, da tradição africana da oralidade – muita coisa mudou. Normal. Vivemos hoje na era alter-moderna, parafraseando Nicolas Bourriaud. 

Já ultrapassámos a época dos motins sócio-raciais nos guetos norte-americanos característicos dos anos sessenta, nos quais se destaca a rebelião de Watts em Los Angeles, em Agosto de 1965. Já se foi o tempo dos discursos inflamados de Malcolm X ou dos Black Panthers. A época do ressurgimento cultural no seio da comunidade negra norte-americana, do protesto e dos poetas pré-rappers Watt Prophets, Last Poets e Gil Scott-Heron, os vovôs do rap contemporâneo. 

De África para o Bronx, no porão dos barcos negreiros, passando pela Jamaica e levado à terra do Uncle Sam pelos rude boys (os mesmos por detrás do surgimento da cultura skinhead nas ilhas Britânicas), o hip hop encontra nas block parties dos guetos negros nova-iorquinos, nos anos de 1970, terreno fértil para o seu desenvolvimento e solidificação como cultura de protesto e de rua. Começa assim a era do sound-system e a consagração do DJing, ou seja, do DJ Kool Herc. Sem esquecer, é claro, o DJ Afrika Bambaataa. Do casamento entre a criatividade e ritmo negro e a tecnologia branca, surgem nos finais de 1970 o electro-rap e a era do disco. O MCing pós-vovôs poetas de rua surge mais tarde, trazendo consigo o B-Boying e o Writer, tendo neste último elemento destacado os tags de Taki 183 nos Subways do Big Apple. 

O elemento do hip hop que mais se destacou foi sem dúvida o MC. Da década de setenta a noventa do século passado, a nível de estilos, temos a old school, onde se destacam Afrika Bambaataa (fundador da Zulu Nation), Run-DMC, Roxanne Shanté, LL Cool J e os Beastie Boys. Os profetas da ira, citando Contador e Ferreira, ou o rap radical, a idade dourada do rap, onde se destacam os Public Enemy, KRS-One e os NWA (Niggers With Attitude). Estes últimos vieram desterritorializar o rap para a Costa Oeste. No campo do rap afrocentrista, destacam-se Native Tongues e A Tribe Called Quest. 2 Live Crew, grupo de Flórida, em 1986, inaugura um dos estilos mais polémicos numa América pseudo-puritana, o rap porno. 

O gangsta rap ou reality rap surge em South Central, Los Angeles, no seio da guerra urbana entre os gangues Crips e Bloods, pelas mãos de Ice T, subgénero tornado famoso pelos NWA e mundialmente popularizado por 2 Pac. Este subgénero inspira-se na cultura chicana (americanos de origem mexicana). Nas gangues ou street syndicates chicanas, marcado pelo orgulho da raça e especificidade cultural, tendo como referência o pachuco, símbolo de resistência cultural chicana. Surge assim o gangsta style no rap (vestuário largo e comprido, culto pela marijuana e uso do calão).  

A new school, década de noventa do outro século, é marcada pela rivalidade Costa Este/Costa Oeste, onde se destacam os bifes entre Notorious B.I.G. e 2 Pac, e a comercialização da cultura hip hop. Entramos naquilo que alguns consideram a era pós-rap: o trip hop e o jungle. Mas também, para outros, o regresso do rap de protesto, onde se destaca Dead Prez

Em Cabo Verde, mais concretamente nas cidade da Praia e Mindelo, tendo o hip hop sido importado dos States nos finais de 1980, em moldes B-boy, só em meados dos anos de 1990 o rap ganha fama, impulsionado pelas campanhas políticas de 1995/6. Sendo verdade que Heavy H é uma das referências, grupos como Niggaz Badio, Chipi Girls na Praia e Black Company, IPV, Bairro Norte ou PTR no Mindelo podem ser considerados old school… foi o manager Gugas Veiga quem abriu a porta. 

Em 2000, há o boom e o nascimento da geração thug, antes geração yo. O rap chega à periferia dos dois maiores centros urbanos do país, alastrando-se mais tarde para outras regiões (Assomada, Tarrafal, Santa Cruz, Porto Novo…). Em termos de estilos, existe o pop rap (Central Side), o rap kizomba (Djédjé), o gangsta rap (Karaka), o rap radical (GPI-Knowledge), o rap thug (Caixa Baixa), o rap gospel (Nax Beat) e o rap afrocêntrico (HipHopArt). Não se pode falar ainda de um movimento hip hop ou movimento hip hop crioulo mas o rap está vivo e tem alguma consciência. Embora, a maioria é moralista, reproduzindo o discurso dominante sem sequer questionar as causas dos fenómenos que assolam a actual sociedade cabo-verdiana. Nota-se uma enorme necessidade de se alcançar a fama e ganhar dinheiro, tornando-os presas fáceis para os políticos como se viu na campanha legislativa última. No entanto, destacam-se grupos como FARP (Lém Cachorro) e Sindykatto de Guetto (Ponta D’Água) com forte envolvência em trabalhos comunitários…   

Muitos são os artistas cabo-verdianos de outros géneros musicais que olham para o rap com algum desprezo e tentam marginalizá-lo. A nível da oralidade pode-se considerar o rap uma versão urbana, sofisticada e contemporânea do finason – um tipo de griot (exemplo aqui). Como espaço de reivindicação político-social, hoje, alguns grupos rap fazem aquilo que o funaná e a morna fizeram nas vésperas da independência. Música de protesto e consciencialização social contra um sistema corrupto, desigual, injusto e violento.    

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