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O maravilhoso 1972

Em 2008 fiz um tema chamado Maravilhoso 1972. Nesse ano em que nasci, Luanda era a seguir a São Paulo, no Brasil, a cidade que mais se desenvolvia no mundo. Chamei-o de maravilhoso pelo pulsar, pelas memórias, pelo que se sentia que ia acontecer com todas as liberdades. Foi também esse o ano em que este marco da carreira dos Duo Ouro Negro e da música luso-angolana foi lançado.

Músico Paulo FloresMúsico Paulo Flores

Milo Mac-Mahon e Raul indipwo, ou o tio Aires, como alguns de nós o chamávamos, foram para mim e para muitos a principal influência, principal pista de como construir uma carreira internacional com a sua própria história, com as xanas do leste, os planaltos e as paisagens do sul de Angola, as cores e o cheiro da terra vermelha, molhada, o comboio “curicutela “, o umbundo e as línguas tradicionais. Num período em que a ditadura ainda existia em Portugal, num período em que Angola ainda era uma colónia portuguesa, num período complicado para se afirmar uma identidade, o Duo Ouro Negro conseguiu não só sobreviver como afirmar-se e internacionalizar-se na cena musical da altura.

Quando em 1969 fizeram a sua digressão pelos Estados Unidos, tiveram o contacto com o movimento negro norte-americano, o Black Power, e os direitos cívicos dos negros, de que fizeram parte, só para citar alguns dos mais importantes, nomes como Martin Luther King, Malcom X, Muhammad Ali, ou Miriam Makeba, a mãe África, nessa altura também a afirmar-se nos Estados Unidos com a ajuda do grande Harry Belafonte. Todos eles viriam a influenciar o pensamento e também a visão musical do que os Duo Ouro Negro viriam a fazer no trabalho de 72.

Quando em 1971 apresentaram Blackground em Vilar de Mouros, ao vivo e em antestreia, já se perceberia que era um trabalho bem à frente do seu tempo. Blackground contou com a participação de músicos como Bonga nas percussões, de Vum Vum, que cedeu a música N’vula (chuva), Lito Saraiva (Luis Ngambi) na guitarra, Zé Nabo no baixo, o baterista belga Adrien Ransy ou o teclista americano Kevin Hoidale. Ouvem-se também gravações do folclore angolano registadas pela empresa Diamang na década de 1950, resgatadas pelo Duo Ouro Negro. E tínhamos Eleutério Sanches, grande homem das artes, cantor, compositor e artista plástico, que foi o criador da incrível pintura que ilustrou a capa do disco.

Esta obra permanece até hoje como exemplo de liberdade criativa e de pensamento, sendo, ao mesmo tempo, um testemunho do black power da música como elo entre a África ancestral, como matriz, e os afro descendestes americanos e a sua musicalidade,
como influência. Está aqui a africanidade do pan-africanismo e do movimento negro norte- americano, está a África que foi com os escravos e retornou com os outros africanos do jazz e as variantes da música negra norte-americana, reconstruindo e reaprendendo os caminhos das liberdades que ainda hoje nos esforçamos por alcançar.

Este álbum faz-me regressar a um passado sonhado com uma visão e uma identidade muito fortes. Vejo-o como uma das obras mais marcantes da música portuguesa e da cultura de Angola, com uma estética vanguardista que ainda hoje se manifesta global, progressiva e contemporânea em todo o seu esplendor. Sem barreiras ou amarras, assumindo todas as culturas como matriz de todos os tons e ritmos, todas as cores e dialectos, onde a primeira brincadeira de infância, a primeira lembrança, a tradição, surgem traduzidas com alma, honestidade intelectual e pureza estética.

Como diz o Raul, “não podemos esquecer o nosso blackground”. E eu digo bem-haja esta reedição, que vai permitir aos mais jovens descobrirem o futuro lá atrás, nesse disco lançado no ano em que nasci, o maravilhoso 1972, maravilhoso como este álbum dos Duo Ouro Negro.

Artigo originalmente publicado em Público a 23/03/2018

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