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“Repressão – Rap, Ruas e Resistência”, disco de Chullage

“Sete anos sem um lançamento oficial mas com muita aprendizagem, muita luta e muita música com várias pessoas que me enriqueceram. Lanço novo disco motivado por aqueles que, encontrando-me nos bairros, ruas, transportes públicos, redes sociais, pediram mais música. Motivado pela minha fome de MC. Acima de tudo motivado pelo actual estado de coisas e falta de Estado nas coisas. Motivado pela resistência e pressão que temos que pôr nas ruas, nas colunas, nos ecrãs através da música, as artes visuais e guerrilha.”

 

Com estas palavras Chullage lança o EP do seu novo albúm Repressão – Rap, Ruas e Resistência, após um longo silêncio. Como já em Rapresália – sangre, lagrimás, suor (2001) e em Repensar – passado presente futuro (2004), mais uma vez a crítica social inflama os textos deste rapper português, filho de cabo-verdianos.

Chullage condensa nos seus versos os gritos que vêm dos subúrbios de Lisboa e, 

à surdez das instituições política, contrapõe uma extraordinária recepção entre jovens que, apesar de culturalmente heterogéneos constroem, através do Hip Hop, traços relevantes de uma identidade própria.

Crescido no meio dos prédios da Arrentela, Chullage confronta-se diariamente com a violência, a discriminação e a deriva social causada por um sistema – o da economia liberal e da higienização cultural, para utilizar as suas palavras – que exclui o outro e depois o deixa apodrecer.

Como as gerações passadas de afro-descendentes perdidas nas margens das metrópoles ocidentais, através da incisividade das palavras e dos beats hardcore, Chullage lança uma mensagem de revolta que quer destruir, mas também quer construir. Destruir conceitos e preconceitos, estereótipos comuns, como em Portugal aos portugueses (no album Rapresália), ou como em 16 Barras (em Repensar) onde a crítica investe contra o próprio mundo do Hip Hop no qual se encontram cada vez mais artistas atraídos pelo sucesso e pelo dinheiro.

 

Tudo o que eles kerem é o loot / Filhos da imigração alimentaram o rap k hoje alimenta filhos da puta/ Hip hop é carne em decomposição e ainda Niggas que não semearam a árvore são os mais atarefados a colher o fruto/ Enquanto só escrevem rimas pa quem manda 15 euros e ta Niggas contabilizam vendas, eu contabilizo guetto youth/ Que a minha rima recrute.

 

Mas o trabalho do Chullage tem também por objectivo construir: Chullage é activista e está à frente da Khapaz – associação de apoio social. Esta associação, a partir de uma ideia de Hip Hop pura, espontânea, exaltando a música, o freestyle, e também a dança e os grafites, oferece-se como alternativa para os jovens que vivem nos subúrbios degradados. Ao promover estas artes urbanas, a Khapaz encontra muito acolhimento entre os jovens de diversas culturas. 

 

 

Entre as mãos de Chullage o rap torna-se proposta activa. Porque se a babillone recolhe as vítimas, muitas das quais ela é que faz, são estas vítimas que se têm de levantar e re-auto-afirmar-se através das suas próprias medidas para exigir, mais uma vez, o respeito e a dignidade, que lhes são negados por um estado das coisas que ofende. Com certeza o Rap, filho da tradição oral, mas também de uma realidade contemporânea, urbana – ou suburbana – é umas entre estas medidas.

E, no passado, a música já ganhou algumas batalhas. Emancipate yourselves from mental slavery.

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