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Ingmar Bergman, o caminho contra o vento de Cristina Carvalho

Cristina Carvalho privilegiou-nos (a mim e à minha mulher) como seus primeiros leitores do seu último livro, Ingmar Bergman – O Caminho contra o vento, e é nessa qualidade que aqui estou sentado à sua mesa para falar do livro.

Ora, para vos falar de Bergman, um dos meus primeiros mestres, gerou entusiasmo, ousadia, depois dificuldades várias. Não irei falar de cinema, o que seria grande atrevimento, sou mero espectador mais ou menos atento.

Também a escritora não o fez e não precisava, outros, especialistas, o fizeram e bem. O foco de Cristina Carvalho foi para o homem e a sua intimidade. Com o passar dos anos, na arte, fui percebendo quão importante isto significa na compreensão da obra: conhecer o quotidiano do seu criador.

Lágrimas e Suspiros, Bergman (1972)Lágrimas e Suspiros, Bergman (1972)

Devo dizer que Bergman exerceu um poderoso fascínio quando eu e a Mila começámos a ver os seus filmes com regularidade no final dos anos 60. E assim se sucederam Mónica e o Desejo, O Sétimo Selo, Morangos Silvestres, O silêncio, Lágrimas e Suspiros, Sonata de Outono, Fanny e Alexander. A admiração era tal que, em 1985, nos levou, subitamente e de um dia para a noite, a uma aventura recambolesca de comboio até Madrid para tentar, e conseguir, assistir à estreia da sua encenação de A Menina Júlia, de Strindberg no Teatro Español, incluído no então Festival Internacional de Madrid.

Também recordo que nos primeiros anos da ampla colaboração com o encenador Rogério de Carvalho, nomeadamente na longa preparação e ensaios de As Três Irmãs, de Tchekhov, víamos e revíamos vezes sem conta Lágrimas e Suspiros, estudando enquadramentos e luz.

Foi assim que me iniciei no valor da sombra, na definição do claro-escuro, no papel fundamental de uma dramaturgia da luz e do espaço.

À medida que fui avançando na leitura do novo livro CC, “descolei da escrita” e mergulhei numa espécie de autobiografia que, ao contrário da Lanterna Mágica de Bergman, essa sim uma autobiografia, se insinua mais por factos mais simples, pequenas fissuras na existência de um homem que marcou a cultura do século XX.

E, quase a cada página, como fundo constante um ciclorama difuso: a paisagem imaginária da ilha de Fóre que rapidamente nos transporta para a solidão, a desolação, um mar de rochas fantasmagóricas, praias do silêncio, lugar primitivo. 

Este livro é como uma radiografia e nela transparece e impressiona uma incómoda presença da humanidade, quase repulsa da mesma depois de a ter conhecido, uma necessidade de esquecer fantasmas (constantes sombras nas paredes) e, como pano de fundo, o desejo de esquecer o peso insuportável da popularidade, e de esquecer os pesadelos de uma infância dura e traumática.

Da obra que nos chegou primeiro, tanta coisa boa, tantas referências, tantas influências, que realmente só começamos a compreender e digerir totalmente, por contraste com o conhecimento do homem, atrás do criador anunciado. E assim as coisas que eram belas, medonhas ou inexplicáveis passam a ter uma raiz.

Mais do que o cinema, foi o teatro que marcou a existência artística de Bergman, nunca escondendo a sua profunda admiração (atracção) por August Strindberg. Uma das suas mais recorrentes encenações foi para O Pelicano de Strindberg, e bastava saber dessa predileção para termos uma ideia de como Bergman sentia afinidades com Strindberg, para poder falar em comum dos níveis de crueldade e violência aos quais o homem pode chegar.

A máscara é também uma marca que vislumbro sempre na sua obra e, neste livro, isso está bem presente, marcante até. Com o jogo permanente da máscara, a fonte inspiradora, Bergman passa a ter o antes e o depois, passa agora a revelar o homem por detrás da obra, evidenciando uma das suas obsessões: localizar a fronteira entre a representação e a vida.

'O luto vai bem com Electra', de Eugene O’Neill. encenação Rogério de Carvalho, cenografia José Manuel Castanheira‘O luto vai bem com Electra’, de Eugene O’Neill. encenação Rogério de Carvalho, cenografia José Manuel Castanheira

Por vezes sentimos na obra da autora um ligeiro perfume tchekhoviano, quando nos surpreende com a referência às … bolachas com yogurte … no quotidiano de Bergman. Fizeram-me lembrar aquele velho personagem de uma peça de Anton Tchekhov que se lamentava de “gastar” todo o dinheiro a comer rebuçados … ou então o relógio da caixa alta que nos evoca as casas mais antigas como a casa da propriedade de O Cerejal de Tchekhov … ou ainda as mil vezes que ele viu O Circo de Chaplin.
Já se percebeu que gosto muito deste livro. Tem imagens muito fortes: como o homem solitário a caminhar contra o vento ou “tudo na minha vida está pensado ao pormenor, menos eu”. 

O homem que caminha contra o vento adquire uma outra dimensão quando se percebe que ele também corre contra o mundo, ou contra uma certa parte do mundo, cito… todo o mundo por vezes me irrita, esta é a verdade.

Sem conhecer a ilha, fico com uma ideia muito forte desse lugar primitivo de refúgio, cito um tempo em que o mundo não era mundo…

A sucessão dos lugares, das casas e das várias mulheres que amou, proporciona uma visão avassaladora do génio, deveras difícil e único de Bergman, onde uma personalidade de dimensão universal adquire por vezes a simplicidade (como ele parecia gostar) de um comum cidadão.

Intensidade, uma palavra um pouco gasta, ou em desuso, aqui podia originar outro título… A intensidade segundo Bergman. Mas isto são meras especulações. Gosto muito do título do livro. Fiz como a Mila: depois de acabar, reli tudo. Será um grande romance biográfico, temos a certeza. Gostaríamos de ter pisado o chão da ilha, mas fica-nos uma ideia fortíssima, graças ao poder da escrita de Cristina Carvalho.

conversa sobre o livro no Folio, 13/10/19

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