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Uma música com identidade

Em 1943 Benguela prospera. Com o famoso caminho-de-ferro a avançar em direcção ao interior africano, a cidade prepara-se para mudar de cara segundo um moderno plano de urbanização. Respira-se progresso. Numa das suas ruas um acontecimento importante está também prestes a acontecer: Dona Ludovina (uma cantadeira de mão cheia, diz-se), esposa de Sebastião José da Costa, um funcionário dos Correios e antigo jornalista, prepara-se para dar à luz uma criança a que dará o nome de Carlos Lamartine. Benguela prepara-se assim para receber, de braços abertos mais um grande filho, que se tornará num senhor grande da música nacional e autor de melodias imortais.

Os primeiros dez anos de Carlos Lamartine passam-se por entre as casuarinas da praia Morena, as bananeiras do Cavaco e as acácias rubras que enfeitam a urbe. Os sons, esses, são os do Carnaval tradicional, festa bastante impulsionada em Benguela por dois familiares seus: o tio José Silvério Ferreira (Velhinho), também fundador do grupo “Doze Pares”, que animou o carnaval de Luanda na década de 20, e o irmão mais velho, o jornalista de renome e membro do grupo carnavalesco “Cidrália” conhecido por “Cu de Palha” ou “Kuxoeta” (alcunha dada nas brincadeiras de Carnaval).

Em 1953 Carlos Lamartine muda-se com a família para Luanda e instala-se no Bairro Indígena. Lá, convive assiduamente com o grupo Morimba Show e com Quim Jorge (músico que se destacaria anos mais tarde como compositor). No ano da sua chegada à capital da então província ultramarina, funda com este seu amigo e com Victor da Popa Russa, “belíssimo tocador de harmónica de boca”, o conjunto “Rapazes do Brasil”. O grupo tinha como base instrumental a dikanza, a ngoma e os chocalhos. Entre os nove elementos que o compunham destacava-se também Sebastião José da Costa Neto, filho de Teófilo José da Costa mais conhecido por “Mbabaxi” (segundo Roldão Ferreira, foi ele o compositor da conhecida música “Milhorró”).

Se no início eram os sambinhas brasileiros a marcar a cadência do grupo, a influência do Ngola Ritmos logo colocou os “Rapazes do Brasil” no caminho da música de raiz angolana. Essa opção obrigou-os a recorrer as pessoas mais velhas que lhes explicavam não só o sentido dos sons, como o das próprias letras cantadas em línguas nacionais. Carlos Lamartine relembra: “Na altura líamos livros do Óscar Ribas mas para podermos interpretar aquelas canções em língua nacional consultávamos os mais velhos. Quando, por exemplo, cantava ‘Kinjangu’, era a minha velha quem me corrigia a pronúncia”.

A mãe de Lamartine, aliás, marcou-o também musicalmente. Na memória do músico ficou a sua voz a cantar a rebita “Mwadi nga Viti/ kwadilonga ku kavalu/ kutula ku makoko/ wolotekul’o jimosa”.

Três anos depois da criação dos “Rapazes do Brasil”, em 1956, enquanto estudava no Liceu Salvador Correia, Lamartine torna-se no percussionista do conjunto de Sousa Júnior. Ao mesmo tempo, ajuda a formar no seu bairro um grupo voltado para a música tradicional – o  “Kisweya”. Entre os membros desta formação contavam-se outros “miúdos” da sua idade: Barceló de Carvalho (Bonga), tocador de ngayeta, Carlos David André, Tizinho, João, Nando Kajibota e algumas bailarinas. Enquanto, por um lado, recolhiam músicas de compositores anónimos populares na época, por outro começavam a criar o seu próprio repertório.

Um ano depois, os mesmos jovens extinguiam o “Kisweya” e criavam “Mulogis do Ritmo”. Na verdade, a mudança não era mais do que uma forma de enganar os pais: “os velhos não queriam que nos dedicássemos à música, pelo que os grupos que formávamos não duravam muito. No entanto, assim que podíamos fundávamos outro conjunto, que era exactamente o mesmo que o anterior”. Depois de suspender durante um período a participação nos “Mulogis do Ritmo”, Lamartine regressa, trazendo consigo músicos do Kwanza Sul, entre eles o guitarrista Carlos Pimentel.

No início dos anos 60, o músico benguelense cria com Antas, antigo jogador do Ferrovia, o “Makoko Ritmos”. Por esta altura, em 1964, “Luís Montês, realizador de espectáculos populares semanais, já deambulava de bairro em bairro aos sábados com o seu ‘Kutonoka’, conquistando audiências”, relembra Zeka Sairava, falecido radialista. Este programa, nota por sua vez Dionísio Rocha, “foi uma das oportunidades para tirar do anonimato Lamartine, Elias dya Kimwezu, Mulato, Tonito, entre outros”.

Mesmo com o seu nome a ganhar alguma projecção, Carlos Lamartine afastou-se durante algum tempo das lides musicais. Regressaria alguns anos mais tarde, integrado no conjunto “Águias Reais”. “Em termos de produção artística dei um salto qualitativo em 1970, depois de ter saído da tropa colonial, porque optei por interpretar música angolana de raiz africana. Tornei-me compositor e intérprete e comecei a ganhar fama”, relembra.

Começava então a fase de gravação de discos. Entre 1970 e 1974, o músico editou uma série de trabalhos na famosa CDA – Companhia de Discos de Angola, estúdios criados por Sebastião Coelho e João Canedo. Entre os vários álbuns destaca-se o LP “Angola – Ano Zero”, que continha dez canções inéditas que marcaram uma época, entre as quais o clássico “Pala kunwabesa o muxima”. O grupo “Merengues” colaborou nesta produção, dando-lhe um toque especial com a viola-solo de Zé Kenu, a viola-ritmo do Zeka “Tirelene”, o baixo do Carlitos, as tumbas do Joãozinho e o trompete de Nandu. “Por razões técnicas imprimiram-se poucos exemplares e os cem primeiros discos foram numerados e identificados com um carimbo especial”, incidente que os transformou numa autêntica relíquia discográfica, nota Sebastião Coelho no livro “Angola – História e Estórias da Informação”.

Depois desta grande intensidade produtiva, Lamartine entra em silêncio. Volta muito mais tarde, em 1997, com o esplêndido disco “Memórias”, gravado em Portugal e produzido pela RMS. Com este trabalho o músico rendeu homenagem a todos os que contribuíram para a sua formação enquanto artista. Entretanto, a par da actividade musical, forma-se em História no Instituto Superior de Ciências de Educação.

A sua voz volta a soar algum tempo depois no trabalho “Histórias da Casa Velha”, uma recolha de trabalhos antigos. Em 2000 volta a entrar no estúdio para gravar “Cidrália”. Lançada no ano seguinte, esta obra ficou especialmente marcada pela música “Caravana para  Delfina”.

Segue-se, em 2005, o quarto disco, “Frutas do chão são coisas nossas”, um “tributo à vivência do povo angolano e uma valorização das tradições e da cultura de Angola”, como definiu na altura, e que inclui semba, rumba, lamento e cisose. Por fim, em 2007, edita “Caminhos Longos”, um álbum com 10 faixas que contou com as participações de Caló Pascoal, João Alexandre, Quintino, Habana Maior, Miqueias, Mias, Yéye, Neto e Estevão Bento.

Hoje Lamartine, que já prometeu para breve o seu sexto disco, vive em Brasília, onde trabalha como adido cultural na Embaixada de Angola.

Glossário

Dikanza – reco-reco.

Kanzumbi – espiritozinho.

Kinjangu  – cataneirão.

Kisweya – inimigo, tirano, fera.

Kutonoka – brincar, folgar.

Kuxoweta – definhado, seco.

Makoko Ritmos – “Coqueiros do Ritmo”

Mulogis do ritmo –  “Feiticeiros do Ritmo”. A grafia correcta seria “Miloji do Ritmo”.

Mwadi nga Viti/ kwadilonga ku kavalu/ kutula ku makoko/ wolotekul’o jimosa – o grande senhor Viti/ montou no cavalo/ chegado aos coqueiros/ pôs-se a seduzir as moças.

Ngayeta –, harmónica de boca

Pala kunwabesa o muxima – para vos agradecer

 in AUSTRAL nº 68, artigo gentilmente cedido pela TAAG – Linhas Aéreas de Angola

 

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