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Noite passada em B.Leza

No B.Leza, as noites são de muita dança e lusofonia. O ambiente descontraído e amigável da casa proporciona encontros inesquecíveis ao ritmo da poética africana…

Uma noite no B.Leza passada em “beleza”. O mundo inteiro, com todas as suas gentes e lugares, caberia neste clube lisboeta. Poderíamos estar num porto mercantilista do século XVI ou num aeroporto do século XXI. Um pouco como aquela música da Maria Rita: “Todos os dias é um vai-e-vem. A vida se repete na estação. Tem gente que chega pra ficar. Tem gente que vai pra nunca mais. Tem gente que vem e quer voltar. Tem gente que vai e quer ficar. Tem gente que veio só olhar (…) E assim, chegar e partir. São só dois lados da mesma viagem…” O B.Leza, uma estação com konbóiu (s) a partir e a chegar de Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé, Angola, Brasil…

O B.Leza reabriu em 2012, depois de uma ausência de cinco anos. Está renovado, mas conserva o espírito de diversidade, liberdade e criatividade que fez da casa um lugar de referência e de culto da música e da cultura lusófonas. Pelo clube passaram nomes consagrados, como Tito Paris, Celina Pereira, Maria Alice e Dany Silva, entre outros. Tito Paris chegou mesmo a gravar um álbum ao vivo ali, isto no tempo em que as noites do B.Leza aconteciam num salão arrendado do palácio Almada Carvalhais. O salão, com vista para o Largo do Conde Barão, misturava o glamour palaciano com a degradação trazida pelo tempo, uma certa estética do decadente que fazia lembrar um qualquer lugar de música em Havana ou na Cidade da Praia…

O novo espaço fica na zona ribeirinha, num armazém que foi transformado em open space. De cá de dentro, vemos o Tejo, o Cristo, Cacilhas e as luzes da Margem Sul a piscar; um cenário idílico.

B-leza no Cais do SodréB-leza no Cais do Sodré

Hoje é festa de Cabo Verde

O fumo espalha-se pela sala do bar, que é aberta para a sala do palco. As paredes, cor de sangue de boi, alojam pintura contemporânea. O mobiliário vintage, juntamente com as cortinas de veludo vermelhas corridas sobre as grandes janelas, dão um toque acolhedor ao espaço. O balcão de madeira do bar é muito comprido, iluminado por grandes candeeiros suspensos no tecto. À entrada, vemos o bengaleiro e um conjunto de cartazes a anunciar os próximos espectáculos e workshops no clube. A música, “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Cada ritmo africano tem alma própria. Há pessoas que demoram mais tempo a encontrá-la, outras menos, há aquelas que já nasceram com ela. Mornas, coladeiras, semba, funaná, quizomba, de tudo um pouco se ouve aqui. O ar da noite corre quente, 36 graus na rua. Dentro do clube, acima dos 40. O porteiro, um negro com uns dentes desalinhados muito divertidos, avisa que o ar condicionado avariou. Lá dentro, Miri Lobo canta alguns temas de “Caldeira Preta”, o seu último álbum, num tributo a mais um aniversário da independência de Cabo Verde. Hoje a festa é dedicada a este país. Várias pessoas do meio artístico cabo-verdiano estão hoje no B.Leza. Dão abraços de reencontro, soltam gargalhadas, recordam momentos vividos no palco e fora dele. Miri Lobo interrompe o concerto para chamar ao palco Calú Moreira, o cantor residente do B.Leza, também ele cabo-verdiano. Cumprimentam-se calorosamente. Calú elogia Miri Lobo: “É com muito prazer que temos connosco este grande talento da música de Cabo Verde”. Miri Lobo agradece a Calú com um forte abraço. Miri tem a camisa de linho azul toda molhada de tanto transpirar, escorre suor do seu rosto. Solta a piada: “Daqui a um bocado já não sentimos calor!”

Quizomba, a música do momento

É sexta-feira, noite de enchente no clube. Agora é a vez de Calú cantar, acompanhado pela banda residente do B.Leza. “Boa noite, bem-vindos ao B.Leza!”, a frase de sempre desta casa mítica. Na pista, os corpos dançam colados uma quizomba e, de seguida, um funaná. A quizomba é a música que está na berra, fala de amor e paixão nas suas letras, e tem diferentes passos, desde os mais básicos até às passadas mais profissionais. “Para dançar bem quizomba é preciso deixá-la entrar dentro de nós”, diz um amigo que anda a aprender o ritmo africano. O funaná é de origem cabo-verdiana, fácil e rápido de dançar, tem muito do folclore português, sobretudo do corridinho.

De cada vez que venho ao B.Leza, reparo nas caras novas, mas também naquelas com quem já me cruzei diversas vezes e não esqueci. São os habitués. Alguns deles costumam estar junto à pista a observar as senhoras para depois decidir qual delas convidar para dançar. Dançam com muitas mulheres na mesma noite – ou só com uma, se a coisa correr muito bem entre o par -, e têm paciência para as ensinar. Felizardo vem ao clube todos os fins-de-semana. É angolano e vive em Portugal há 20 anos. Trabalha nas obras como pintor. Dança com Laura, uma mulher na casa dos 50, com maquilhagem forte, que usa um vestido com um grande decote e calça sandálias de salto muito alto. Laura tem um posto de chefia num organismo público. Ela e a irmã, Maria José, são frequentadoras assíduas do B.Leza. “Não há outro lugar em Lisboa como este – confidencia-me de copo na mão e anca a abanar ao som do batuque – aqui toda a gente conversa e dança com toda a gente”. Também na pista, Mayra dança com Juca. Ela, 24 anos, é uma mulata muito bonita, cara redonda, olhos grandes em formato de amêndoa, cabelos cacheados longos. Ele, de 30, é o seu namorado. Ambos vivem na Amadora, mas cada um com a respectiva família. Juca nasceu no Sal, em Cabo Verde. Mayra já nasceu em Portugal. Juca segura a cintura de Mayra, que o abraça à volta do pescoço. Dançam a tarraxinha, um movimento em que, parados, se roçam um no outro, parecendo que se despem enquanto dançam vestidos. É o momento mais sensual da dança que aquece tantas cidades africanas que toda a gente deveria experimentar nem que seja uma vez na vida.

B-leza antigo num palácio do século XVIIB-leza antigo num palácio do século XVII

Ao encontro do outro pela noite dentro

São três da manhã. A zona do bar encheu: africano rico, de sapato camurça rosa, relógio de ouro no pulso; africano artista estilo rapper ou black power (cabelos muito volumosos usados pelos negros nos anos 70); africano excêntrico de calça escocesa, óculos escuros espelhados e chapéu cowboy; angolano artista plástico, de camisa e calça de linho bege, sapato de pele, com mulher branca, morena, de cabelo quase pela cintura; africana de saia comprida preta a cair sobre o salto alto e gorro grande de lã em cima dos cabelos alisados; cantora cabo-verdiana de vestido pelo joelho padrão flores, justo ao corpo, sandália de salto pequeno, unhas dos pés com verniz lascado, cabelo apanhado; angolana sensual de vestido azul eléctrico, argolas nas orelhas, cabelo ondulado e salto muito alto; guineense muçulmano de calças de linho, camisa tecido tipo Arafat, colar de missangas ao pescoço; senegalês vendedor ambulante, de perna partida, chinelo de piscina azul e branco num dos pés; português de camisa às risquinhas de boa qualidade e sapato mocassim; casal branco de meia-idade muito elegante. É esta a mistura de gentes, lugares e vivências que dá lugar aos encontros mais improváveis, e que espelha o lado mais ousado, inclusivo e intercultural da cidade.

Outro habitué do clube é um personagem enigmático de nome Daniel Vieira. Trata-se de um senhor de idade bastante avançada. Tem uma barba branca comprida, a postura é curvada e os óculos dão-lhe um ar de filósofo. Caminha devagar e, por vezes, entre uma palavra e outra faz uma pausa para conseguir retomar o fôlego. Diz que é pintor, que tem uma exposição montada lá para os lados da Sé. “Sempre foste visitar os meus quadros?”, pergunta, porque me confunde com a rapariga a quem outro dia entregou o seu cartão de visita. “O que é que fez durante a sua vida?”, inquiro. “Muitas coisas…”, diz, despertando a minha curiosidade. “Viveu em Cabo Verde ou tem alguma ligação com esta cultura?”, insisto. “Não, por acaso não. Canto música tradicional portuguesa. Já gravei um disco com o Jonh Luz… uma brincadeira que até ficou engraçada”. Jonh Luz é o músico cabo-verdiano que compôs a canção “Emigue Ingrote” para Cesária Évora e que este ano integra o cartaz do Festival de Sines. “Vou começar a cantar com ele aqui”, conta Daniel, entusiasmado. Jonh Luz actua todas as quartas-feiras no B.Leza.

De volta à pista, o ambiente ferve. Muita sensualidade nos corpos que transpiram juntos, deixando-se levar pela poesia cabo-verdiana. Vem um funaná: Neusa, Maliana e Noémia saltitam ao ritmo alegre e bem-disposto deste som. São as três angolanas, mas vivem em Portugal desde a infância. Vieram acompanhadas de três amigos, que, junto à mesa que ocupam, fazem sinais rap em frente a uma máquina fotográfica. Eles usam calças largas, ténis e t-shirts de marca. Um deles, o Yuri, tem boné e óculos escuros. “Iôu”, dispara mais um flash. Vão ter com as raparigas à pista e começam a dançar em pares. A noite já vai longa. Um grupo de jovens ingleses que parecem ser de Erasmus está na pista. Falam alto ao mesmo tempo que dançam um pouco bêbados. Sentados na beira do palco, alguns africanos observam os pares e aproveitam para descansar. Calú e a banda do B.leza descem do palco. Mas a música continua, agora ao ritmo acelerado do semba, um som originário do interior de Angola e que se transformou numa dança urbana de salão muito apreciada neste país.

“De uma história de amor, nasceu o B.Leza”

O B.Leza abriu em 1995 pelas mãos de Dany Silva e do pai de Madalena e Sofia Saudade e Silva, atuais proprietárias do clube, um advogado bon vivant com ligações à cultura cabo-verdiana. “De uma história de amor, nasceu o B.Leza”, pode ler-se numa das paredes da sala do palco. Como aconteceu essa história, se é que realmente aconteceu, e quem fez parte dela é que não é de conhecimento público. As duas irmãs quiseram honrar o legado do pai, dando continuidade ao clube. Desde então, o B.Leza tem sido palco de grandes momentos musicais, de tal forma que foi feito um disco de evocação à casa: “Ao Vivo No B.Leza”. Mas a história da noite africana em Lisboa vem mais detrás: antes de haver B.Leza, nos anos oitenta, existiram as Noites Longas, organizadas pelo lendário Zé da Guiné, e o Baile, um clube cabo-verdiano.

A hora do reggae

Calú Moreira está de volta. Chama ao palco uma jovem amiga da casa. Olham-se com a cumplicidade de quem partilha a arte de cantar. Apresenta-a. Cantam em dueto o “No, Woman No Cry”. O Público aplaude virado para o palco e batendo palmas com as mãos no ar. “Agora vocês!”, Calú desafia-nos a cantar o refrão. O reggae está por todo lado, nos movimentos soltos para trás e para a frente, na facilidade com que trocamos impressões uns com os outros na pista. Calú despede-se: “Boa noite, bem-vindos ao B.Leza!”. As luzes acedem-se na sala do palco.

No bar, escuta-se o burburinho de fim de noite. Alguns casais que se conheceram na pista saem juntos… Aproveita-se para beber o último copo e acabar conversas intermináveis. Lá fora, já está claro. Temperatura quase tropical. O B.Leza tem esta magia, ou talvez poesia, de proporcionar encontros inesquecíveis em noites de mil e uma noites.

 

Escrito em Agosto 2013

 

 

 

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